João Cabral de Melo Neto

  • Melancolia

    A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.

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