leitores

  • Na fila

    – (Leitor 1) Tá grande essa fila, hein.

    – (Leitor 2) Mas vale o sacrifício. Esse tipo de fila eu enfrento com prazer. Não seria muito pior se fosse uma fila de hospital? Ou pra comprar comida racionada? Minha mãe sempre falava que no tempo da guerra…

    – (Leitor 3, para leitor 2) Você é fã dele há muito tempo?

    – (Leitor 2) Muito… Eu sempre gostei do pai dele. Quando ele começou a escrever também, resolvi conferir. Foi paixão à primeira vista. E digo mais: ele é bem melhor do que o pai.

    – (Leitora loura) Há tempos ele não fazia uma noite de autógrafos…

    – (Leitor 2) Treze anos. A última vez foi daquele livro, aquele que ganhou um prêmio… Periquitos na janela, lembrei.

    – (Leitor 1) Ele é tão bom como dizem? Eu não ligo muito pra esses troços de leitura. Tô levando o livro pra minha mulher, ela que gosta. Vou fazer uma surpresa.

    – (Leitora loura) Ele é muito bom mesmo. Os fãs dele são de todas as idades. Ele consegue renovar o seu público. Olha aí na fila, tem desde o adolescente de quatorze anos até senhores de mais de oitenta.

    – (Leitor 2, para Leitor 1) Presta atenção nesse trecho aqui, abre aí na página 25. Eu adorei essa parte: “E então ela olhou para o homem com aquela cara-de-quem-tinha-muito-amor-pra-dar…”

    – (Leitor 1, interrompendo a leitura) Mas pode isso?

    – (Leitor 2) Isso o quê?

    – (Leitor 1) Escrever essas palavras todas juntas, com esses tracinhos separando. Não é esquisito?

    – (Leitor 3) Esquisito nada, isso é moderno. É coisa de quem sabe escrever.

    – (Leitora loura, mudando o rumo da conversa) Vocês estão vendo aquela senhora gordinha de pé ao lado dele?

    – (Leitor 3) Aquela de óculos?

    – (Leitor 1) Quem é?

    – (Leitor 2) Isso, a de óculos. É a mulher dele. Tá sempre junto. Não desgruda nunca. Casamento de uma vida inteira. Tem gente até que apelidou ela de papagaio de pirata.

    – (Leitor 3) Olha ali, pegando o autógrafo agora, não é aquela atriz da novela das nove, aquela que vive aprontando barraco, como é mesmo o nome dela?

    – (Leitor 1) E a abusada ainda furou a fila.

    – (Leitora loura) É a Marivalda Silva. Ela é VIP, meu filho. Por isso, pode furar fila. Você acha que artista de televisão enfrenta fila?

    – (Leitor 1) E a gente aqui em pé há mais de uma hora…

    – (Leitora loura) Então, tenho ouvido dizer que ultimamente ele anda muito preguiçoso. Não escreve uma dedicatória caprichada, pessoal, vai botando “um abraço do…” em tudo. Isso é charme dele. Artista de verdade tem dessas coisas. Eu acho que ele guarda toda a energia criativa pra usar nas obras.

    – (Leitor 1) Olha lá, a caneta tá falhando. Por isso é que demora tanto.

    – (Leitor 2) Eu tenho dezoito livros dele autografados. Ele sempre escreveu dedicatórias muito originais. A que eu mais gostei foi “Quem escreve um poema, um conto ou um romance salva um moribundo. Que você nunca se esqueça dessas palavras e”…

    – (Leitora loura, interrompendo Leitor 2) Pior que salva mesmo, mas só se for bom. Essa questão de dedicatória é uma grande bobagem. Só estar aqui, poder vê-lo de perto, falar com ele, mesmo que rapidinho, isso pra mim já vale. Ele me passa uma energia ótima. Tem um astral maravilhoso, apesar de ser um pouco tímido.

    – (Leitor 1) Finalmente trouxeram outra caneta.

    – (Leitor 2, para leitora loura) Você sabia que agora ele anda pintando também? Acho até que deve fazer uma exposição no início do ano que vem.

    – (Leitora loura) Claro que sabia, eu sei tudo da vida dele. Já tô até juntando dinheiro. Quero um quadro dele pra decorar a minha sala. E além disso ainda toca saxofone o danado. Esse é um artista completo mesmo.

    – (Leitor 3) Gente, aquele cara de terno que tá pegando o autógrafo agora não é o… Aquele político, como é mesmo o nome dele?

    – (Leitora loura) É o ex-prefeito.

    – (Leitor 1) E furou fila também.

    – (Leitor 3) Que nada, esse pelo menos deixou o assessor guardando lugar pra ele.

    – (Leitor 2) Estranho ele ter vindo. Todo mundo sabe que o livro anterior dele, Falcatruas de um prefeito corrupto, foi baseado na vida desse político. Esse prefeito aí botou processo em cima dele e tudo.

    – (Leitora loura) Mas agora é época de eleição. Aparecer aqui no lançamento dá o maior ibope. Vocês não estão vendo a quantidade de repórteres que vieram cobrir o evento?

    – (Leitor 1) É mesmo. Será que a gente vai aparecer na televisão? Tomara que o meu cunhado Geraldo me veja. Ele vive me chamando de toupeira, dizendo que não me atualizo, que não consumo cultura. (Erguendo o livro acima da cabeça, como se fosse um troféu) Olha aqui, Geraldo, tô comprando o livro do escritor famoso.

    – (Leitor 2) Já tá quase chegando a nossa vez.

    – (Leitora loura) Que emoção! Meu coração tá até acelerado.

    – (Leitor 2) O que ele escreveu pra vocês? Pra mim foi “um abraço do…”

    – (Leitor 3) O mesmo pra mim. Nem colocou meu nome. E olha que eu pedi.

    – (Leitora loura) A letra dele tá meio ilegível, mas acho que tá igual ao de vocês.

    – (Leitor 1) Pelo menos no meu ele pôs o nome da minha mulher. “À querida Tereza, um abraço do…”. Xiiii, escreveu Teresa com “z”. Minha mulher detesta quando escrevem o nome dela errado.

  • A guerra íntima de todo leitor

    Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.

    Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.

    Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.

    Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.

    Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.

    Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.

    Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.

    Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.

    Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.

    Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.

    Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.

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