Nossa avó morava com a gente.
Aliás, morava é modo de dizer. Ela fazia parte da casa. Era como a mesa da cozinha, o quintal, o cheiro do café e aquele relógio escurecido na parede da cozinha, com o antigo passarinho saindo sem pedir licença, para dizer: cuco-cuco.
Era a nossa melhor amiga.
Minha, da Laura, dos maiores, dos pequenos, dos primos que apareciam, dos vizinhos e até do cachorro, que, se pudesse escolher, dormia só aos pés dela.
Todo dia chegava a hora das histórias.
E histórias não faltavam. A gente nunca sabia o que tinha acontecido de verdade e o que ela aumentava só para deixar o causo melhor. Mas isso pouco importava. O bom era ficar ali ouvindo, enquanto ela mudava a voz para cada personagem, imitava homem bravo, galo cantando e até o cuco do relógio.
— Vocês lembram do Neguinho do Pastoreio?
— Aquele que ajuda a encontrar coisa perdida? — alguém respondia.
— Esse mesmo. Pronto. Bastava isso. A gente se aquietava. Ela ajeitava os óculos, cruzava as mãos no colo e começava.
— Pois uma vez ele ajudou a encontrar um menino.
E lá vinha o causo.
O menino gostava de ver as comitivas passando pela estrada. Quando ouvia o berrante, largava o que estivesse fazendo e corria para a porteira da fazenda.
Naquele dia, subiu na cerca. Depois no mourão. E acabou sentado lá em cima, todo importante, como se fosse dono da estrada.
A boiada vinha bonita.
Gado que não acabava mais. Peões firmes nos cavalos. Tudo seguindo devagar, naquele passo de procissão do campo.
Até que veio um redemoinho de areia.
— E aí, vó?
— Aí quase deu o estouro da boiada.
Ela falava isso arregalando os olhos, e pronto, todo mundo já sentia que a coisa era séria.
A poeira subiu, os bois se agitaram, os peões perderam a visão por alguns instantes. Quando a ventania passou, a boiada estava ali, mais ou menos nos eixos.
Mas o menino tinha sumido.
Chamaram. Procuraram de um lado. Procuraram do outro.
Nada.
O chefe da comitiva desceu do cavalo, tirou o chapéu, ajoelhou-se no chão e fez uma oração ao Neguinho do Pastoreio.
Mal terminou o pedido, ouviu-se um choro.
O menino estava caído atrás da placa grande da fazenda, coberto de poeira, assustado, mas inteiro.
Tinha despencado do mourão durante a ventania.
— Foi o Neguinho que salvou ele, vó?
— Foi quem ajudou a achar.
E ela encerrava assim.
Sem jurar.
Sem duvidar.
Deixando a gente acreditar no tanto que quisesse.
Hoje, quando penso nisso, fico imaginando que história minha avó contaria do mundo atual.
Talvez eu chegasse aflita, com a bolsa revirada, dizendo:
— Vó, perdi meu celular.
Ela nem levantaria muito os olhos.
— Já procurou direito?
— Já.
— Na gaveta?
— Foi onde procurei primeiro.
— Debaixo da almofada?
— Também.
Aí ela suspiraria, com aquela paciência antiga que só avó tem, e diria:
— Então pede ajuda ao Neguinho do Pastoreio.
— Mas, vó, como ele vai achar celular?
E ela, muito séria:
— Minha filha, hoje em dia até santo deve usar GPS.