Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar.
A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde que
mostrem vida inteligente. Sou daquelas que curte quem pensa e se expressa bem. Não precisa ser um gênio nem um pesquisador científico.
Basta não me envergonhar na frente dos outros.
Se é adepto do fisiculturismo, joga futebol americano ou ouve rap ou sertanejo, ligo o sinal de alerta, estou fora. Para mim, o tesão é o intelecto. Um entendimento mínimo de quem sabe a diferença entre meio advérbio e meia para sapato. Um simples erro de concordância já me dá um nó na garganta e calafrios. “É nóis” ou “a gente vamos” é a senha para o portal do inferno.
Pode ser praga ou justamente por só buscar homens com certa cultura, mas todos aqueles de quem me aproximo, mostram-se uns tapados congênitos. Parece proposital, uma trama urdida para me tirar do sério.
É só eu me interessar por alguém e lá vêm os barbarismos.
Outro dia, no metrô, avistei um homem elegante e com ótima aparência. Usava óculos, estava em pé, lendo um livro. Puxei conversa e perguntei qual o livro que lia. Era um manual desses para ansiedade.
Autoajuda clássico. O indício foi claro, mas ainda insisti. Perguntei para onde ele estava indo. O golpe veio avassalador: vou a um bazar “beneficiente”. Brochei. Nem com toda a boa intenção e filantropia.
Num bar, um rapaz veio pedir se podia me fazer “compania”. Respondi que “compania” não seria possível. Companhia, sim. Ela pareceu não ter entendido. “Posso me sentar com você, “menas” se estiver esperando alguém. Ainda frisou o “menas”. Emudeci. Fiz cara de ódio. Ele desistiu a tempo, acho que finalmente havia entendido.
A fim de evitar esse tipo de encontros tóxicos, passei a frequentar lugares mais de acordo com minhas perspectivas: museus, bibliotecas, lançamentos, vernissages. Num sábado, Centro Cultural, parada na porta aguardando uma amiga, um carinha lindo se aproximou e me disse: pode entrar que é tudo “gratuíto”. Cheguei a me arrepiar.
É um tal de “soltar” do ônibus, “resistros” de chuveiros, vamos “tudo” na praia, “seje” em vez de seja, mulheres “estrupadas”, “mindingos” pelas ruas e “imbigos” à mostra. Uma desgraça.
Prestes a desistir, encontrei um tipo especial. Lia Proust no original, conhecia astrologia e mapas astrais, ia a festivais de cinema e tinha um papo ótimo. Era gay. Quis cortar os pulsos.
Quem sabe um dia, ache um companheiro que combine atração física e intelecto. Sem gostar de “mortandela”, sem “cardaço” no tênis, que não tenha “ramela” no olho, não more numa casa “germinada” nem tenha medo de chuva de “granito”.
Talvez desista. Pode ser uma grande “perca” de tempo.