Leona

  • A Leoa e o menino

    O menino sonha os seus sonhos de menino. Voar, cantar, adestrar leões!

    A leoa faz o que uma leoa sabe fazer, observar atentamente e esperar o momento certo para atacar, afinal, o que um leão faz de melhor a não ser atacar com precisão a sua presa?

    O menino foi esquecido pelo tempo, pelo relógio e pelos olhares. O menino esqueceu-se de si mesmo…

    Solto nas ruas, fechou-se em si mesmo nos seus sonhos e nos seus devaneios.

    A leoa treina e treina cada pulo, cada salto mais alto, observando e aprimorando.

    Afinal, é da natureza dos leões pular e saltar e aprimorar…

    O menino, ignorado pelos homens, refugiou-se em suas fantasias e pôs-se a acreditar que seria um treinador de leões! E treinadores de leões precisam treinar… leões!

    Quis os descaminhos da vida que o menino e a leoa se encontrassem em um zoológico.

    Quis os descaminhos da vida que a leoa e o menino ficassem frente a frente.

    O menino, como que no delírio do artista, se jogou na jaula num voo acrobático e a leoa, por sua vez, já experiente no seu senso de observação e paciência, só esperou o tempo certo e necessário para derrubar o menino.

    O menino, derrubado pela leoa, já não era mais menino… era pó, vento, pensamento distante.

    No entanto, para a grande perplexidade dos que vivem na cidade, o menino já havia sido derrubado bem antes.

    Pelo descaso, pelo abandono, pelas tristes e constantes adversidades da vida.

    O menino foi lançado aos leões, mas não aos leões de fato…

    Leões da covardia, da omissão, da sistemática corrupção, do preconceito, da solidão…

    A leoa, que não tem culpa de nada, presa também pelo insensato homo sapiens, segue sua curta vida enjaulada, como se criminosa fosse!

    Outros meninos entram também em jaulas todos os dias, mas simplesmente não olhamos…

  • Para além do clichê

    Muito já foi dito sobre a atitude de Gerson de Melo Machado, morto recentemente por uma leoa na capital paraibana. O inusitado do seu gesto, no entanto, faz com que sempre haja algo mais a dizer. Gerson comentava com uma conselheira tutelar que queria ser um domador de feras. Disse-lhe que “ia pegar um avião pra ir pra um safári na África para cuidar dos leões…”. No afã de realizar esse intento, chegou a cortar uma cerca e entrar no trem de pouso de um avião da Gol; as câmeras do aeroporto impediram que o pior acontecesse.

    Filho de mãe esquizofrênica e neto de uma avó com problemas mentais, ele tinha na genética um inimigo. Presa de mais um delírio, encenou o último ato do seu drama (ou tragédia) aqui em João Pessoa. Imaginou que a Bica fosse um circo e se propôs a domar um dos felinos lá existentes. Queria pôr em prática o que durante anos acalentou como um desejo infantil. Numa espécie de transposição entre fantasia e realidade, o domínio sobre os animais seria uma metáfora para a vitória sobre as “feras” que interiormente o consumiam.

    Acabou, sem querer, transformando o Parque Arruda Câmara em local de um espetáculo tenebroso. Os turistas e demais visitantes depararam-se com o que não imaginavam encontrar num lugar dedicado à recreação e à momentânea fuga ao estresse da cidade (mais de uma vez levei lá meus netos, que se encantavam com a fauna e a flora diversificadas).

    Há algum tempo um leão circense arrastou uma criança que se aproximara da jaula e a matou. Falou-se então em negligência dos responsáveis pelo circo, também dos pais, e houve até processo. O dono do empreendimento chegou a sofrer um ataque cardíaco. Agora a situação é outra, pois a vítima se ofereceu à sanha do felino. Leona, como toda fêmea, era ciosa do espaço que lhe cabia guardar – e mal esperou que o invasor tocasse o solo.

    Sabe-se que Gerson adoeceu devido a genética e desamparo. Destituído do poder familiar da mãe, fora impedido de ser adotado – diferentemente do que ocorreu com os quatro irmãos. Passou diante disso a ter um comportamento erradio e marginal, o que mais ainda dificultava a sua adoção; família alguma queria receber alguém como ele. A sociedade não lhe deixou então saída. Seu gesto foi produto de negligência, não da administração da Bica, mas de todo um aparato social que o condenou ao abandono.

    “Atirar-se na boca do leão” é uma expressão figurada com que se designa a atitude suicida de alguém. Ninguém espera que esse clichê tenha um sentido literal, mas por vezes a sociedade se encarrega de tornar realidade o que, por absurdo ou inverossimilhante, a linguagem reserva ao domínio das figuras. Isso pode ocorrer no plano do horrendo e também do sublime. Pode nos conceder enlevo ou estupor. Num e noutro caso, encoraja-nos a repensar sentimentos e valores, e nos conduz a uma mais ampla percepção de nós mesmos.

    Gerson deu consistência real a uma imagem horripilante, que nos remete à selva de onde presumivelmente evoluímos. Com essa atitude, fruto de insensibilidade e rejeição social, ele mostrou o quanto ainda há de primitivo em nós. Depois do que fez, é impossível mencionar aquele clichê linguístico sem evocar o seu tresloucado gesto.

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