Jethro Tull

  • Fardo

    Zími sonhou que havia se tornado crooner e cantava com uma banda de músicos de jazz num pequeno teatro decadente, que no sonho havia reaberto no Bixiga.

    Havia na plateia pessoas conhecidas dele que jamais estiveram e nem poderiam estar juntas um dia, pelos mais diversos motivos, entre os quais o fato de algumas delas estarem mortas.

    O único momento que podia lembrar dele mesmo cantando no sonho, fazia uma cover de “I saw the light”, de Todd Hundgren num momento que parecia épico.

    Havia para ele momentos em que se questionava sobre o que deveria fazer caso acontecesse a separação do duo Crop Circles, formado por ele na bateria e MIla Cox no baixo e sintetizador.

    A ideia de se tornar um crooner na linha do Tom Waits ou Nick Cave passou a ser considerada depois daquela noite do sonho.

    Zími enxergava charme na decadência, nos casos em que o artista conseguia reconhecê-la, aceitá-la e canalizá-la adequadamente.

    Mas como ele nunca havia saído do underground, não precisava se preocupar com queda de popularidade ou sentir nostalgia por um passado glorioso.  

    Decadência como a que aconteceu com os Beach Boys na primeira metade dos anos setenta, quando já eram medalhões, e apesar de não serem mais uma banda de surf e carros, lançaram belos discos, mais maduros,de 1969 até 1973.

     Sem nenhuma repercussão, se comparado ao início da década anterior. 

    E aqueles eram os melhores discos que eles tinham feito.

    O Jefferson Airplane, o Jethro Tull e o Led Zeppelin eram alguns dos que assumiram o topo.

    Zími e Mila Cox adoravam Pet Sounds, mas gostavam mais de Wild Honey e Sunflower.

    Estava acostumado a trabalhar com baixo orçamento, em qualquer setor de sua vida.

    Antes do sonho, pensava que, caso largasse a música, se tornaria escritor.

    Ele acordou cedo, como passou a fazer depois que mudou para um apartamento melhor, agora dividido com Mila Cox. 

    Gostava de estar acordado quando ela acordasse, para que nunca fosse repreendido por dormir demais.

    Quando ela acordou e estava fazendo café, Zimi contou sobre o sonho que teve.

    Ela disse que para o caso dele sair da banda ou morrer, ela continuaria com o nome Crop Circles e ele seria substituído, a princípio por uma bateria eletrônica, nas apresentações ao vivo.

    Zími sabia que a cova estava sempre à espera, e é assim para todos.  

    Mas o que o movia na música era a possibilidade de expressar o desejo de ver o mundo acabar antes que a morte chegue especificamente para ele.

    Não importava para ele quantas vezes a humanidade esteve antes aparentemente perto do fim.

    Dessa vez era diferente porque era com ele e seus contemporâneos.

    A iminência da guerra era agora palpável.

     Os danos ambientais já são irreversíveis.

    O pequeno burguês pobre que tem medo de perder o que não tem para o comunismo, vê agora o capitalismo tomar um país inteiro.

    E para piorar, fica do lado do opressor.

    Zími não tinha  medo da morte, mas havia para ele uma tristeza em saber que se morresse exatamente agora, tudo que ele criticava através das músicas da banda continuariam acontecendo, e o final da humanidade, mas não do mundo, chegaria inevitavelmente, mas sem ele ainda vivo para ver e gritar alguma coisa.

    Estar vivendo com mais qualidade provavelmente lhe daria mais tempo para ver com mais clareza esse tempo macabro.

    Além de estarem morando juntos e serem parceiros musicais, também estavam agora trabalhando como copywriters para pagarem as contas, e queriam fazer a banda dar um passo à frente de seu estágio atual, que fazia bons shows, em rolês divertidos, mas não dava lucro e nem prejuízo.

    Para a vida que estavam levando, já era um bom estágio, mas Zími se queixava do desconforto causado por falta de estrutura.  

    O exemplo típico era marcarem dois shows seguidos em cidades vizinhas do interior, e no intervalo entre os shows, dormir no carro, pois um hotel modesto não estava previsto no orçamento.

    Depois de efetuarem com sucesso o segundo pagamento do aluguel do apartamento que passaram a dividir, eles já podiam ter suas impressões sobre o que seria a vida a partir de então.

    Já havia passado tempo suficiente para compararem suas análises individuais e tirarem conclusões a respeito da vida a partir de então.

    Com o dinheiro que gastavam morando juntos, ela consegue sair da casa da mãe e da avó aos dezenove anos, gastando menos do que pagaria numa kitnet para morar sozinha, como Zími fazia até então, aos quarenta e seis anos.

    Agora ele gasta menos do que antes, e morar com sua parceira musical não era um fardo. A ideia havia partido dela, mas ele logo viu viabilidade na argumentação que ela lhe apresentou.

    Toda essa diferença de idade tornava possível a coexistência no espaço de sessenta metros quadrados sem conflitos.  

    Até ali, nem mesmo conflitos criativos aconteceram, como também não aconteciam antes, com ela morando na Penha, e ele a poucos quarteirões do novo apartamento, se encontrando pessoalmente quando alguma música nova já estava pronta.

    A ideia de morar sozinha era tentadora para a jovem, mas até ali acreditavam que o custo/benefício havia sido favorável, sem prejuízo da qualidade de vida de nenhum deles. 

    E de qualquer forma, havia saído da casa da mãe e da avó, que agora terão mais espaço e menos som alto.

    Houve, sim, uma melhora na vida de ambos. As previsões favoráveis de Mila Cox estavam se concretizando naquele período.

    Antes, ela olhava da janela de seu quarto e via o topo do telhado da casa vizinha., com cacos de vidro sobre o muro que as separava. Agora podia ver de longe a Catedral da Sé, e antes dela, ruas em que ela não andava sozinha à noite.

    O inquilino anterior a eles era baterista, então o apartamento era razoavelmente isolado acusticamente.

    Era possível ensaiar ali durante a semana, no horário de almoço, quando o caos e o entra e sai  de gente no prédio causava ruído.

     Especialmente no andar em que moravam, havia bastante barulho externo, o que ajudava a disfarçar os excessos sonoros que saíam do apartamento.  

    Eram mulheres fazendo comida, crianças indo ou voltando da escola e trabalhadores que iam almoçar em casa, portas abrindo e fechando, conversas no corredor e alguém ainda não identificado que sempre passava pelo corredor correndo de tamanco e fazendo barulho.

    Uma normalidade urbana cotidiana que era inspiradora para que eles criassem músicas que criticassem esse estilo de vida.  

    Também era especial estar vivo e fazendo outra coisa que não sucumbir à normalidade imposta apenas para ter a segurança de morrer aos poucos.

    Nos fins de semana, alguns moradores iam para o litoral, e nessas ocasiões, não era raro que Mila Cox e Zími notassem o péssimo estado em que as pessoas estavam justamente na hora do lazer.

    Zími conversou uma única vez com um vizinho que, na tentativa de se livrar da escravidão assalariada numa fábrica de velas, tornou-se motorista de aplicativo.

    Ele se queixava que agora não tinha folga, e se ficasse doente, não trabalhava e nem recebia. Reclamou dos valores cobrados pelo aplicativo, e que trabalhava o dia inteiro para ter o que comer.

    Era um livre empreendedor infeliz. A dor era quase palpável na forma como aquele homem descrevia sua experiência profissional.  

    Disse que fez essa tentativa para ser livre. 

    Agora até o tempo para se lamentar era escasso.

     Zími nunca mais o viu depois dessa conversa, provavelmente porque o sujeito estava na rua trabalhando, ou em casa dormindo para estar vivo no dia seguinte, para trabalhar o dia todo novamente.

    Agora pensava sobre liberdade do ponto de vista individual, esperando que as ridículas ilusões sobre democracia e a soberania das nações tenha caído de vez sob o ponto de vista coletivo depois desse último ataque imperialista.

    Sua fuga desses pensamentos existenciais se dava quando se punha a terminar de gravar alguma música a ser lançada em single na internet, e depois em discos físicos, quando fosse possível prensar uma tiragem.  

    Sempre que Zími tomava a iniciativa de completar uma música, ela já estava começada por Mila Cox.

     Zími cantava em algumas músicas, cerca de trinta por cento delas, e MIla Cox constatou fazendo a parte promocional da banda na internet, que as pessoas preferem as músicas em que Zími canta.

    Ela comparou esse fato ao que sente em relação ao Husker Dü, pois dizia que as músicas cantadas por Grant Hart eram as melhores.

    O mesmo vale para Peter Criss, baterista original do Kiss.  

    Isso dava à Zími também autoestima, e sempre se lembrava que Mila Cox conceituava arte como sendo energia moldada por inteligência.

    A inteligência de cantar nas músicas mais legais somada à inteligência de nunca sequer ter cogitado um empreendimento como o de seu vizinho infeliz era suficiente.  

    A energia vinha da necessidade de se manter vivo e o mais livre que pudesse, sempre lembrando que a liberdade total em vida pode ser inalcançável, e quando for muito fortemente relacionada a dinheiro, também perde em essência.

     Viver afastado do rebanho o motivava para enfrentar o que há de pior na vida cotidiana.

    Naquele momento, a faísca saiu da conversa com o vizinho infeliz, tendo uma vida diferente da dele. Ainda mais para o caso de o motivo da infelicidade do vizinho não ser o empreendimento mal sucedido.

    Mesmo porque o amigo Silvano (que dizia que Zími era mais sortudo que o Ringo Starr), fazia carretos com sua Kombi e pagava suas contas, andando sempre limpo, bem alimentado e cheio de energia para qualquer empreitada para a qual fosse requisitado.

    Com exceção do uruguaio Silvano, nenhuma dessas pessoas que moravam no mesmo prédio tinha a menor ideia do que se passava na cabeça de Mila Cox e Zími, e tinham curiosidade a respeito.

    Silvano agora era o condutor dos Crop Circles para shows dentro e fora da cidade, pois tinha uma Kombi, que usava para fazer carretos.

    Mas no prédio em que moravam, os dois eram apenas novos vizinhos, sobre os quais os moradores antigos não sabiam se havia ou não algum parentesco. Sabiam apenas que faziam música juntos.

    Para alegria de Zími e viabilidade do projeto como um todo, Mila Cox era responsável por toda a parte promocional da banda na internet.

    Ela conhece gente, marca shows, compartilha postagens e tudo mais. 

    Ele sai para fazer correrias de correio relativos à banda. 

    Geralmente eram caixas de discos para ou envio ou recebimento.

    Ele queria ter dinheiro para comprar aquele apartamento, e não ter que pagar aluguel.

    Ela disse que se fosse assim naquele momento, talvez perdesse a graça.

  • Canções pra Americano Ver

    A revista Rolling Stone publicou recentemente sua lista de 500 melhores canções de todos os tempos (grifo meu) e supostamente de todo o mundo, atualizada para 2024.

    Aparecem na lista nomes como Cardi B, Carly Rae Jepsen, Migos, Megan Thee Stallion, Eslabon Armado, BTS, Clipse, Pusha T, Bad Bunny, Mark Ronson, Nick Minaj, CL Smooth, Funky 4+1  e Cardi B. Já ouviu falar em algum? Esses ilustres desconhecidos que bombaram nas plataformas de streaming e têm bilhões de acesso no Youtube em breve estarão mofando nas nuvens do esquecimento assim que largados à sua irrelevância.

    Em compensação, músicos de prestígio não fizeram jus a uma indicaçãozinha sequer. Ficaram de fora dentre outros, Frank Sinatra, Tony Bennett, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Quincy Jones, Barbra Streisand, Carpenters, Janis Joplin, Joan Baez, Sting, Tom Waits, Bjork e Moby.

    Não é preciso ser crítico musical para constatar que há algo de errado. Que parâmetros teriam sido usados para reputar ídolos do pop descartável como Backstreet Boys e Britney Spears como superiores a um Tom Jobim ou um Burt Bacharach?

    E o que dizer de canções que atravessaram gerações e se eternizaram no imaginário popular como “Moonlight Serenade”, “As Time Goes By”, “Over the Rainbow”, “Smoke Gets in Your Eyes”, “Moon River”, “Take Five”, “Summertime”, “Stella by Starlight”, “My Funny Valentine”, “Misty”, “Autumn Leaves”, “Ne me Quitte Pas”, “La Vie en Rose”, “Volare”, “Besame Mucho”, “Guantanamera”? Nenhuma foi lembrada. Por serem músicas ‘de tiozão’, não mereceram a atenção dos iluminados idealizadores do famigerado guia da RS. Em seu lugar, entraram coisas tipo, “Toxic”, “In Da Club”, “Yeah”, “Hey Ya”, “Big Poppa” e “Fuck tha Police”.

    O rock não teve melhor sorte. Foram sumariamente vetadas bandas de primeira linha como Deep Purple, Dire Straits, Genesis, Yes, Jethro Tull, Emerson Lake & Palmer, Supertramp, Echo & Bunnymen, Siouxsie & Banshees e os ex-Beatles Paul McCartney e George Harrison. Apesar de cantarem em inglês, foram preteridos por uma simples razão: são britânicos. Fossem da terra de tio Sam, não fariam jus a tamanha desfeita.

    Por outro lado, abundaram indicações de gangsta rap, hip hop e country music (equivalente ao nosso sertanejo universitário), estilo cujo alcance está restrito ao território americano.

    Nada contra. Não se trata de discriminar determinados gêneros musicais. A questão é que um levantamento que se propõe a ser um painel da produção musical representativa deveria com isenção abrir espaço ao que é produzido em todas as épocas e lugares, segundo sua relevância artística.

    O Brasil pode dar-se por satisfeito: conseguiu emplacar umazinha preciosa indicação no clube fechado dos 500: “Ponta de Lança Africano”, improvável canção de Jorge Ben Jor surpreendentemente ganhou a 352ª posição. Nada a comemorar já que ficaram de fora temas como “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Carinhoso”, “Asa Branca”, “Aquarela do Brasil” e “Chove Chuva” (essa última do próprio Jorge).

    Outros países tiveram pior sorte. Foram banidos da lista xenófoba da RS a França (Edith Piaf, Charles Aznavour, Serge Gainsbourg), a Itália (Pavarotti, Bocelli, Peppino di Capri), a Espanha (Paco de Lucia, Sarita Montiel, Gypsy Kings), Portugal (Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Madredeus) e a Alemanha (Ute Lemper, Marlene Dietrich, Nina Hagen). Que dirá os pobres latino-americanos. Tal como imigrantes ilegais, foram barrados a Argentina (Astor Piazzola, Carlos Gardel, Mercedes Sosa), o México (Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Maná) e Cuba (Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Buena Vista Social Club). Por não se expressarem no idioma trumpiano, foram escanteados.

    O rol de escandalosas omissões é infindável. Grandes nomes que fazem parte da memória musical foram atirados na lata de lixo da história.

    Poderíamos relevar tais aberrações fosse esse painel um dos inúmeros que pipocam em sites inexpressivos na internet. Não é o caso. A Rolling Stone se alardeia como uma revista gabaritada e adquiriu respeitabilidade nos meios musicais. Figurar em sua ‘qualificada’ seleção tem para o músico o peso equivalente ao que teria para o cinema uma indicação ao Oscar.

    Sendo uma publicação sediada nos EUA, não esconde sua subserviência descarada ao showbiz americano e se afina ao mote “make America great again”. Abdicou dos ideais democráticos e universalistas que inspiraram sua criação para adotar um deslavado colonialismo cultural, difundindo para o resto do planeta a predominância de valores essencialmente americanos.

    Prefira a despojada, mas honesta lista das ‘500 Mais da Kiss FM’.

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