Gramática

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • Um ouvido novo, para uma história velha…

    Que atire a primeira pedra quem não passou por isso!

    Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem?

    Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde que pretendia ser apenas um encontro bacana. 

    Você acabou de passar por uma das experiências muito comuns em determinadas pessoas: o prazer em contar as mazelas porque passaram ou estão passando!

    Ah, tem também a que adora contar as minúcias da receita fantástica do bolo, que você nunca pretendeu fazer! 

    E pode ser pior! Sem combinar encontro, nada, eis que você acabou de ver a sua amiga ou colega hipocondríaca e pensa: Ah não, justo hoje, que tirei o dia para espairecer! 

    Dessa não há expectativa. É certeza que a pessoa está à beira da morte! 

    Sao tantos males, indisposições, exames de laboratório, nomes de médicos e remédios, que é como se você estivesse com um prontuário em mãos!

    E nem queira sugerir ou aconselhar nada: terapia, outro médico, mudança de perspectiva, positividade então, nem pensar! Pois se é a doença verdadeira ou cultivada que a coloca em foco! 

    Fique ali, presente, gentil, apenas ouvindo, pois naquele momento, o palco não é seu.

    Mas uma coisa é certa: Vocês acabaram de ganhar o selo de serem: “um ouvido novo para uma história velha!

    Agora é a sua vez: vai contar essa saga pra quem? Rsrs…

  • Para além do clichê

    Muito já foi dito sobre a atitude de Gerson de Melo Machado, morto recentemente por uma leoa na capital paraibana. O inusitado do seu gesto, no entanto, faz com que sempre haja algo mais a dizer. Gerson comentava com uma conselheira tutelar que queria ser um domador de feras. Disse-lhe que “ia pegar um avião pra ir pra um safári na África para cuidar dos leões…”. No afã de realizar esse intento, chegou a cortar uma cerca e entrar no trem de pouso de um avião da Gol; as câmeras do aeroporto impediram que o pior acontecesse.

    Filho de mãe esquizofrênica e neto de uma avó com problemas mentais, ele tinha na genética um inimigo. Presa de mais um delírio, encenou o último ato do seu drama (ou tragédia) aqui em João Pessoa. Imaginou que a Bica fosse um circo e se propôs a domar um dos felinos lá existentes. Queria pôr em prática o que durante anos acalentou como um desejo infantil. Numa espécie de transposição entre fantasia e realidade, o domínio sobre os animais seria uma metáfora para a vitória sobre as “feras” que interiormente o consumiam.

    Acabou, sem querer, transformando o Parque Arruda Câmara em local de um espetáculo tenebroso. Os turistas e demais visitantes depararam-se com o que não imaginavam encontrar num lugar dedicado à recreação e à momentânea fuga ao estresse da cidade (mais de uma vez levei lá meus netos, que se encantavam com a fauna e a flora diversificadas).

    Há algum tempo um leão circense arrastou uma criança que se aproximara da jaula e a matou. Falou-se então em negligência dos responsáveis pelo circo, também dos pais, e houve até processo. O dono do empreendimento chegou a sofrer um ataque cardíaco. Agora a situação é outra, pois a vítima se ofereceu à sanha do felino. Leona, como toda fêmea, era ciosa do espaço que lhe cabia guardar – e mal esperou que o invasor tocasse o solo.

    Sabe-se que Gerson adoeceu devido a genética e desamparo. Destituído do poder familiar da mãe, fora impedido de ser adotado – diferentemente do que ocorreu com os quatro irmãos. Passou diante disso a ter um comportamento erradio e marginal, o que mais ainda dificultava a sua adoção; família alguma queria receber alguém como ele. A sociedade não lhe deixou então saída. Seu gesto foi produto de negligência, não da administração da Bica, mas de todo um aparato social que o condenou ao abandono.

    “Atirar-se na boca do leão” é uma expressão figurada com que se designa a atitude suicida de alguém. Ninguém espera que esse clichê tenha um sentido literal, mas por vezes a sociedade se encarrega de tornar realidade o que, por absurdo ou inverossimilhante, a linguagem reserva ao domínio das figuras. Isso pode ocorrer no plano do horrendo e também do sublime. Pode nos conceder enlevo ou estupor. Num e noutro caso, encoraja-nos a repensar sentimentos e valores, e nos conduz a uma mais ampla percepção de nós mesmos.

    Gerson deu consistência real a uma imagem horripilante, que nos remete à selva de onde presumivelmente evoluímos. Com essa atitude, fruto de insensibilidade e rejeição social, ele mostrou o quanto ainda há de primitivo em nós. Depois do que fez, é impossível mencionar aquele clichê linguístico sem evocar o seu tresloucado gesto.

  • CROQUIS

    1

    O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, como se as íntimas verdades que expõem não fossem também as de quem o lê. O terreno comum aos homens é o das fraquezas disfarçadas, vilanias escondidas, aspirações muitas vezes inconfessáveis; o leitor agradece a quem o leva a se deparar com tudo isso, que também compõe o seu cenário interior.

    2

    Há quem diga que não vale a pena se casar, pois o amor acaba. Para mim é justamente o contrário: a efemeridade do amor é a maior justificativa para o casamento, que de alguma forma pode realimentá-lo.

    3

    De onde vem a culpa, esse império escuro que nos rouba a alma? Não devemos corresponder senão a nós mesmos, no entanto não conseguimos ter isso como uma verdade. Será sempre um problema de cada um conquistar a liberdade interior.

    A culpa, como todos os freios, precisa ser graduada. O excesso de freio impede que o carro se locomova; a falta dele o faz desembestar, com as terríveis possibilidades que isso implica.

    4

    O que é o tempo! As garotas bonitas que me ignoravam nas paqueras da Lagoa, ou na calçadinha da praia, hoje são senhoras simpáticas que me cumprimentam e até sorriem para mim. Agora não vale! Eu queria isso antes!!

    5

    A linguagem é o nosso confessionário. Falar é confortar-se; liberta e consola. Tudo que se subtrai ao desejo se compensa na linguagem. Por isso as pessoas falam, rezam, escrevem tanto. 

    6

    A razão é um demônio que vez por outra precisa dar uma sacudida no anjo da fantasia. Esse anjo, com suas róseas maquinações, pode entorpecer ou cegar. Nessas horas é necessário clarividência para não derrapar no fosso das ilusões.

    7

    A depressão caracteriza-se por uma defecção (abandono) do ser.  Depois que o indivíduo sai da crise, imagina não ser mais o que era. Sente a identidade como um fio tênue, que a custo lhe assegura a autopercepção. Ressente-se de plenitude. Um dos apelos patéticos que o depressivo faz a si mesmo ou a quem tenta ajudá-lo é: quero ser eu de novo.

    8

    A velhice é por natureza amiga da virtude. O homem só renuncia a certos pecados quando já não está em idade de cometê-los. Por outro lado, um dos maiores pecados da velhice é o ressentimento.

    9

    Costuma-se dizer que quem não ama a si é incapaz de amar os outros. Penso que é o contrário; quem não ama os outros é incapaz de amar a si. O amor, que é um sentimento basicamente altruísta, não pode ter como referência o ego de cada um. A percepção da incapacidade de amar o outro é que leva ao desamor por si mesmo.

    10

    Para o artista, a eternidade está no próprio ato de criar. É por esse ato que ele vive a transcendência da sua arte. Caso ela “fique”, ficará para os outros. O artista, enquanto homem, não sentirá o benefício da glória. Já o momento de fazer é tão-somente dele.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • A tarde e a crase

    Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena.

    Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como se alguém entregasse ao outro um tempo, uma presença, um encontro. Com a crase, “à tarde” muda completamente: já não se trata de um presente ou de uma posse, mas de um tempo em que algo acontece (“marcar um encontro à tarde para se entregar ao sexo”).

    Assim, ao propor a troca, Faraco mostra como a ausência ou a presença da crase altera radicalmente o sentido. Ele brinca com a ideia de que alguém poderia lhe dar a própria tarde (um pedaço da vida, um corpo, um tempo), mas ao mesmo tempo, revela a importância de escrever corretamente para não perder o sentido pretendido. A frase ganha, então, um perfume de sedução, transformando uma lição gramatical em jogo sensual de linguagem.

    É nesse risco invisível que mora a diferença: de um lado, o desejo; do outro, a obrigação. De um lado, carne; do outro, horário. A língua portuguesa tem dessas perversões: uma partícula mínima, expletiva para uns, é capaz de acender ou apagar a chama de um texto inteiro.

    Faraco sabia disso. Jogava com a ambiguidade, mas também nos alertava: escrever errado é perder o sentido; escrever certo é ganhar vertigem. Entre a gramática e o erotismo, mostrou-nos que a língua é também um corpo que respira.

    Porque a vida é feita desses detalhes. Uma oração subordinada mal compreendida pode roubar o sentido de um texto. Um pronome possessivo mal colocado pode alterar a intenção de quem ama. Um verbo bitransitivo mal conduzido pode inverter agente e paciente da ação. E, nesse descuido, a pressa nos engole.

    No fim, Faraco nos lembra que a gramática não é um conjunto de regras mortas, mas um organismo pulsante. É corpo e é espírito. É rotina e é vertigem.

    Eu, se pudesse escolher, ficaria com as duas coisas:
    — A tarde, para viver com ela.
    — A crase, para possuí-la.

  • Dia dos amantes

    Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das profissões, basta alguém pertencer a uma categoria para ter a sua data especial, tornando-se alvo de homenagens cujo objetivo não é outro senão incrementar o comércio. Há um dia para tudo e para todos, do faxineiro ao vendedor de picolé – o que, quanto a este, é muito justo. Num país quente como o nosso, o picolezeiro tem a nobre função de refrigerar os corpos e desentorpecer as almas, deixando-nos mais dispostos para enfrentar estações como o verão.

    A prova de que o hábito se disseminou é que no dia 22 de setembro comemorou-se o Dia dos Amantes. Catei nos jornais alguma referência mais extensa a tão curiosa efeméride, e nada encontrei; mas os amantes bem que mereciam uma crônica. Vejam que a data não se refere aos amados, ou às amadas, que são entidades nobres e gozam do prestígio da sociedade. Refere-se aos que amam com ímpeto transgressivo, o mais das vezes burlando normas e atropelando os papéis sociais. Os amantes são “os outros”, que por razões óbvias não podem se declarar. Daí a curiosidade que um dia dedicado a eles provoca.

    Machado não os tinha em alta conta – certamente pelo bom casamento que fizera com D. Carolina. Vejam o que ele diz no breve Capítulo XXXVIII de “Quincas Borba”, capítulo esse que antecede o da confissão amorosa do ingênuo Rubião à sagaz e interesseira Sofia: “Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instância, a voarem juntas até às terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número não passa da beira dos telhados…”. Se os envolvidos retornam com as almas velhas e cansadas das “terras clandestinas”, melhor seria que por elas não se aventurassem… Mas não vai ser esse reparo, típico do Bruxo quanto a essa e outras falhas humanas, que vai enfraquecer o nosso registro.

    Fala-se que amantes são todos os que amam com paixão, sejam eles namorados ou esposos. Haverá nesse argumento um eufemismo interesseiro, cujo objetivo seria descaracterizar os homenageados a fim de incluí-los mais amplamente, e sem remorso, entre os que merecem os mimos adequados à ocasião. Tudo para vender mais. Os amantes habitam mesmo o “outro lado”, não são os parceiros institucionalizados do amor. São antes cúmplices, por isso não deixa de ser curioso escolher para eles um dia, à semelhança do que se faz com os santos, os avós, os pais e as mães.

    Notei que pouco se falou na data, mas certamente ela foi comemorada. Por meio não de cartões ou telegramas explícitos, mas de e-mails cifrados que atravessaram a Internet levando o apelo ansioso e triste de dois corpos solitários. Talvez em encontros furtivos num desses motéis promocionais, que além do preço módico prometem sigilo absoluto. Pois esse é o tipo do dia para se comemorar na surdina, à meia-luz, por debaixo do pano.

    Enfim, leitor, sem hipocrisia nem cinismo enalteçamos os amantes no seu dia. Deles é a glória da indústria de perfumes e lingeries. Sem falar de quanto faturam os sex shops numa ocasião como essa. Se hoje as datas valem sobretudo pelo que vendem, e os amantes têm lá a sua fatia de mercado, comemoremos sem preconceito a data a eles dedicada. Sem preconceito e com a sinceridade de reconhecer: que ser humano já não se deixou tocar pelo tentador mistério das “terras clandestinas”?

  • A busca de ser lembrado

    Gosto do termo “brumas” para figurar o esquecimento. O que vivemos se perde numa massa brumosa que dissipa as impressões do que passou. Não se revive nada, toda lembrança é o registro de uma perda. Ainda assim insistimos em lembrar, pois disso depende em grande parte a nossa identidade. 

    Outro vocábulo que também representa o que na memória se perdeu é “oblívio” – mas desse ninguém se lembra. É um vocábulo erudito e um tanto assustador. Por também significar repouso, tem alguma ligação com a morte. 

    “Amnésia”, sim, é patológico. Sugere uma perda temporária das lembranças devido a lesão cerebral ou à ingestão de determinadas substâncias. Seu radical evoca Mnemosine, a deusa que para os gregos determinava a lembrança e o esquecimento. Segundo a mitologia, os mortos que bebiam da água do seu poço relembravam suas vidas. 

    O esquecimento é o que mais tememos na morte, por isso o tema da memória provoca de forma tão intensa o nosso interesse. Quando se pensa em não morrer, ficar “para sempre”, pensa-se na verdade em permanecer na memória das pessoas. 

    A morte se consuma, não quando perdemos a vida, mas quando o que fomos desaparece por completo da lembrança dos vivos. Daí o empenho em que fique registrado o nosso nome nas obras de arte ou no acervo de instituições como academias, confrarias religiosas, associações de notáveis – que às vezes nem são tão notáveis assim, mas fazem questão do registro; o importante é que o nome esteja lá. 

    Nesse esforço de ser lembrado há quem desconheça a fronteira entre o bem e mal. Pouco importa se o recordam como um monstro ou um psicopata, desde que seus atos imprimam uma marca indelével na memória dos outros. Nesse grupo se enquadram os assassinos de celebridades ou os que, no exercício de funções delicadas como a de pilotos de aviação, produzem tragédias que levam à destruição de inocentes.  

    Muitos fazem tudo pela glória póstuma esquecidos de que o essencial mesmo é “permanecer”        enquanto estiverem vivos. Isso significa atuar, comprometer-se, ser determinante na vida dos que deles dependem ou com os quais mantêm vínculos de afeto.   

    Quem falha nessa tarefa, muitas vezes em prol de uma duvidosa notoriedade aos olhos dos pósteros, está condenado ao esquecimento em vida (um esquecimento que por vezes se confunde com desprezo). E deve amargar para sempre os efeitos da escolha errada.

  • A volta do boêmio

    O velho boêmio voltou. Sentiu que as coisas mudaram quando foi informado de que deveria procurar o setor de readmissões. Dirigiu-se ao responsável:

    — Aqui me tens de regresso, e suplicando eu te peço a minha nova inscrição.

    — Preencha essa ficha em três vias. É preciso também pagar uma taxa.

    — Uma taxa?

    — O pessoal aqui era muito instável, vinha e voltava quando queria. A gente tinha que se garantir, por isso criou um fundo de reserva.

    — Mas pra que essa formalidade? Voltei pra rever os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria… 

    — Acho você não vai mais encontrar quase nenhum. A maioria hoje dorme cedo e come comida natural. Muitos frequentam nossa academia.

    — Está brincando!? Sabendo que andei distante, vai agora ironizar? Certamente quer me punir por ter deixado a noite. Eu, que fazia serenatas…

    — Serenata? Nos dias de hoje? Você ia cantar para o prédio todo, e terminaria tendo que se explicar à polícia. Se quer paquerar alguém, deixe seu nome aqui no nosso cadastro. Coloque também endereço, profissão, além de preferências gastronômicas, artísticas e culturais. A gente compara com as fichas de outras pessoas e, se for o caso, faz a aproximação via rede social. Basta acrescentar à mensalidade uma pequena taxa.

    — Não preciso disso. Já tenho alguém que floriu meu caminho. Por sinal, estou aqui por causa dela, que aceitou me dividir com vocês. Vendo a tristeza em que eu me encontrava, ela chegou pra mim e disse: “– Meu amor você pode partir, não esqueça o seu violão.

    — Uma “Amélia”!

    — Amélia não, Otília.

    — Digo que sua mulher é uma “Amélia”, uma tola. Deixar você se divertir com os amigos enquanto fica sozinha em casa. 

    — Mas ela sabe que eu sempre voltarei. Até reconheceu, antes de me deixar partir: “– Pois me resta o consolo e alegria de saber que depois da boemia é de mim que você gosta mais”.

    — Depois da boemia?! Mulher nenhuma hoje aceita ficar em segundo plano. Por isso desenvolvemos um setor para receber também as esposas, ou assemelhadas. Trabalhamos nisso de olho na otimização dos serviços. Com o acréscimo de 30% na mensalidade, você pode inscrever Otília. Ela vai conhecer seus amigos e as mulheres deles. Depois que fizemos isso, os casais passaram a brigar menos.

    — Sabe de uma coisa? Vou embora. Pode rasgar a ficha que acabei de lhe entregar. Eu queria tudo como era antes.

    — Mas isso não é problema! Nas sextas à noite, temos uma sessão nostalgia. Os homens vêm sós e podem percorrer antigos becos de ruas estreitas, onde há casas com janelas para fazerem serenatas. Tudo em ambiente virtual, claro, por isso o preço… amarga um pouco. Mas lhe garanto que é compensado pela doçura de voltar aos velhos tempos.

  • Pontuar

    Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirma que nunca usou o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo. Literatura é linguagem ritmada, e para se imprimir ao texto o seu ritmo é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrece e inibe, a outros empolga e mesmo encanta.

    O ritmo é uma espécie de virtude metafísica da literatura. Um erro de grafia tem conserto, basta que se consulte um formulário ortográfico. Uma falha na concordância, na regência ou na colocação pode ser sanada com uma consulta gramatical. A falta de ritmo, traduzida entre outros indícios pelo mau emprego dos sinais de pontuação, sugere que o sujeito não dá mesmo para o ofício. É um míope verbal e certamente usará de modo inadequado as palavras. Pois não há semântica adequada sem um adequado suporte rítmico. A palavra errada é sobretudo a palavra fora de tempo.

    Pontua-se como se respira, respira-se como se pontua. E quase sempre ocorrem os exageros. Há os que decompõem o enunciado, abusando do chamado fragmento de frase. E picotam o período. Às vezes sem necessidade. Apenas pelo gosto de fracionar. De separar. De isolar os componentes da oração. Sujeitos. Predicados. Complementos.

    Há, pelo contrário, os que constroem períodos densos, longos, torrenciais, desses que tendem a abusar da paciência do leitor, coitado, que parece estar atravessando um rio interminável e caudaloso, e fica na expectativa de que aquilo termine, pois, com o tempo, ele até já esqueceu o que foi dito no início da frase e tudo o que deseja, a partir de certo momento, é que o escritor se compadeça da sua paciência e mesmo do seu fôlego, que dentro em pouco lhe faltará como já lhe falta a boa vontade para prosseguir na leitura, e ponha enfim nessa teia aparentemente infindável um ponto final. Ufa!

    Há os que se exaltam à toa e abusam do ponto de exclamação. Sempre! Até sem motivo! Como se vivessem numa perpétua euforia! Ou num perpétuo susto! Há os que abusam das reticências. Esses não dizem logo tudo, fazem …suspense. Preferem deixar sempre alguma coisa no vento, no ar… Imaginam que nesse deliberado laconismo é que mora a sutileza… O gosto de sugerir, explorar as entrelinhas, sabe como é… Pois o texto fala mais, quando… Eu sei que vocês me entendem… 

    Há os que (e esses geralmente são perfeccionistas) gostam de intercalar vários parênteses em seus períodos. Como se fosse necessário (às vezes é, mas eles exageram essa preocupação) fazer contínuas ressalvas às próprias ideias (mesmo as que já se tornaram claras para o leitor). Eles têm receio de que seu discurso (que eles supõem, geralmente, traduzir uma mensagem valiosa e útil) não seja suficientemente vigoroso (e sobretudo claro, inteligível).

    Há os que não resistem ao excessivo emprego dos: dois pontos. Esses parecem estar sempre preparando: uma surpresa, um desenlace inesperado para o leitor. Que acaba deixando de se surpreender, pois os dois pontos terminam previsíveis, constituindo uma espécie de alerta falso. E já deixam o leitor: de orelha em pé.

    Há, enfim, os obreiros da vírgula, que, numa espécie de afã asmático, virgulam, com disciplina espartana, sempre que a norma determina. A esses, pouco importa que o sentido se torne claro, no próprio fluir da corrente verbal. Se a regra manda, mesmo, contra o ritmo natural da fala, eles, prestos e soldados, vão largando, a intervalos breves, curtíssimos, as suas vírgulas, que, para o leitor, equivalem a pedregulhos, ou valas, ou, enfim, a obstáculos, que dificultam o, já difícil, ato de ler.

    E tu, leitor, qual o teu ritmo? Como é que, lendo ou escrevendo, tu respiras?

  • Manual atualizado da sofrência

    Nunca tinha me atentado para a existência desse termo. Com a morte prematura de Marília Mendonça e a retomada dos comentários sobre a autora, que faria 30 anos em 2025, a palavra ganhou espaço na mídia e me levou a pensar um pouco no sentido de se cantar a sofrência — e no quanto esse canto ecoou no coração de uma multidão.

    Procurando pela origem da palavra, descobri que se trata de um neologismo da língua portuguesa, formado pela junção de “sofrimento” e “carência”, sentimentos associados à falta de alguém, normalmente em uma relação amorosa.

    Acredito, porém, que a sofrência vai além disso: é o sofrimento causado também por outros tipos de vazio, ausência e perda.

    Durante a pandemia, depois de mais de dois anos de restrições, aprendemos a reconhecer algumas dessas ausências:

    1 – Sofrência pelo distanciamento dos amigos.
    Algumas pessoas mantiveram contato apenas com um círculo pequeno; outras, mais rigorosas, cortaram qualquer convivência. Os encontros virtuais, que no início tinham até certa graça pelo inusitado, com o tempo se tornaram enfadonhos. De amigos íntimos, passamos a conhecidos — a conversa já não fluía. Foi uma sofrência nostálgica, a percepção de que, pelo hiato imposto, a amizade nunca mais seria a mesma.

    2 – Sofrência pela perda do prazer gastronômico.
    Aqui não me refiro à perda de paladar, mas à impossibilidade de frequentar bares e restaurantes. O delivery banalizou o momento da refeição, tirando-lhe o brilho. Descobrimos que o sabor não está só no prato, mas no ritual, no encontro, no ambiente.

    3 – Sofrência pela inutilidade do que acumulamos.
    Roupas sociais, malas de viagem, louças de festa, cartões de visita… tudo ficou guardado, sem função. A sofrência, nesse caso, não era pela perda, mas pela constatação da inutilidade: “Fez sentido acumular tantas coisas?” Essas foram algumas das sofrências que marcaram aquele tempo. Mas a vida seguiu, e novos vazios começaram a se revelar.

    4 – Sofrência pela falta de tempo.
    Depois de uma rotina desacelerada, hoje a sensação é de estarmos sempre correndo para “recuperar o tempo perdido”. Voltaram o trânsito, as agendas lotadas e a pressa.

    5 – Sofrência digital.
    Se antes a queixa era a distância, hoje é o excesso de conexão: reuniões online que não acabaram, grupos de WhatsApp sem fim, redes sociais que nos roubam silêncio e presença.

    6 – Sofrência pelo custo de vida.
    Prazeres simples, como sair para jantar ou viajar, tornaram-se pesados para o bolso. A cada escolha, a saudade de uma vida menos cara.

    7 – Sofrência climática.
    Ondas de calor, enchentes e queimadas lembram que o planeta também sofre. E que nossa segurança depende de algo maior do que nós.

    8 – Sofrência das relações frágeis.
    Amizades e vínculos que pareciam sólidos revelaram-se frágeis. Algumas relações se fortaleceram, mas outras nunca mais voltaram a ser como antes.

    9 – Sofrência da memória.
    Muitos carregam ainda a sensação de que o tempo pandêmico ficou suspenso, deixando lacunas na lembrança, marcas sutis de ansiedade e esquecimento.

    Carência, perdas, faltas… poderíamos listar muitas outras. Mas, ao refletir sobre elas, me deparei com a mais grave das sofrências: perceber que, se tudo nos faz falta, é porque o que mais nos faz falta está dentro de nós.

  • “Influencers” e que tais

    O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

    Não falta quem se aproveite do nosso natural desemparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

    Geralmente os que se dispõem a isso cobram bem pelos conselhos — o que é compreensível; ninguém, afinal, valoriza o que lhe é dado de graça. O problema é que eles ganham por vender aos outros ilusões. Pode-se alegar que muitos preferem mesmo se iludir a enfrentar a dura crueza da vida. Querem que lhes ditem os caminhos, livrando-os da difícil tarefa de fazer escolhas. Há nisso, porém, um grande risco; o medo de se perder pode acabar deixando-os na dependência de algum perdido.

    O mundo digital fez aparecer uma nova modalidade de guru — o “influencer” (grafado em inglês para dar mais prestígio). Que vem a ser ele (ou ela)? Como o nome diz, é uma pessoa que se propõe a nos influenciar em algum domínio do saber ou do comportamento. Também (ou sobretudo) pretende nos orientar quanto às escolhas de consumo — o que comprar, de que marca, quando enjoar de um produto e partir para outro. O “influencer” se aparelha para nos ditar o que devemos fazer (e como) a fim de adquirir habilidade em determinado setor e conquistar o almejado sucesso.

    “Sucesso” é uma palavra-chave no vocabulário deles. Não bem-estar, ou felicidade, mas esse termo que bem resume os anseios de quem vive numa sociedade competitiva e marcada por signos de ostentação como a nossa. O sucesso é um emblema exterior; dimensiona-se mais pelo que o indivíduo aparenta do que pelo que ele é.

    A internet, se não criou, multiplicou o número de indivíduos com essa função. Há “influencers” para todos os gostos (e desgostos). Eles querem sentir por nós, mostrar que a insatisfação com a qual levamos a vida
    decorre de não termos despertado para as atitudes corretas a tomar — atitudes essas que só eles conhecem.

    Não descarto a possibilidade de que haja entre pessoas dessa estirpe as bem-intencionados. As que se comprometem com uma causa, mesmo sendo ela a do enfadonho politicamente correto. Mas fico com o pé atrás. Não suporto a ideia de que tirem do homem a maior riqueza que ele tem — a de pensar por si mesmo.

  • Sonhos Juvenis

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

  • O COMPLÔ

    Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que lá estavam reunidos uns tipos estranhos — umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

    — Amigos, eu aqui sou a cabeça — ou “o cabeça”, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois é dele a glória, os louros, a academia. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.

    — As figuras, unidas, jamais seremos vencidas… — entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:

     — Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.

    — Mas que arrogância! — objetou Metáfora. — Até para dizer isso você me usa. “Cabeça” aí é metáfora. Vê como sou mesmo importante?

    Metonímia não se deu por rendida:

    — O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.

    — Sabe por que aconteceu isto com ela? — insistiu Metáfora. — Porque se deixou usar demais. Agora já não impressiona nem comove. E será esse o meu, o seu, o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra — e olhou desdenhosamente para Gramática, que a tudo assistia, impassível, no outro extremo da sala.

    A essas palavras, um frisson percorreu a assembleia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de Metáfora. Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. Só se atribuíam a ele o mérito e o talento pelos textos que escrevia, mas de onde vinham na verdade a graça, o vigor, a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.

    Cada uma quis externar o seu ressentimento. Hipérbole era a mais exaltada: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era lá muito honesto — opinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também…” — mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.

    Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele!” — e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor a plenário e pedir-lhe que, dali por diante, reconhecesse e informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática. “Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós” — enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia dizia para si, amedrontada: “Ih, que eu sinto cheiro de barulho…”.

    Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas — umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de regras e hábitos que pareciam ao Escritor a morte do sonho, da invenção, da ousadia.

    — Seja o que for que vocês queiram, eu cedo — acabou por dizer. — De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte — seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: — De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve. Nenhuma de vocês funciona — assim como um corpo não funciona sem desejo e sem alma.

    Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente. 

  • O principal

    Antes de viajar, ela chamou o marido e recomendou:

    — Não se esqueça de aguar a minhas orquídeas. Basta uma vez por semana. Uma, não mais. Se você esquecer, elas morrem.

    Ele ouviu com ar compenetrado e prometeu que aguaria as orquídeas. Uma vez por semana. Feita a promessa, ajudou-a a botar as malas no carro e a levou para o aeroporto. Na despedida, beijaram-se. Ele lhe desejou boa sorte no estágio e fez a carinhosa recomendação:

    — Cuide-se!

    — Você também!!

    Para ele, foi um teste cuidar da casa. Não tinha jeito nem paciência. Precisava levar o cachorro para fazer as necessidades, lavar a roupa que se acumulava, ir ao supermercado e à feira, pois só comia fora no almoço. Não tinham filhos, o que simplificava muito as coisas, mas ainda assim as tarefas lhe pesavam.

    Além do mais, havia os contratempos da rotina. O cão, por exemplo, às vezes fazia pipi antes da hora. Lá ia ele buscar estopa e água sanitária para limpar a poça na sala ou em um dos quartos. Noutra ocasião, a válvula da descarga quebrou. Teve que procurar um encanador bem cedo, quando deveria estar no trabalho. Nesse dia chegou atrasado e não pôde assinar o ponto.

    O tempo foi passando. Os dois conversavam raramente pelo celular, pois ela tinha uma série de obrigações ligadas ao estágio. Falavam da nova experiência de cada um – ela se aventurando no exterior, ele como dono de casa. Era uma espécie de inversão que os fazia rir.  Até então ocorrera o oposto, mas agora o mundo era outro. Falavam disso e da saudade, que começava a apertar. Para se assegurar de que tudo transcorria normalmente, ela lhe fazia perguntas: “Tem cuidado de Sultão?” “Agendou todos os pagamentos?” “Está passado o pano nos quartos?” Ele respondia “sim” a todas.   

    Pouco antes de ela chegar, ele fez uma vigorosa faxina na casa. Bateu tapetes, lavou e desinfetou os banheiros, limpou o filtro do ar-condicionado. De noite estava exausto e com tosse, pois tinha alergia a poeira. No dia seguinte foi ao supermercado levando uma lista com o nome das comidas de que ela mais gostava. Trouxe iogurte, compota de pêssego, pão de milho.  

    Chegado o grande dia, postou-se bem cedo na sala de espera do aeroporto. Felizmente o avião não atrasou. Na volta para casa, ela quis saber se tudo correra bem; ele respondeu que tinha trabalhado muito, mas valera a pena. Achava-se, agora, um marido completo. 

    Mal entrou em casa, ela se encaminhou para a varanda. Foi quando viu uma pequena orquídea no chão. Aproximou-se do vaso e percebeu que estava seco. As outras flores se desprendiam do caule e estavam prestes a tombar. Olhou transtornada para o marido, que entrava chamando-a para ver as gostosuras que havia na mesa… Ele então se deu conta do que havia esquecido.   

    Nessa noite os dois brigaram. Ele tentou se defender mostrando como cuidara de tudo com esmero, tanto que a casa estava cheirosa e não tinha um grão de pó. Fora tanto o esforço, que ele chegou a ficar doente.

    — Você não fez o principal! — interrompeu-o a mulher. E foi dormir cheia de mágoa.

  • O verso e seu inverso

    Frequentemente, uma leitura puxa a outra e acabamos em um fim diverso do que planejamos. Foi assim que caí em Massaud Moisés. Melhor, na sua obra A criação literária, que, há um bom tempo, aguardava na estante o meu retorno.

    Procurando ser uma introdução ao estudo da literatura, o livro nos traz uma abordagem sobre os gêneros literários, onde, em certa passagem, aparece a discussão sobre a adequação deles no trabalho do escritor. O ex-professor da USP fala que o autor precisa encontrar o gênero que esteja de acordo com o que pretende transmitir. Caso sua escolha seja inapropriada, ele produzirá uma obra ruim ou irá falsear o conteúdo que tem em mente.

    É claro que a atenção rígida às fronteiras é algo que interessa mais aos teóricos que aos escritores. Entretanto, o próprio Moisés aponta que a má utilização do gênero chega ao público, implicando na sua experiência de leitura e na avaliação que ele faz do texto literário.

    Mais ou menos correta essa teorização (tendo em vista também alguns fundamentos e consequências da ideia) e sendo a causa ou não do fenômeno de que falarei; a questão é que, de imediato, aquela passagem me lembrou certos exemplares da poesia contemporânea. Não por pudor, mas por justiça e retidão na avaliação, devo dizer que corresponde a uma parte da produção poética atual, não à sua totalidade, nem à sua fração mais representativa.

    O que se vê ali, muitas vezes, assemelha-se mais a um texto em prosa repartido do que a um poema. Faça o teste, leitor; você, com certeza, conhece um caso desse. Escolha um espécime dessa tendência e faça a leitura como se estivesse diante de uma obra prosaica, ignorando a sua apresentação em versos. Haverá estranhamento?

    Muitos desses trabalhos, dariam uma ótima crônica ou até um belo poema em prosa, mas a sua expressão se deu por outro caminho. Por que empreendem seu fazer literário pela poesia? Não sei, seria difícil generalizar e precisar. Mas o fato de existir isso nesse gênero, talvez, mostre-nos um desafio, que deve ser enfrentado pelos críticos e, sobretudo, pelos poetas.

    O verso ali existe sem sentido como verso. Ou seja, não é propriamente um verso, mas uma repartição, feita por motivos e critérios que nem sequer conseguimos apreender, mas que, certamente, não são estéticos.

    Isso diz respeito também a um desleixo com a forma, vindo de uma ignorância diante dela. Ignorância no seu duplo sentido, por não se atentar no momento da escrita a esse elemento tão primordial e por não haver conhecimento sobre a própria matéria do seu ofício. Negligencia-se a forma e se atém única e exclusivamente ao conteúdo, no seu sentido mais estrito. O produto disso é um texto em prosa decomposto em linhas.

    O verso existe. Pode parecer algo óbvio isso, mas é necessário dizer: o verso existe como verso. Afinal, se existir sem ser como verso, pode ser uma linha, uma mera partícula de prosa, mas não é verso.

    Não estou aqui a querer defender que esse gênero é sinônimo de verso, muito menos desse na sua forma anterior à moderna; nem objetivo argumentar em favor de preceitos estéticos já há muito tempo superados. Não nutro essas outras ingenuidades. O que afirmo é que o verso não é um mero recorte, nem sua existência como tal deriva de um procedimento aleatório ou do simples ato de apertar a tecla enter no computador.

    Dirão: “os gêneros evoluem, a poesia evolui”. É verdade. E estou de acordo com a ideia e com propostas de experimentação, as quais me ponho sempre aberto. Todavia, essa evolução nunca alcançou o ponto de indicar que a poesia é qualquer coisa e seria problemático se um dia chegasse a isso.

    Além de tudo, é sempre bom lembrar que experimentar é diferente de ignorar. Para aquele, é necessário conhecimento sobre o objeto com que trabalha. Para esse último, basta o outro sentido da palavra. O primeiro resulta em desenvolvimento poético, o segundo, apenas em má poesia.

    O modernismo anunciou e permitiu a liberdade no fazer poético, realizou uma série de experimentações e marcou rupturas. Não obstante, mesmo o concretismo, o mais radical dos movimentos de vanguarda, jamais caminhou para a ideia de que poesia é qualquer coisa. Os que anunciaram encerrado o ciclo histórico do verso estariam no front contrário dos epígonos da prosa picotada.

    Porém, engana-se quem pensa que isso é novidade, coisa do século XXI. O problema é mais antigo, mas parece ter ganho maior força nos nossos tempos. Diante desses que, por vezes, arrogam para si uma suposta verdadeira herança do modernismo; lembro sempre de um artigo de Manuel Bandeira, um dos principais poetas da fase heroica e profundo conhecedor de poesia. Deixo-lhes com uma passagem muito esclarecedora do bardo:

    “Sem dúvida não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribui-lo em linhas irregulares, obedecendo tão somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre. Se fosse, qualquer pessoa poderia pôr em verso até o último relatório do Ministério da Fazenda. Essa enganosa facilidade é causa da superpopulação de poetas que infestam agora as nossas letras. O modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo o mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema. Resultado: hoje qualquer subescriturário de autarquia em crise de dor de cotovelo, qualquer brotinho desiludido do namorado, qualquer balzaquiana desajustada no seu ambiente familiar se julgam habilitados a concorrer com Joaquim Cardozo ou Cecília Meireles.”

  • Poema #01: Entrelinhas

    Repara a frente do verso.
    Gêmeas, capa e contracapa
    dispensam qualquer remendo.
    Abrem-se livres, pois são
    asas de uma ave vadia
    a desnortear perspectivas
    (no alto, embaixo, início, fim).

    Enumerar as palavras
    no caderno é exercício
    árduo de caligrafia.
    Um sem-número de imagens
    colore o branco entre as linhas,
    promove encontros na rígida
    geometria das paralelas.

    Remexe o varal das letras.
    O movimento preciso

    revela o que antes estava
    camuflado sem disfarce:
    conselhos, consolos, sonhos,
    denúncias…diálogo aberto
    que se guarda a sete chaves.

  • CASO SÉRIO

    – Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada.

    – “Urge”?!  O que é isso?

    – A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “urge”. Tem mais força do que “é preciso”, “é necessário”. Parece, tipo assim, o rugido de uma fera. URRRGEEE!

    – Calma, tudo bem. Não precisa me morder. E pra que é que você quer mais dinheiro?

    – Vou fazer o Enem, não vou? Preciso ler, me informar. Destarte…

    “Destarte”?

    – Sim. Destarte, dessarte… A professora falou que é melhor do que “então”, “logo”, “diante disso”. Ela quer que a gente arrase na prova. E quer, outrossim, um pouco de fama para ela também, claro.

    – “Outrossim”?

    – O senhor não conhecia?

    – Não. Conhecia “outro não”. Era o que eu ouvia de sua mãe toda vez que lhe pedia um beijo. Ela dizia: “Outro não, Valfredo. Por hoje basta.”.

    – Ah, pai, o senhor é mesmo ignorante. Não é “outro sim”; é “outrossim”, entendeu?

    – Não estou vendo diferença, mas entendi. O contrário, então, deve ser “o mesmo sim”. E não outro!

    – Caramba! Achei massa essa história do beijo. Então ela lhe dava um fora… Que sádica! E o senhor, entrementes, o que fazia?

    – “Entrementes”? Deixe eu ver… Primeiro preciso saber o que é “entrementes”. É alguma coisa como “escorraçado”?

    – Nada a ver. Significa “nesse espaço de tempo”.

    – E por que você não falou isso?

    – Porque a professora disse que “entrementes” impressiona mais. 

    – Nesse caso, pode entrementar à vontade. O importante é que você arrase na redação.

    – Esse é meu desiderato.

    – Como?

    – “Desiderato”, “vontade”, pô! Também o senhor não saca nada da língua portuguesa!

    – Desculpe, ando meio desatualizado. Embora, aqui pra nós, esses termos que você está usando sejam um tanto serôdios.

    – “Ser” o quê?

    – Serôdios! Sua professora não mandou você usar essa palavra no lugar de “antigos”? Se ela ainda não fez isso, vai fazer. Com certeza.

    – Epa! Nada de “com certeza”! É “indubitavelmente”. E sabe de uma coisa? É mister que eu não converse mais com o senhor.

    – “Mister”?!

    – Isso mesmo. E não fale mais da minha professora, viu? Não quero ouvir. Se fizer isso, que seja à sorrelfa.

    – “Sorrelfa”!? Essa também veio da professora?

    – Negativo. É contribuição minha mesmo. Pesquei no dicionário para fazer uma surpresa a ela.  

    – “Sorrelfa…” Socorro, Alaíde! Vem cá ouvir teu filho. Alguma coisa muito séria está acontecendo com ele!

  • Questão de ordem

    O poeta inglês Samuel Taylor Coleridge definiu prosa como “as palavras na sua melhor ordem”. Sem ordenar bem o que se diz não há como dar clareza ao discurso, conforme se percebe nestes dois exemplos retirados de redações escolares:

    1 – “Com o advento da Revolução Industrial, as mulheres começaram a participar do mercado de trabalho, assim como as crianças.”

    2 – “Contrariando os evolucionistas, Contardo Calligaris afirma que a mulher é tão infiel quanto o homem em seu texto ‘Por que somos infelizes em amor?’” 

    Os fragmentos em negrito estão inadequadamente deslocados. “Crianças” deve vir junto de “mulheres”, constituindo possivelmente outro núcleo de um sujeito composto; e a menção ao texto de Calligaris fica melhor após o verbo “afirmar”, pois constitui um adjunto que modifica esse verbo. Com isso, os períodos se tornam mais claros:  

    – “Com o advento da Revolução Industrial, as mulheres e as crianças começaram a participar do mercado de trabalho”.

    “Contrariando os evolucionistas, Contardo Calligaris afirma em seu texto ‘Por que somos infelizes em amor?’ que a mulher é tão infiel quanto o homem.”

    A má ordenação se revela na dificuldade inicial com que os períodos são lidos. É preciso no mínimo uma segunda leitura para que se compreenda o que os alunos queriam dizer. Essa não é a característica de um texto bem escrito; se o leitor precisa reler, alguma coisa falhou.

    Existem as quebras estilísticas, que destacam determinados segmentos da frase, e existem as que decorrem de imperícia ou comodismo. A essas não escapam nem redatores experientes, como se vê nesta passagem:

    3 – “O objetivo da quadrilha, de acordo com a Polícia Federal, era a obtenção de lucros através da execução de obras públicas, organizada e estruturada para a prática de variados delitos, como fraudes em licitações, corrupção passiva e ativa, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.” (Folhapress)

    É preciso esforço para perceber que a parte em negrito se refere a “quadrilha”. A distância entre essa palavra e os particípios (“organizada” e “estruturada”) chega a comprometer a unidade do parágrafo e desorienta o leitor, que procura reorganizar o que parece truncado.

    Os três exemplos desta postagem mostram que a melhor ordem é aquela em que se mantêm juntos os termos sintaticamente relacionados: núcleos de uma mesma função sintática (exemplo 1); adjuntos com os verbos ou substantivos aos quais se referem (exemplos 2 e 3).

    Fugir a esse princípio, só por razões estilísticas. É o que ocorre na hipálage, um deliberado deslocamento do atributo em relação ao substantivo que ele modifica. Por exemplo: “‘O professor recebeu o caderno aplicado do aluno” (em vez de “o caderno do aluno aplicado). O deslocamento faz com que o adjetivo amplie o seu raio de ação. Mas esse não é um recurso que se deva perseguir num gênero objetivo e transparente como a dissertação argumentativa.

  • A frase morreu?

    Alguém já disse que acabou a era das grandes frases. Escrever bem, hoje, é sinônimo de escrever simples. Em nome da comunicação sacrifica-se o torneado fraseológico, que antes era perseguido com volúpia narcísica.

    Cada autor parecia ver na frase retumbante uma ampliação gráfica do próprio ego.

    Atualmente as virtudes mais requisitadas são a simplicidade e a transparência. Vários motivos podem explicar isso, entre os quais o dinamismo da vida moderna e o pragmatismo de uma sociedade de resultados.

    Estamos mais atentos aos fins do que aos meios. Não há tempo para se perder horas a fio pensando na melhor maneira de expressar um juízo, um conceito, um sentimento. 

    Outra razão para o desprestígio da frase estaria na influência da linguística textual. Esse ramo da linguística valoriza o texto, vale dizer, o conjunto ordenado e coeso de palavras, frases e parágrafos. O que conta nessa organização solidária, em que os componentes têm praticamente o mesmo valor, é o papel do conjunto.

    Ou seja: a ênfase desloca-se da frase isolada para o “texto” como uma unidade comunicativa completa. Ele é então visto como algo mais do que a soma das frases. Possui propriedades que não podem ser explicadas apenas pela análise frasal.

    Entre essas propriedades estão a coerência (não contradição), a coesão (unidade dos componentes, promovida por conectivos e termos de referência), a situacionalidade (adequação dos elementos à situação comunicativa) e a informatividade (suficiência de informações).

    Nessa perspectiva, a “frase” é vista tão só como uma unidade que contribui para a construção do sentido global do texto, a macroestrutura. A análise da frase isolada, sem considerar seu papel no tecido textual, oferece uma compreensão limitada do significado e da função da linguagem em uso.

    Ao colocar a ênfase no “texto”, a linguística textual busca compreender como as diversas unidades se organizam e interagem para criar um todo significativo, considerando fatores contextuais, cognitivos e comunicativos que transcendem o nível frasal.

    Isso tende a apagar o brilho da frase, que chama a atenção para si. Muitas vezes um escritor medíocre tentava superar sua irrelevância com uma frase de efeito, que ali se encaixava como pepita no cascalho. O escritor tinha consciência disso e compunha seu texto de modo a valorizar esse fragmento luminoso, deixando o resto no escuro.   

    A frase perdeu status porque nos tornamos menos retóricos. Ninguém tem mais paciência com preciosismo ou verbosidade.

    Isso por um lado é bom, mas por outro tem gerado certo empobrecimento linguístico. No jornal, por exemplo, a linguagem de grande parte dos cronistas e articulistas está ficando homogênea, despersonalizada. Percebe-se neles a preocupação com a digestão fácil do texto, o que às vezes redunda em pobreza semântica. Poucos têm uma marca verdadeiramente pessoal de estilo.

    Talvez a morte da frase tenha a ver com isso.

  • O oposto da hipérbole

    Sempre que pergunto em classe qual o oposto da hipérbole, a turma responde que é o eufemismo. Não me deparei com esse equívoco apenas em sala de aula – também o constatei em portais de língua portuguesa. 

    A verdade é que o contrário da hipérbole não é o eufemismo. Essas figuras não podem se contrapor, uma vez que se situam em áreas diferentes. A hipérbole diz respeito ao “pathos” (paixão), enquanto que o eufemismo está ligado ao “ethos” (caráter).

    Quem produz uma hipérbole o faz abalado por forte impressão emocional. Exagera para comover ou suscitar empatia: “estou morto de fome”, “ele tem uma vontade de ferro” (hipérbole metafórica), “daria a minha vida por você”.

    Um conhecido exemplo de hipérbole aparece neste quarteto de Augusto dos Anjos:

            “No tempo de meu pai, sob estes galhos,
    Como uma vela fúnebre de cera,
    Chorei bilhões de vezes com a canseira
    De inexorabilíssimos trabalhos.”

    Os versos constam do soneto “Debaixo do tamarindo”, em que o poeta confessa o seu amor pela árvore que ensombrava a casa-grande do engenho onde nasceu. Revelam o desespero diante da morte e a esperança de continuidade pela fusão com o organismo vegetal (lê-se no final do poema: “Abraçada com a própria Eternidade/ A minha sombra há de ficar aqui!”).

    A referência ao pranto “bilhões de vezes” chorado e aos “inexorabilíssimos” trabalhos busca traduzir a intensidade de uma Dor que transcende a esfera pessoal. Não é apenas o sofrimento de um indivíduo, mas de toda a espécie humana, com a qual o eu poético se identifica.

    No eufemismo, atenuamos um conteúdo desagradável com a intenção de não ferir nem chocar. O que anima esse propósito é a ética, o recato, por vezes a conveniência social. Podemos dizer de alguém muito feio, por exemplo, que “seus traços não são harmoniosos”. Ou, de uma pessoa estúpida, que ela “não tem um cérebro brilhante”. O eufemismo preserva o conteúdo e suaviza a forma.

    O seu oposto é o disfemismo, que consiste no uso de expressões deselegantes, grosseiras ou chulas. Na versão disfêmica, o muito feio passa a “horrendo”, “um parto”, “um frankenstein”. O pouco inteligente é chamado de “anta”, “burro”, “quadrúpede”. O disfemismo é uma intensificação pejorativa e visa agredir ou chocar.  

    Numa de suas crônicas, Adriano Silva critica os que nada fazem sem escutar a opinião alheia e são capazes de perder o dia caso não recebam um sorriso de aprovação. Ele diz invejar os indivíduos autossuficientes, que “resolvem suas inseguranças (…) sem expor o traseiro nu na janela”. Essa referência ao “traseiro nu” é uma imagem disfêmica; por meio dela o autor critica os que costumam expor aos outros a sua intimidade.

    Qual é então oposto da hipérbole? É a hipossemia, que se caracteriza pela diminuição do conteúdo significativo das palavras. Ela ocorre, por exemplo, quando alguém afirma ter sentido “uma dorzinha” que o levou ao a passar três dias no hospital; quando a mãe ameaça dar “umas palmadas” no filho (em vez de uma surra); ou quando o ricaço diz que deu “um pulo” na Europa para saber as novidades.

    Vejam que nesses casos, ao contrário do que ocorre no eufemismo, não existe o propósito de suavizar um conteúdo desagradável. O emissor minimiza o sentido para reduzir a dimensão do que faz, e não para evitar agredir quem quer que seja. O que determina as escolhas é menos o decoro do que o afeto, a emoção.

  • A falta que faz

    Falta-nos um Nobel. A tão cobiçada e destacada honraria máxima de que ainda carecemos. Nós, o país mais exuberante. O país do samba, do Carnaval, do futebol. Temos de tudo um pouco e fazemos de tudo um pouco. O Brasil é um mundo particular que ninguém jamais decifrou completamente. Além disso, como sabemos, Deus é brasileiro. Só o resto do mundo ainda não percebeu. A Academia Sueca, então, nem se fala, parece querer constantemente desviar da terra de Deus. E nós continuamos sem um Nobel.

    Conquistamos cinco copas. Somos os maiores da história do futebol. Não interessa se estamos numa fase ruim ou se a Argentina nos humilhou na última partida, as cinco taças são nossas, ainda que uma delas tenha sido roubada. Isso, de fato, pouco importa. O mundo esteve literalmente aos nossos pés em 58, 62, 70, 94 e 2002. E, vamos combinar, a única coisa mais bonita do que as cinco estrelas na nossa camisa é imaginá-la com seis. A Olimpíada, que por muito tempo foi o nosso Calcanhar de Aquiles, conquistamos logo duas em sequência para mostrar quem é que manda. A primeira, por acaso, foi aqui no Brasil. Um capricho dos Deuses do futebol. Agora também voltamos a ter o melhor jogador do mundo. Tudo nos conformes. Do 7 a 1 nem lembramos direito, foi um vacilo momentâneo.

    Mudemos o foco por um instante. O Brasil tem as maravilhas da natureza. Me desculpem os europeus, os americanos do norte e o baixo clero dos países do médio oriente. Nós temos o Pampa, o Cerrado e o Pantanal. Nós temos a Amazônia e o litoral mais bonito do mundo. Nós temos as Cataratas do Iguaçu e o Cristo Redentor. Nós temos os Lençóis Maranhenses, o Monte Roraima e a Chapada Diamantina. Nós temos o Delta do Parnaíba, as Piscinas de Maragogi e a Gruta do Lago Azul. Nós também temos as cidades históricas de Porto Seguro, Ouro Preto e São Miguel das Missões. Salvador, São João del-Rei e Morretes. Petrópolis, Olinda e Manaus. E muito, muito mais. Não fosse a inflação um tanto descontrolada e o preço caloroso da gasolina, estou certo de que a população do país inteiro visitaria todas essas cidades. O turismo é claramente um dos nossos pontos fortes, mas é sempre bom ficar atento com carteiras, celulares e afins.

    Além dos conhecidos festejos carnavalescos de início de ano, invejados silenciosamente pelos países mais introvertidos, por assim dizer, temos também o Festival de Parintins e a Semana Farroupilha. Cada um com uma música, uma comida, uma história própria. Nós somos o país do forró, do baião e da bossa nova. Do xote, do frevo e do maracatu. E, apesar de estarmos novamente com um ex-presidente preso, no geral, somos boa gente.

    Agora temos um Oscar para chamar de nosso. Quem diria, hein? Até um Oscar conquistamos, numa festa digna de final de copa, com transmissão simultânea em várias capitais. Somos realmente bons na comemoração das nossas conquistas. Quem não lembra das cambalhotas do Vampeta na rampa do Palácio do Planalto?

    De fato, não sei de onde tiramos coragem para viver assim, tão bem, tão plenamente, sem um prêmio Nobel. Até me envergonho um pouco quando penso nisso durante as caminhadas matutinas. Talvez, se tivéssemos um Nobel, poderíamos tentar evitar o provável colapso financeiro dos próximos anos, sobretudo na Previdência. Talvez, se tivéssemos um Nobel, teríamos evitado o mensalão, o petrolão, os mandos e desmandos na pandemia, o desmatamento na Amazônia, os dólares na cueca, as fraudes no INSS. Pois é. A falta que faz.

    O curioso é que o prêmio Ig Nobel não nos falta. Aliás, até nos sobra. Temos oito. E Nobel que é bom, nada! Deus, que, sendo brasileiro, tem piedade de nós, desprovidos de Nobel, também perdoa, por certa conjuntura divina, a Academia Sueca, que não pousa os olhos sobre nós, os brasileiros, seus tão estimados conterrâneos. E Deus sabe o que faz. A Academia Sueca, por sua vez…

    E olha que nem estou falando das injustiças. Ao que tudo indica, Oswaldo Cruz deveria ter sido o primeiro laureado em terras tupiniquins. Não foi, entretanto. Também esqueceram do Carlos Chagas e do César Lattes. É desolador. Mal posso imaginar como seria avultado nosso orgulho patriótico com um prêmio Nobel. Só de pensar já fico alvoroçado. Não que precisemos de avultamentos dessa natureza, óbvio, e nem precisamos provar nada para ninguém. Mas, particularmente, não entendo como, na literatura, Guimarães Rosa não recebeu tal distinção. Nem ele nem a Lygia, a Clarice, o Cony e o Jorge Amado. É realmente constrangedor, Academia Sueca. Mas deixemos os traumas para outra hora.

    Como dizia, Deus é brasileiro e nos ensinou a não desistir. Então, ainda guardo uma fagulha de esperança de que, em 2025, o Brasil seja finalmente contemplado com um prêmio Nobel. O pesquisador Miguel Nicolelis é sempre um ótimo candidato. Há também outros grandes nomes da ciência no país, como Marcelo Labruna, Fernando Cunha e Carlos Barrios. Alô, Academia Sueca, chegou a nossa vez, não?

    Caso nenhuma dessas opções esteja à altura de tal distinção, tenho certeza de que temos ainda muitos candidatos ao Nobel de economia, visto que as livrarias estão empanturradas de publicações contendo infalíveis dicas para o leitor sair do salário mínimo diretamente para o bilhão em meses, às vezes em semanas, quiçá em horas. Dependendo, claro, de pormenores insignificantes. As cartas estão dadas, Academia Sueca.

    Por fim, com um Nobel poderemos deixar o ostracismo e nos tornar uma potência mundial. Num futuro não muito distante, lembraremos aos risos do tempo em que sustentávamos a síndrome de vira-lata. Abandonaremos, enfim, esse vice-campeonato moral para nos tornarmos golden retrievers, do alto da sua elegância despreocupada. No entanto, para isso, ainda nos falta um Nobel.

  • Um escorrego de morfologia

    A frase abaixo foi retirada de uma matéria da IstoÉ sobre um medicamento contra a impotência:    

    “Por ser ingerido diariamente, não é preciso calcular quando ter relação (os outros remédios exigem um tempo para fazer efeito).”

    Li críticas de professores de português à flexão do verbo “ter” nessa passagem. Dizem que a forma correta é “tiver”, pois ele estaria empregado no futuro do subjuntivo. Um dos que defendem esse ponto de vista escreve: “Este (o futuro do subjuntivo) participa de orações iniciadas pela conjunção ‘se’ (condição hipotética futura) ou pela conjunção ‘quando’ (tempo hipotético futuro).”

    A explicação seria correta se o vocábulo “quando” naquele contexto fosse mesmo conjunção. Ou seja: se a oração iniciada por ele se classificasse como adverbial temporal. Não é isso que ocorre.

    Vejamos por quê. O autor da matéria se refere a um medicamento que, ao contrário de outros com o mesmo fim, pode ser usado todos os dias. Essa frequência traz uma vantagem ao usuário: não precisar calcular o momento adequado para ter relação. Tal vantagem não existe em drogas similares, que “exigem um tempo para fazer efeito” e, consequentemente, determinam que os usuários escolham a melhor ocasião de tomá-las.  

    Assim, a palavra “quando” naquela frase não é conjunção, mas advérbio. Introduz oração objetiva direta, na qual exerce função sintática. Considerar a oração indicada pelo “quando” como temporal deixaria sem complemento o verbo “calcular” e sem sentido a frase (calcular o quê?). De fato, o autor não quis dizer que se precisa calcular “alguma coisa” no momento de ter relação; esse momento (ou seja, o “quando”) é o próprio objeto do cálculo.

    Nesse tipo de construção a oração objetiva se diz justaposta, pois é introduzida por um termo que, ao contrário da conjunção, exerce função sintática. Além de “quando”, podem aparecer outros advérbios ou locução correspondente. Por exemplo:

    — “não é preciso calcular como ter relação” (modo)

    — “não é preciso calcular onde ter relação” (lugar)

    — “não é preciso calcular quanto ter relação” (intensidade)

    — “não é preciso calcular por que ter relação” (causa)

    O infinitivo, nesse caso, constitui o verbo principal de uma locução com auxiliar modal implícito (poder ou dever): “não é preciso calcular quando (se pode ou deve) ter relação”.

    Enganos como o acima referido mostram o perigo de classificar vocábulos ou orações sem atentar para o sentido da frase. Resultam de um hábito por vezes comum no aprendizado da língua, que é o de decorar classes de palavras. Quem faz isto parece esquecer que elas se definem de acordo com o contexto.

  • Por isso escrevo – parte II

    Estou revisitando meus contos, crônicas e estudos sobre escrita criativa. De vez em quando, tenho rompantes de “chefe”. Deve ser coisa do hábito — afinal, diz o ditado popular “o uso do cachimbo entorta a boca.” 

    Durante anos, fui supervisora na repartição onde trabalhei e, vez por outra, precisava revisar processos. O quê, como, quando, por quê, para quê.

    Agora estou aqui, na curiosa posição de algoz e vítima da minha antiga função.

    Revejo os cursos que fiz, as anotações, os exemplos, as descobertas. Tudo o que estudei, registrei e arquivei ao longo dos anos dedicados à escrita. Algumas descobertas me orgulham; outras, frustram — como em tudo na vida.

    De tudo tenho a certeza que é preciso coragem para deixar fluir minhas ideias e sentimentos, o caos da minha mente, ver o texto tomar forma e soltá-lo no mundo, para que encontre eco e sentido em meus leitores.

    Ainda assim, o saldo é positivo. Fiz muitos cursos, tive diversos mentores, explorei diferentes camadas da arte de escrever.

    Busco encontrar a essência da escrita criativa e nela me desenvolver.

    Sei onde posso pisar com segurança e onde prefiro não arriscar — como escrever romances, seguir roteiros rígidos, usar escaletas.

    Não, essa forma de escrita, não me atrai.

    Quero escrever. Gosto de contar histórias. Criar crônicas que dialoguem com o leitor, provoquem reflexões ou simplesmente narrem o cotidiano.

    Ainda não li o livro de Marcelo Rubens Paiva que inspirou o premiado Ainda Estou Aqui, mas imagino que seja uma história contada com alma. Uma literatura carregada de emoção, escrita por alguém que viveu aquele tempo e cenário, que sentiu na pele medos e dores. Diante disso, a última coisa que importaria seria a aplicação de teorias sobre escrita.

    É isso que quero dizer: quando um autor permite que sua alma fale, a técnica se torna secundária. O valor está na emoção, na verdade que extrapola a forma do texto.

    Isso significa que o estudo não importa? Claro que não! Mas, lá no fundo, gosto de acreditar que a história precede a escrita.

    E, pelo sim, pelo não, sigo estudando. Porque escrever faz parte de mim — de quem eu sou.

  • PODRES PALAVRAS

    Elas não constam de glossários de expressões chulas. Não podem ser categorizadas morfologicamente. Têm em comum apenas a repulsão que provocam, por mais subjetiva e arbitrária que seja essa agregação.

    São repugnantes por natureza. Trazem o signo do horror em suas entranhas. Assim que ouvidas ou lidas, antes mesmo que nosso racional processe a interpretação de seu presumível significado, batem direto no emocional provocando imediata rejeição. Mantém linha direta com o lado obscuro do cérebro, fazendo emergir conteúdos e imagens que preferíamos deixar quietos nos porões do esquecimento.

    Mas afinal de onde provém essa condição? Poder-se-ia argumentar tratar-se de um fator cultural. Eu diria que mais provavelmente seria um fator gutural.

    Mas uma dúvida persiste. Foi seu subjacente conceito que contaminou sua forma? Ou sua fealdade orgânica tem um liame subliminar com sua presuntiva acepção?

    O fato é que, ainda que sem revelar para que vieram ou de onde surgiram, sua mera pronúncia provoca um indisfarçável desconforto, um mal estar no estômago, eventualmente até mesmo um arrepio.

    São podres palavras, palavrões no sentido mais extensivo do termo.

    ***

    Esgoto, escroto, escopo, estupro, zigoto, peçonhento, bucéfalo, jurássico, chumbrega, mequetrefe, rebuceteio, ricochete, ambivalente, volúpia, interregno, escroque, imberbe, pundonor, hecatombe, hediondo, aborto, absorto, nu, cru, suruba, bacanal, cafuné,  outrossim, ulterior,  visigodo,  macumba, ufano, carcaça, jaez, treta, opróbrio, taciturno, pusilânime, macambúzio, birrento, banzo,  sorumbático,  gárgula, lamuriento, bricolagem, belzebu, quiproquó, barafunda, muvuca, grotão, aziago, ungüento, tara, pamonha,  busílis, úvula, galhofa, cabotino, probo, apedeuta, truculência, brucutu, vuvuzela, quasímodo, chinfrim, putativo.

    Estapafúrdio, esdrúxulo, bombástico, estrambótico.

    Bagulho, bugiganga, espelunca, geringonça.

    Sovaco, chulé, arroto, flatulência.

    Fétido, fedorento, pútrido, putrefato.

    Mocréia, bruaca, muxiba, baranga.

    Cafuzo, mameluco, chibarro, curiboca.

    Nauseabundo, moribundo, furibundo, meditabundo.

    Úmido, túmido, túrgido, tumefacto.

    Chorume, estrume, azedume, negrume.

    Bruto, xucro, ogro, bronco.

    Sacana, safardana, sacripanta, salafrário.

    Velhaco, gatuno, gaiato, larápio.

    Biltre, pulha, crápula, calhorda.

    Roxo, lixo, coxo, mixo.

    Nojo, bojo, jugo, mijo.

    Vômito, pus, cuspe, gosma, muco, pigarro, escarro, urina, caca, baba, estrume, cerúmen, seborréia, fleugma, remela, espirro, esporra, esperma, excremento, meleca.

    Frieira, íngua, ferida, prurido, comichão, cólica, brotoeja, bulimia, disfagia, câimbra, torcicolo, sudorese, hemorróida, icterícia, náuseas, herpes, lúpus, sarna, urticária, enjoo, vertigem.

    Úlcera, lepra, peste, gangrena, cirrose, esclerose, brucelose, trombose, toxoplasmose, esquistossomose, esquizofrenia, hipofibrinogenemia.

    Aids, ebola, chicungunha, zicavírus.

    Mufumba, chaboque, sapiranga, mondrongo.

    Sarcoma, linfoma, mioma, carcinoma, neoplasma, abscesso, furúnculo intumescência, cisto, quisto, cancro, câncer, metástase, pústula, fistula, hiperplasia, fibrose, necrose.

    Intestino, esôfago, estômago, pulmão, pâncreas, abdômen, tórax, cóccix, sacro, peritônio, amígdala, panturrilha, queixo, vômer, fêmur, úmero.

    Útero, prepúcio, testículo, vagina, ânus, pélvis, pênis, púbis, vulva, uretra, pentelho.

    Medonho, soturno, nefasto, funesto, fúnebre, lúgubre, mórbido, tétrico.

    Túmulo, caixão, cova, sepultura, esqueleto, carcaça, cadáver.

    Cemitério, necrotério, crematório, sepulcrário.

    Sanatório, hospital, hospício, manicômio.

    Podólogo, otorrino, obstetra, geriatra.

    Cauterização, curetagem, traqueotomia, lobotomia.

    Tumor, dor, torpor, terror, temor, horror, pavor, tremor.

    Buchada, rabada, galinhada, vaca-atolada, barreado, guisado, linguado, angu, caruru, sururu, aratu, tutu, umbu, pururuca, bobó, quibebe, xinxim, jerimum.

    Espinafre, alfafa, chicória, repolho, nabo, quiabo, inhame, jiló, jaca, cajá, caju, caqui, kiwi.

    Churrasco, chuleta, maminha, coxão.

    Carne-vermelha, febre-amarela, catarro-verde, baleia-azul.

    Glutamato, glifosato, transgênico, Monsanto.

    Glúten, nugget, nutella, miojo.

    Rinha, rodeio, vaquejada, muay-thay.

    Roto, rito, reto, rato.

    Porco, bode, bezerro, burro, cachorro, ornitorrinco, fuinha, texugo, cachalote, esturjão, barracuda, arenque, paca, pacu, baiacu, pirarucu, urubu, peru, jacu, anu, corvo, gralha, rola, pinto, carrapato, cupim, lacraia, lesma, lombriga, percevejo, escaravelho, marimbondo, gafanhoto.

    Colchetes, parêntesis, travessão, gerúndio, cacofonia, anacoluto, onomatopéia, antonomásia, catacrese, anfibologia.

    Vara, alvará, estelionato, carceragem, ouvidoria, glosar, ab-rogar, impugnar, prevaricar, tergiversar, locupletar,  tutela, concordata, hipoteca, precatório, caução, esbulho, estagflação.

    AI5, HIV, PCC, STF.

    SUS, SAMU, PIS-PASEP, BOVESPA.

    Bolchevique, Gulag, Glasnost, Perestroika.

    Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão, Turcomenistão, Tadjiquistão, Baluchistão, Curdistão, Chechênia, Andorra, Bósnia, Bulgária, Kosovo, Luxemburgo, Liechtenstein, Budapeste, Praga, Tirana.

    Fatah-Al-Islam, Taliban, Boko Haram, Ku Klux Klan.

    Hezbollah, FARC, ETA, Baader Meinhof.

    Putin, Pinochet, Pol Pot, Papa Doc.

    Tzar, Salazar, Bashar, Muammar.

    Nero, Calígula, Torquemada, Maquiavel.

    Mengele, Ulstra, Bolsonaro, Garrastazu.

    Ditadura, tortura, clausura, viatura.

    Cárcere, cadafalso, calabouço, cala-boca.

    Mordaça, porrada, porrete, cacete.

    Zebedeu, Zaqueu Zulmira, Zoroastro.

    Odebrecht, Richtofen , Nardoni, Abdelmassih.

    Brutus, Luthor, Vader, Voldmort.

    Hannibal, Godzilla, Poltergeist, Pulp Fiction.

    Akira, Naruto, Pokemon,  Pikachu.

    Rutger Hauer, Heth Ledger, Renée Zelweger, Van Diesel.

    Snoop Dogg, Tupac Shakur, Dr Dre, Shaggy.

    Safadão, Marrone, Teló, Ludmilla.

    Popozuda, Catra, Tchan, Créu.

    Fuck, funk, punk, crack.

    Google, Netflix, Huawei, Bitcoin.

    Uber, Trivago, Hopihari, Agro é pop.

  • Vida e tempo

    Outrora as pessoas morriam mais cedo e nem assim deixavam de fazer as obras que poderiam notabilizá-las. Parece que a consciência da brevidade da vida levava-as a intensificar seu trabalho. Era como se, intuitivamente, soubessem que não tinham tempo a perder. Ameaçadas por um número maior de doenças sem cura, não podiam se dar ao luxo de adiar projetos e sonhos. Nossos poetas românticos, por exemplo, deixavam este mundo na flor da idade, ceifados pela sífilis ou pela tuberculose, mas as suas obras pareciam consumadas. Eram o melhor que eles poderiam fazer.  

    Hoje é diferente. Graças aos avanços da medicina e da farmacologia, nossa média de vida aumentou. Não podemos nos queixar de falta de tempo. Quem antes tinha quarenta ou cinquenta anos se considerava um velho. Hoje o indivíduo com sessenta sente-se disposto a recomeçar a vida. Supõe que ainda terá muito caminho pela frente.

    Antigamente o desafio era viver mais. Hoje, é viver melhor. Fala-se muito em qualidade e não em quantidade de vida. Uma vida longa, mas deficiente, não parece valer a pena. Isso nos remete à velha questão: o ideal é viver pouco, mas com intensidade, ou viver muito porém de forma rotineira e insípida?

    Muitos alegam que viver da primeira forma é melhor, mas o que desejam mesmo é permanecer vivos (mesmo que isso implique enfrentar os contratempos da velhice). Há um consenso segundo o qual quem vive muito triunfa sobre os que morrem mais cedo. A longevidade aparece como um troféu que confere ao indivíduo admiração e prestígio, e só os incompetentes e desleixados se deixam colher precocemente pela morte.

    Para ganhar esse troféu é preciso se submeter a um tipo de corrida diferente, no qual ganha quem chega por último. Diante disso, é melhor não se apressar. Certamente a melhor fórmula para obter esse prêmio é viver com moderação, evitando o estresse e outros males que nos impulsionam a uma existência trepidante. São grandes os malefícios que essa trepidação traz ao nosso organismo.  

    Viver devagar, no entanto, é um enorme desafio num mundo em que se exalta a excelência e o acúmulo de realizações. Como botar um freio na rotina se somos permanentemente convocados à competição e, em vista disso, a nossa agenda está sempre cheia? Quem tenta frear o ritmo não raro se sente excluído. Ao buscar se desprender das amarras que o vinculam à engrenagem do dia a dia, é tomado pelo tédio e a insatisfação. Conheço gente que, embora se queixe do excesso de trabalho, não suporta os domingos e feriados. Acha que neles falta alguma coisa.   

    O fato é que, mesmo com as cobranças do mundo moderno, hoje vivemos mais. Isso não significa que vivamos melhor nem que o maior tempo de que dispomos nos leve a realizações significativas. Todos temos momentos em que as coisas de fato acontecem, e outros em que nos limitamos a “tocar” biologicamente a vida. Ninguém garante que, se vivesse mais de 24 anos, Castro Alves teria feito poemas superiores aos que fez. Viver mais também não deixa de ser um problema; implica um desafio maior para a conquista e a manutenção da felicidade.

  • Errata celeste

    Os que acreditam na influência dos astros em suas vidas devem ter ficado chateados com Parke Kunkle, professor de uma instituição americana. Segundo ele, “está errada a interpretação dos movimentos celestes usada pela astrologia para determinar os signos de acordo com a data do nascimento das pessoas”. Isso porque os mapas astrológicos, produzidos 3.000 anos atrás, estariam há muito defasados. Com a mudança no posicionamento do eixo da Terra, uma pessoa que se imaginava capricorniana, por exemplo, é na verdade de Sagitário. Um suposto taurino, como eu, pertence ao signo de Áries.  

    Sem querer ser presunçoso, confesso que no íntimo eu desconfiava disso. Sentia certo descompasso entre o meu modo de ser e o desenho do meu signo, que me colocava sob a égide de um touro (bicho grosso e intratável), quando em minha alma pasta um cordato carneirinho. Não exagero se disser que essa foi uma das razões para eu nunca ter dado muita importância aos astrólogos. Sempre confiei mais nos genes e na força das circunstâncias. 

    Imagino a confusão que esse quiproquó planetário está causando na cabeça daqueles que programam suas vidas conforme o alinhamento da Terra em relação às estrelas. Eles têm na cartografia celeste um roteiro que, revelando-se ou não acertado, lhes serve de guia. Alguns a primeira coisa que fazem, antes de sair da cama, é consultar o horóscopo para ver se devem ou não fechar um negócio, fazer uma viagem, iniciar um caso amoroso. De repente vem esse professor e os deixa sem chão, ou melhor, sem céu em que possam ver delineado seu mapa existencial.    

    Não deixa de ser estranho que pensemos que Marte, Vênus ou alguma daquelas constelações distantes tenham a ver com o emprego que devemos assumir, a roupa que devemos vestir ou a mulher com quem devemos nos casar. Crer nisso não tem fundamento, mas para muitas pessoas faz todo o sentido. O mecanismo pelo qual tais crenças lhes parecem coerentes é o mesmo que fundamenta as religiões; explica-se pelo desejo de fugir ao desamparo, à incerteza quanto ao futuro e, sobretudo, ao medo da morte.   

    Ninguém pense que a descoberta de Kunkle vai mudar a crença de quem depende dos astros para conseguir a paz interior. Desde quando se crê em alguém, ou em alguma coisa, com base em evidências racionais? A  razão serve de esteio para o que se conhece, e não para aquilo em que se acredita. O fermento da ciência é o saber; o da crença é a ilusão.

    No máximo os adeptos da astrologia farão um pequeno ajustamento em seus signos – há os que vão continuar lendo as previsões segundo o mapa antigo. Se mudou o lugar das constelações, endireite-se o eixo da Terra, corrija-se o Cosmo. O importante é que, ao acordar, eles possam iniciar o dia com a certeza de que farão as escolhas certas. E, sobretudo, de que alguma força transcendente os protege contra as armadilhas do Acaso.

  • Cada um é o que fala

    A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do indivíduo, quanto reflete a classe ou profissão a que ele pertence. Um médico não usa as mesmas palavras que um economista, nem esse tem o mesmo discurso de um advogado.

    A variedade dos dizeres reflete a multiplicidade dos estilos, ou seja, dos específicos modos de ser; nas várias situações da vida, é impossível a cada um fugir ao seu. Entre duas ou mais palavras sinônimas, a que se escolhe indica a apreciação que fazemos dos seres e das coisas. 

    Os exemplos são inúmeros. Quem usa “ósculo” em vez de “beijo” tem uma determinada visão sobre o que é “pressionar os lábios contra o rosto ou a boca de alguém”. “Ósculo” tem uma dimensão ritualística, é solene e assexual. “Beijo” é explícito, franco, erótico. Por vezes se reveste de romantismo, como se vê em certos filmes de Hollywood.

    Machado tem um famoso personagem, José Dias, cujo traço singular de personalidade é o gosto pelos superlativos: boníssimo, famosíssimo, amaríssimo. José Dias é um ser diminutivo e busca compensar essa condição exagerando em tom sapiente e doutoral as qualidades e os defeitos dos que encontra no mundo. O “íssimo” da linguagem é uma forma de disfarçar o seu “inho” interior.

    Sempre fico intrigado quando escuto alguém usando, por exemplo, “procrastinar” em vez de “adiar”. “Colendo” no lugar de “respeitável”. “Apedeuta” em substituição a “ignorante”. Tão simples escolher a forma simples, que todo mundo entende.

    Por que a preferência pelo termo raro e erudito? Se não for por ingenuidade, é por presunção. Pelo desejo de mostrar que se conhece a palavra pouco usual. O provável mesmo é que seja para disfarçar a insignificância das ideias, que de tão desmilinguidas precisam de uma vestimenta que as inche. Quanto mais raso o pensamento, mais denso o aparato verbal com que buscamos traduzi-lo.

    Outro dia vi num convite de casamento a referência aos “senhores Fulano e Fulana de Tal”, “nubentes que iam convolar de estado civil”. Depois “festejariam as bodas” no salão de festas de um famoso “sodalício” da cidade.

    Espero que se gostem mesmo e que o empolamento do discurso não seja uma imagem da relação entre os dois. Afinal, embora muitos se casem de olho nos sobrenomes, o que conta mesmo na intimidade de um casal são os apelidos.

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