infarto

  • Inferno

    Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se casou. Mudança brusca de comportamento. E eles ainda foram morar em outra cidade, longe dos familiares e dos amigos. Salete conheceu quem era o Jonas de verdade, o abusador. Ameaças e pequenos bofetes passaram a ser corriqueiros. Elementos para o emprego da submissão. Estupro era o que Jonas praticava todas as vezes em que Salete dizia “Não!” – e todas as vezes ela dizia não, e isso parece que servia somente para amadurecer a fúria do carrasco. Daí, Jonas aplicava os mesmos métodos às suas filhas, Julia e Ana. Não saiam de casa, a não ser para ir à escola. Para Salete, o alerta era expresso: “Sair só para o supermercado, porque odeio fazer compras… Ir num pé e voltar noutro!”. Salete estava exaurida da vida que levava, só para servir ao seu carrasco. Muito mais quando via o sofrimento das filhas, apavoradas com medo de serem mortas numa investida radical do mal. Salete alimentava dia sim, dia também, a coragem para livrar principalmente as pequenas indefesas. Juntas, desenharam a vingança; queriam se libertar e acabar com Jonas, literalmente. Passaram a oferecer-lhe sopa todas as noites, tudo do bom e do melhor, com pitadas de veneno (água sanitária), para que sofresse e morresse aos poucos. Jonas não resistiu: no terceiro mês, morreu de infarto, já com graves problemas nos intestinos. O corpo estava em frangalhos de tanto vomitar e sentir dores. Evacuava sem cessar. Já não conseguia trabalhar. Salete, Julia e Ana se regozijavam do resultado do plano. O homem foi enganado pela falsa docilidade das mulheres, que, nesse período, passaram a fazer tudo o que ele mandava. Mas Jonas não tinha forças para mandar. Era um fantoche, agora, nas mãos da redentora. Ela nunca imaginou que isso seria possível. Contudo, para a desesperança geral, uma autópsia detectou a causa mortis. Salete foi presa, e as filhas menores passaram a ser tuteladas pelo Estado. No primeiro encontro, depois da prisão de Salete, abriram sorrisos largos e se congratularam, com o olhar, pela liberdade de que agora podiam disfrutar, que já era demais, ainda que Salete estivesse sob as grades. Após o julgamento, no tribunal do júri, Salete foi inocentada, por justamente ter defendido a dignidade e a sobrevivência de sua família diante de um grande criminoso, que por anos praticou as mais absurdas brutalidades. Somente então puderam curtir uma verdadeira vida familiar e descartaram, eternamente, a ideia de qualquer homem passar os seus muros. Homem era sinônimo de desventura. Salete batia na boca quando tinha de falar o nome do falecido. Desejavam que ele ardesse no inferno – o que supostamente era crível.

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