hedonismo e deletério

  • Ontológico, hedonismo e deletério

    Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo.

    Admito que implico com algumas palavras. Se pudesse as baniria por lei. Uma delas é progenitora. Só serve para noticiário policial ou conversa com meliante. Neste último caso com a devida cautela: periga ele não entender.

    • Como vai sua progenitora?
    • Progenitora é a sua mãe.
    • Exatamente.

    Na mesma linha vai cônjuge. A única vantagem é não ter gênero definido, mas isso é vantagem recente em palavra antiga. Se o seu cônjuge apresentar você como ‘minha cônjuge’ peça divórcio. Trata-se de falsa erudição, nem sei por que casaram. Pode ser até que ele seja um adorador do gerúndio! Fuja igualmente de gente de vocabulário limitado ou deturpado tipo táuba, às vezes contagia e a cura é difícil.

    Implico com nubente, acho patíbulo triste e gáudio antiquada. Tenho sentimentos por cabotino e perspicaz. As palavras e eu somos realmente inseparáveis. Elas ajudam a moldar ideias: mais palavras, mais nuances de pensamento. Diversidade é tudo. Mas, se houver opção, prefiro as menos pretensiosas. Podem não acreditar, mas é complicado escrever simples.

    Outro dia quis descrever um árabe usando aquela túnica comprida comum entre eles. Escrevi caftan e o corretor de textos sublinhou a palavra em vermelho. Caftã também não deu certo. Tudo bem, vamos ver a tradução em português. É cafetã ou cafetão. Como? Não dá para dizer que o cara usava um cafetão! Optei pela palavra em inglês mesmo, escrevi kaftan. É claro que o corretor reclamou. Fazer o quê? Se não temos uma palavra adequada, roubamos de outra língua.

    E o que dizer quando, em conversa informal, um amigo diz valhacouto? A gente até para de respirar para aproveitar o momento porque uma coisa assim dificilmente se repetirá em nossa vida. Ouvir alguém utilizar palavras como amiúde, azêmola ou excelsa nos dá alguma esperança. Não a de que todas as palavras vão sobreviver – essa eu já perdi – mas a de que sempre existirão pessoas cuja conversa é um deleite.

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