Literatura canina

  • Uma Crônica Canina – Parte 2

    Bem, voltamos ao tema! Voltamos às quatro patas!

    Na última crônica escrita, a primeira crônica canina, eu falei um pouco das minhas experiências com cães: Apolo e Baggio. Um vira-lata e um setter irlandês!

    Depois que Baggio partiu (dezessete anos de muitas brincadeiras), meus pais relutaram bastante em ter um novo cão. A fala que ambos sempre diziam: a gente se apega muito a eles!

    No entanto, minha irmã… Aqui eu preciso abrir um parágrafo para falar da minha irmã. Sabe aquela pessoa que simplesmente ama cães? Pois é… Minha irmã, se pudesse, levaria para casa todos os cachorros que porventura encontrasse na rua. Uma cara de pidão e um rabo abanando seriam o suficiente!

    Parágrafo escrito. Continuemos…

    Meus pais não conseguiram manter a promessa de não ter outro cachorro.  Minha irmã levou para eles um cocker spaniel comedor de melão: Thor!

    Pense em um cão super carinhoso e que não desgruda de você por nada… Pensou? Thor é exatamente assim! Pense em um cão mimado, dengoso, metódico e cheio de manias… Pensou? Thor é exatamente assim!

    Thor vai receber você com uma cara de quem não recebe atenção de ninguém!

    Thor obriga o meu pai ou a minha mãe (depende de quem esteja na cozinha) a ir para a varanda metodicamente após o café!

    Se você estiver com uma fatia de melão nas mãos, vai observar que os olhos de Thor se abrem de maneira expressiva e sobrenatural! Melão acima de tudo!

    Mas brincadeiras à parte, o que sei é que Thor tem alegrado a vida dos meus pais já idosos.

    Um cão é companhia, leveza, cumplicidade e o clichê de todos os que possuem um amigo peludo: um amor incondicional!

    Thor é já um senhor. No acumulado dos seus pelos brancos, ainda corre atrás das coisas e pede carinho a quem quer que chegue!

    Penso em todos os momentos bons que um cão pode nos dar e Thor tem feito um excelente trabalho!

    Bem… ainda falta falar de uma dupla que parece óleo e água, mas isso fica para a última crônica…

  • A tragédia dos pitbulls: o que ainda podemos fazer?

    Durante muito tempo, sempre que a mídia destacava um ataque envolvendo pitbulls, sobretudo quando havia feridos graves ou mortes, eu me via quase instintivamente na defesa da raça, devolvendo a responsabilidade aos donos. Essa convicção, de fato, não se alterou. No entanto, diante da sucessão de episódios recentes, muitos deles de extrema gravidade, incluindo o ataque mais recente a uma criança de quatro anos que perdeu a vida, sinto-me obrigado a revisar e aprofundar o meu posicionamento.

    Não deposito culpa no cão, jamais. Mas é inegável que a raça entrou num estágio crítico provocado pela irresponsabilidade de alguns donos. Eu não gostaria que tivéssemos chegado a este ponto; era para termos mais controle sobre tantas tragédias. A realidade, contudo, se impõe. E ela exige que abandonemos certas ilusões regulatórias: não adianta criar novas leis quando não existe fiscalização capaz de sustentá-las.

    É verdade que qualquer apaixonado pela raça pode desejar ter um pitbull. Mas desejar não é o mesmo que estar preparado. A raça demanda conhecimento, equilíbrio emocional, senso de responsabilidade e humildade para aprender. Como treinador, reafirmo o que sempre disse: um cão só se torna perigoso quando cai nas mãos de pessoas despreparadas, muitas delas movidas por vaidade, impulso ou fantasia de poder.

    Sempre defendi que todo interessado em ter um cão da raça deveria obrigatoriamente passar por um treinamento sério, capaz de oferecer compreensão real sobre o temperamento, as necessidades e os riscos envolvidos. Hoje, reconheço que isso não basta. É preciso algo mais: leis mais rigorosas, fiscalização presente, punições claras e multas severas para quem desrespeitar as normas.

    O problema — e aqui se revela uma ferida antiga — é que a fiscalização raramente alcança os criadores clandestinos. É nesse subterrâneo que a raiz do desastre se instala. Ali, multiplicam-se cães sem critério, sem ética, sem qualquer responsabilidade. Enquanto isso, os criadores sérios, que trabalham com transparência e compromisso, acabam carregando um peso que não lhes pertence. No Brasil, infelizmente, a lógica costuma ser essa: pune-se quem faz certo, ignora-se quem faz errado.

    E quem perde com isso? Perde o cão, que não tem voz para se defender. Perde a raça, marcada injustamente por estigmas que não nasceu para carregar. Perde a sociedade, que desperdiça a chance de aprender com as tragédias e impedir que se repitam. Perdem também aqueles que sempre amaram o pitbull com consciência, respeito e responsabilidade. Se existe algo a salvar, começa por admitir o óbvio: o problema não é o pitbull. O problema é o caminho torto que alguns humanos insistem em trilhar.

    É por isso que deixo aqui um alerta que não nasce de teorias, nem de exageros, tampouco de histeria coletiva. É constatação dolorosa de quem convive com cães todos os dias: estamos colocando o pitbull à beira de um abismo que ele não cavou. Se continuarmos tratando a raça como vilã, permitindo que criadores clandestinos se multipliquem impunemente, entregando cães potentes a pessoas despreparadas e fingindo que leis sem fiscalização resolvem alguma coisa, teremos um fim irreversível.

    O pitbull precisa de nós agora. Não de capas de jornal inflamadas, nem de discursos vazios, muito menos de ondas de ódio ou de um sensacionalismo que o confunda com qualquer outro cão de cabeça larga e focinho profundo. Isso, sim, é injusto. O que ele precisa é de responsabilidade, educação, vigilância e coragem pública para enfrentar o problema onde ele realmente nasce.

    Se nada for feito, poderemos ter mais mortes. Ou perderemos a chance de corrigir um erro que não é deles. Este texto é, ao mesmo tempo, um alerta e um pedido de socorro. Salvemos a raça antes que a ignorância a condene definitivamente.

    Menino de quatro anos morre após ser atacado por pitbull na zona norte do Rio
  • Adotei um border collie com genes recessivos. E agora?

    Havia cinco filhotes naquela ninhada. Quatro pareciam feitos da mesma matéria: pretos, compactos, quietos, como se o tempo, para eles, fosse mais lento. Mas um, o quinto, era diferente: albino, um olho de cada cor e esperto por natureza. Maior, mais firme nas patas, olhos acesos como se lesse pensamentos, o primeiro a alcançar as tetas da mãe, o único a reclamar quando um irmão tentou dividir espaço. Um pai que chegava para escolher o cão ideal para a sua família, viu aquele filhote branquinho e disse, com a falsa intuição de quem se julga conhecedor:

    — Filha, vamos levar esse!

    A garotinha, sem dizer muito, pulou no colo do pai e disparou uma centena de beijos em suas bochechas.

    Levaram-no para casa no banco de trás, entre a filha entusiasmada e a mulher preocupada com o cheiro de urina. Deram-lhe o nome de Pompom, porque era macio, redondinho, quase irreal. Tinha o pelo branco como neve recém-caída, olhos de botão e patas desajeitadas que escorregavam no banco de couro. Talvez, no fundo, acreditassem que o nome pudesse conter o ímpeto daquele filhote que, aos olhos da menina, mais parecia um brinquedo de pelúcia prestes a ganhar vida

    Nos primeiros dias, Pompom dormia como qualquer cão recém-chegado. Mostrava-se assustado, medroso com os ruídos, e choramingava com a ausência da mãe. Mas logo a rotina ganhou outros contornos. Descobriu como explorar a casa, fazer xixi e cocô por tudo quanto é lugar — menos na fralda. Quando arrastou o tapete até o quintal e roeu o que pôde dos móveis da casa, deixou de ser engraçado.

    Não demorou para começar a rosnar ao redor da comida. A mãe estranhou e o chamou de ciumento. Quando passou a latir para carros e motos, ou a correr atrás das pessoas mordiscando calcanhares e cercando o grupo como se fosse gado, o pai ficou desesperado… Ele ainda não sabia, mas adotara um cão de linha de trabalho, descendente de campeões e com um drive altíssimo.

    O pai até cogitou a devolução, mas sentia-se responsável por aquela vida. Ligou para o dono do canil em busca de uma solução imediata, e ouviu, do outro lado da linha, a resposta fria de quem já não podia, ou não queria, se envolver:

    — Esse cão não foi feito pra sofá. Ele precisa de função.

    Foi a primeira vez que a palavra função apareceu. A partir daí, as coisas pareceram desandar entre o cão e o resto do mundo. Um cão que só faz o que quer é incontrolável. Disse a si mesmo:

    — Um cão que só faz o que quer é incontrolável.

    Pompom era, de fato, um legítimo border collie, embora o pai mal soubesse o que isso significava. Não era apenas uma raça, mas uma potência. Um corpo moldado por gerações para pensar em movimento, responder a comandos invisíveis, pastorear o caos. E, mais do que tudo, um cérebro preparado para trabalhar horas a fio com um único propósito: controlar rebanhos vivos. Na ausência de ovelhas, bastava-lhe algo que se movesse.

    Mas ali não havia rebanhos. Só almofadas, tapetes e uma menina que sonhava com um amiguinho. E, quando não se dá uma missão a um cão com a inteligência de um border, ele inventa uma. Pompom pastoreava a casa inteira: cercava portas, montava guarda, rosnava quando o aspirador mudava de direção. Seguia sombras, latia para ventiladores, mordia o próprio rabo. Rodeava, sem parar, a mesa de jantar e até bebia a água da piscina. Tudo parecia brincadeira ou jogo. Para um leigo, era difícil saber.

    O primeiro adestrador tentou o método positivo. Disse que não havia caminho melhor. O segundo, estúpido e apressado, propôs colocar uma coleira de choque no filhote. O terceiro, adepto de florais, também não teve progresso. Restava estudar. Mergulhar nos livros, entender o comportamento canino. E foi assim que, com a ajuda de um novo treinador, começou a compreender as raízes de tantos transtornos.

    Enfim, surgiu uma nova teoria: genes recessivos comportamentais. Traços invisíveis à primeira vista, mas capazes de emergir quando duas linhagens equivocadas se cruzam. Características que não apareciam nem no pai, nem na mãe, mas que, uma vez ativadas, exigiam contenção. E não qualquer contenção: rotina, clareza, estímulo, constância.

    A palavra recessivo ficou martelando na cabeça do pai. Começou a ler. Descobriu que a genética não é destino. É mapa. E que esses genes não vêm sozinhos: carregam comportamentos instintivos que, quando ignorados, explodem. Ansiedade por movimento, obsessão por tarefa, reatividade emocional. Era isso que pulsava dentro de Pompom. Ele não era um cão-problema. Era um cão incompreendido.

    E então, finalmente, o pai fez o que jamais havia feito: olhou para dentro e traçou novas metas.

    Começou a levar Pompom ao futebol. Passou a acordar mais cedo para correr com o cão. Leu livros de comportamento canino com a mesma atenção que antes dava ao noticiário esportivo. Aprendeu sobre epigenética , o modo como o ambiente pode acender ou apagar comportamentos nos cães. Entendeu que amor, sozinho, não basta para dar direção. Que amor sem conhecimento vira pena. E pena, quase sempre, vem seguida de raiva. Frustrações pelas “provocações” que Pompom fazia.

    Como diria Edmund Burke, “a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda hão de nascer”. O pai compreendeu que, entre homem e cão, também existia um pacto silencioso — selado pela ancestralidade, pela vocação impressa na carne. e que esse pacto precisava ser honrado, não ignorado.

    A rotina da casa mudou. Pompom passou a ter tarefas, jogos de olfato, percursos no mato, comandos de espera e recompensa. O treinador ensinou novos comandos, sempre desafiando sua capacidade mental. A ansiedade deu lugar à escuta. O corpo deixou de implodir. O olhar, antes elétrico, tornou-se profundo.

    A menina voltou a brincar com ele. A mãe, a sorrir das travessuras de Pompom. Ele já não mordia, nem destruía os móveis. Deixou de ter posse do sofá ou da comida, mas ganhou um cantinho na cama, toda vez que entrava no quarto devagarinho.

    — Quando ele faz essa carinha, a gente pode deixar entrar!

    O pai compreendeu, por fim, que não havia adotado um ursinho de pelúcia, mas um ser com passado. Que os cães que parecem mais brilhantes, mais ágeis, mais espertos são, muitas vezes, os mais difíceis de manter. Que herança genética não se reverte com agrado, mas se conduz com consciência. E vigiar, para ele, é função. Porque cães como ele não descansam.

    Se o seu cão tem genes recessivos, não procure culpados. Não tente corrigi-lo com vídeos da internet. Não espere que ele se adapte ao seu sofá, ao seu tédio, à sua pressa. Porque, cedo ou tarde, o que ele carrega vai emergir. E, quando isso acontecer, você vai ter que escolher entre fugir ou tornar-se melhor.

    Pompom, por sorte, teve pessoas que decidiram mudar hábitos para construir uma relação melhor. Mas a sorte, você sabe, não é o que determina o fim da história. É a escolha. E a coragem de sustentá-la.

  • O cão que sabia esperar

    Chamava-se Mingau. Era jovem ainda. Uma mistura de beagle com sei lá o quê.

    Chegou a casa numa noite de chuva, só pele e osso, com os pelos encharcados e a cabeça cheia de feridas. Meu pai lhe deu o resto do prato. Pedi para ficar com ele, mas minha mãe disse que ia dar trabalho e que acabaria sobrando para ela. Mesmo assim, ele ficou.

    Nunca pulou em ninguém. Não pedia comida. Dormia num canto da sala e vigiava, atento, quando deixávamos o portão aberto.

    Quando cresci, ele já andava torto. O rabo balançava devagar. Uma orelha ficava ereta; a outra, caída. Só os olhos continuavam espertos: dois furos negros cravados no pátio, como se esperassem que os passarinhos viessem bicá-los.

    A rotina era essa: eu saía, ele ficava parado. Não corria atrás de nada. Nem de gato, nem de galinha. Também não latia. Apenas acompanhava com o olhar. E ficava.

    À tarde, quando eu voltava da escola, lá estava ele. No mesmo lugar. Sentado. Às vezes deitado. Mas sempre ali.

    Uma vez perguntei por quê. Meu pai disse:

    — Cachorro é bicho que espera.

    Na aula de História, o professor — sujeito que gostava de tudo quanto era bicho — contou sobre um cachorro japonês que esperou o dono por anos na porta da estação. O homem morreu, mas o cão continuou voltando ali, dia após dia, até o fim da vida. Virou estátua. E, até hoje, é lembrado.

    Achei bonito. Contei pro meu pai.

    Ele apenas disse:

    — É Hachiko.

    Saí de casa ainda adolescente. Faculdade, primeiro emprego, a correria do mundo lá fora. Mas, sempre que eu voltava, lá estava Mingau — no mesmo canto, diante do portão — como se o tempo tivesse passado só para mim. Cego, como se sempre tivesse sido. As patas trêmulas. O corpo frágil, tombado de lado.

    Da última vez que o vi, não me reconheceu de imediato. Depois, mexeu as narinas e me farejou. E então fez aquele ruído baixo de cão, que não é choro, mas é pior do que isso.

    Sentei com ele no chão. Cocei atrás da orelha, como ele gostava. Mingau encostou a cabeça na minha perna e dormiu. Ficou ali até o anoitecer. Eu fiquei em silêncio, até minha mãe acender a luz da varanda e perguntar se eu ia entrar.

    E eu disse:

    — Daqui a pouco eu entro.

    Na semana seguinte, fui embora. Mingau morreu três dias depois.

    Na manhã do quarto dia, minha mãe o encontrou caído de lado, com os olhos abertos. Olhos de quem, talvez, ainda esperasse uma última visita.

    Ela contou que Mingau passou os três dias deitado no portão. Não comeu. Não dormiu. Não se moveu.

    Meu pai chorou. Disse que aquele cão só podia ser a reencarnação do Hachiko. Minha mãe não confirmou nem negou, também não se surpreendeu. Apenas baixou o olhar e pediu que me ligassem, para que eu pudesse vê-lo.

    Naquela época, eu não acreditava que bicho entendesse de ausência. Mas sei disso agora, quando penso no Mingau.

    Foi no silêncio daquele portão, diante de um cão que esperava mesmo quando ninguém mais vinha, que me dei conta do que queria fazer da vida.

    Hoje, sigo o rastro de outros cães. Procuro histórias que me façam lembrar do que vivi com o Mingau. Tento ajudar os que ainda não aprenderam a escutar os animais.

    Larguei o emprego. Tornei-me treinador. E, no fundo, nunca deixei de voltar àquele primeiro cão.

    Acho que ele ainda está lá. Não em corpo, mas no gesto de cada cão que sabe esperar. Como quem ensina, sem palavras, que amar também é saber permanecer.

    *Ao meu cão Duque, por todas as vezes em que ele espera sua doninha junto ao portão.

  • O comando que nunca dei

    Quando abri a porta, meu cão já sabia.

    Ele me olhou sem esperar que eu falasse. Fez aquele gesto de quem antecipa o resultado antes mesmo de acontecer: abanou o coto de rabo, espreguiçou-se com uma elegância despretensiosa — a graça dos que não precisam provar nada — e me seguiu em silêncio. Não o chamei, nem era necessário. Também não fiz aquele som ordinário de estalar a língua ou bater na coxa, como fazem os entendidos. Apenas me levantei e meneei a cabeça com leveza. Para Rex, esse era um discurso inteiro.

    Já morei com gente que não me entendia, mesmo com todas as palavras à disposição. Rex, não. Rex compreende o que não é dito. Talvez porque, no silêncio, eu seja mais objetivo.

    Quem convive com cães por tempo suficiente acaba aprendendo — ou se rendendo — a uma linguagem anterior à linguagem. Aquela que, como diria Wittgenstein, “só pode ser mostrada, não dita”. No mundo dos cães, um gesto é uma frase com sujeito, verbo e confirmação. Um olhar basta. Expressões corporais são analisadas constantemente pelos cães. Um deslocamento de peso, uma hesitação no ar, e tudo está dito. A verdadeira eloquência mora nos detalhes.

    E não se trata apenas de romantismo. A ciência já se curvou a isso. Pesquisadores da Universidade de Budapeste demonstraram que os cães leem nossos rostos, a direção de nosso olhar, os gestos mínimos, assim como quem lê um roteiro. Segundo Ádám Miklósi, referência mundial na cognição canina, os cães desenvolveram uma habilidade rara: entender os humanos como espécie emocional, previsível e cheia de sinais. Um talento evolutivo que nem os chimpanzés conseguiram refinar.

    Mas essa dança silenciosa entre espécies não é automática. Levei tempo — e vários erros — para perceber que, quase sempre, o problema não era o cão. Era a minha pressa. A ansiedade que atravessa o corpo e contamina o gesto. Muitos acreditam que educar um animal é gritar mais alto do que ele. Que é preciso impô-lo à força, como quem vence uma queda de braço. Mas a verdade é que o grito desinforma. A grosseria confunde. A incoerência desorienta. A ameaça vira chacota. E assim, educadores frustrados colhem cães inseguros.

    Há uma elegância em educar um cão sem adestrar a alma. Educar, afinal, é mais sobre o que você é do que sobre o que você diz. Um cão não está interessado se você diz “senta” (ou “stay”), com sotaque de tutorial americano. Ele percebe — e responde — à coerência entre verdade e atitude. Ele lê a dúvida nos seus ombros. Fareja o medo no seu suor. Se você acredita nele, ele acredita em você. Mas se você finge firmeza, ele hesita. E com razão.

    Educar um cão é, antes de tudo, educar-se. Um exercício involuntário de autoconhecimento. Por isso falhamos tanto. Porque é mais fácil culpar o cachorro do que confrontar a própria falta de presença, o nervosismo crônico, o ego em desalinho. O cão não erra, ele quase sempre reflete nossos erros.

    Quando Rex está ao meu lado, ele sabe quando estou inteiro. E sabe também quando sou apenas uma casca funcionando no modo automático. Ele me lê antes mesmo que eu consiga me ler. Talvez por isso tenha se tornado meu melhor espelho. Não daqueles que mostram o rosto, mas os que revelam os gestos e meus desejos mais silenciosos de companhia.

    Naquela manhã, ao abrir a porta e ver meu cão me seguir, não fomos apenas eu e ele saindo à rua. Éramos dois cúmplices de uma linguagem invisível. Ele ia à frente, com a minha permissão, como quem desbrava uma estrada. Eu logo atrás, com o coração sossegado. E, no compasso das nossas pegadas, talvez — só talvez — o mundo estivesse, enfim, no lugar certo.

  • Dominância imposta é ultrapassada, mas a hierarquia é real e necessária

    Sou da época em que se adestrava cães com base na força, dominação e autoritarismo. Havia um consenso de que o ser humano precisava ser o “alpha” da relação para impor mais respeito. Quase todos os profissionais seguiam esse caminho, ensinando-o com tanta convicção que sequer se cogitava outra possibilidade.

    A própria ciência veio corrigir esse conceito ao mostrar que a dominância não é um traço fixo de personalidade, mas uma construção relacional, que depende do contexto e da interação entre os indivíduos. Estudos mais recentes, conduzidos com observações de lobos em ambiente natural — e não mais em cativeiro — demonstraram que os vínculos dentro do grupo se organizam de maneira cooperativa e dinâmica, baseando-se mais em afiliação e estabilidade do que em confrontos contínuos por poder. Essa revisão ajudou a quebrar os grilhões. Mas, nesse processo de compreender melhor a natureza social dos cães, muitos jogaram fora também o bom senso. Abandonaram o conceito de dominação e, junto com ele, a ideia de hierarquia. A meu ver, erraram por excesso.

    Mas vale esclarecer uma coisa: medo não educa, tampouco promove bem-estar. O medo paralisa, mascara sintomas e instala um estado de alerta crônico nos cães, que acabam reagindo como forma de defesa. Tornam-se explosivos, desconfiados e inseguros. “Não se combate medo com mais medo”.

    A verdade é que cães não precisam ser subjugados, mas precisam ser guiados. Sem hierarquia funcional, não há convivência saudável. Na ausência de uma figura estruturante, o cão reativo cria sua própria lógica: ataque preventivo, defesa do território e controle do grupo. Ele não quer mandar, quer sobreviver. E, para isso, antecipa riscos, testa forças, impõe regras. Muitas vezes, busca se posicionar dentro do grupo da qual faz parte.

    Quando o cão está à beira do abismo emocional, é o passo firme do humano que o salva.

    É nesse momento que surge a necessidade da hierarquia, não como tirania, mas como construção. Um cão perdido se apega a certezas. Se o humano estiver preparado, pode se tornar esse ponto de referência. Não por grito, mas por constância. Não por opressão, mas por coerência.

    Muitos confundem controle consciente com opressão. Mas a dominância, de que se trata, não é ausência de liberdade, e sim presença de clareza. Não é leveza o tempo todo. É profundidade constante. Assumir o controle na relação não é prepotência nem covardia. É se colocar com previsibilidade, coerência e foco, de modo que a liderança se instale de forma silenciosa e se mantenha coesa a partir do alinhamento entre presença e ação.

    E quando o cão ultrapassa todos os limites? Quando já não há mais margem para técnicas suaves? Quando o medo se espalha entre aqueles que convivem com ele? Nesse cenário, sim, pode ser necessário agir com firmeza. O alpha roll — tão marginalizado pelos adeptos do reforço positivo —, quando aplicado com equilíbrio, não é punição, mas contenção. Não é humilhação, mas um modo de estabelecer limites e regras. Os métodos que o condenam, muitas vezes, não compreendem plenamente a ideia do reforço positivo, pois, sob nenhuma hipótese, o cão deve deixar de ser recompensado por algo que você intencionalmente comandou.

    Nietzsche dizia: “Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.” No caso dos cães, o porquê é o vínculo. O como é o método. E o erro nunca está na técnica isolada, mas na emoção que a move. Um gesto bruto com raiva destrói muito mais. Um gesto firme, sem pena, transforma além do previsível.

    Treinar não é vencer. Educar não é subjugar. Criar não é libertar sem rumo. É construir uma convivência em que o humano assume a condução e o cão encontra espaço para confiar, ter segurança e obedecer. Não, obedecer não é antiquado. O equilíbrio é um templo onde se possa, enfim, baixar a guarda sem perder a autoridade. Mas isso só acontece quando o humano não cede nas primeiras dificuldades nem recua diante da responsabilidade de guiar.

    Sejamos claros: a dominação imposta está ultrapassada. Mas a liderança real continua sendo indispensável. Um cão que já mordeu não se corrige apenas com petiscos. Ele precisa de direção. E quem não souber oferecer esse caminho corre o risco de se tornar só mais uma voz fraca num mundo que o cão já decidiu ignorar. Porque, no fim das contas, nenhum ser fraco será respeitado por uma espécie diferente da sua.

    Educar é assumir a responsabilidade de guiar com firmeza, mesmo quando o processo é instável. Oferecer uma direção sem anular a essência do outro. Para o cão, isso significa confiar sem medo, porque sabe que alguém finalmente assumiu o comando. Confiar, para o cão, é ter o direito ao descanso. Não por se sentir submisso, mas porque enxerga a liderança humano como um pilar de harmonia e sustentação.

  • Qual o Papel do Adestrador?

    O adestrador não é um encantador de cães, um mestre de comandos ou um mágico que resolve todos os seus problemas num estalo. Um treinador canino é, antes de tudo, um tradutor de almas. Ele observa o que, para muitos, é invisível: uma dança sutil entre o ser humano e o cão, onde cada movimento esconde um significado, cada latido indica um pedido, e cada gesto humano expressa uma intenção, seja ela consciente ou inconsciente. O papel do treinador é como o de um guia silencioso que, em vez de apontar o caminho, revela o mapa que sempre esteve encoberto, à espera de ser decifrado. O olhar de um profissional atento percebe o que só os cães sabem.

    No coração dessa relação está a reciprocidade. O cão, com sua determinação e sua linguagem instintiva, ensina lições que o ser humano só perceberá ao aprender a compreender o que se esconde por trás de cada movimento do seu cão. O adestrador, como um maestro, orquestra esse diálogo, mostrando ao dono que o problema nem sempre está no comportamento do cão, mas no reflexo da rotina, na ausência de presença, nos detalhes, no silêncio que nunca se preencheu.

    Há um segredo que o bom treinador carrega em suas ações: educar um cão é, antes de tudo, conscientizar as pessoas. É um ato de transformação e evolução. O cão aprende a se adaptar ao caos da sociedade, enquanto o humano redescobre o valor do aqui e agora. Nesse vínculo, nasce uma lição filosófica: a de que a paciência não é espera, mas cuidado; a consistência não é repetição, mas sensibilidade; e o amor — ah, o amor — é a chave que tudo conecta e transforma.

    Inspirados por essa jornada, percebemos que o treinador canino não foca seu trabalho em treinar apenas cães, mas em cultivar relações saudáveis e harmoniosas, dentro e fora de casa. Ele semeia confiança em terreno árido e colhe uma conexão que transcende o adestramento. Ao final, desaparece como um guia invisível, deixando no coração de quem aprendeu a certeza de que a transformação nunca foi imposta, e sim revelada. Assim, como ensina Aristóteles, “a excelência não é um ato, mas um hábito” — e nessa constância, cuidado e amor, a verdadeira conexão entre homem e cão encontra sua expressão mais sublime.

    E você, já parou para ouvir o que o seu cão está tentando dizer? Talvez, no silêncio que parece comum, ele esteja convidando-o para olhar o mundo com uma nova perspectiva — mais instintiva, mais autêntica e, quem sabe, muito mais humana.

  • O espelho invisível: o que seu cão reflete sobre você?

    Nossos hábitos moldam o comportamento dos cães e, muitas vezes, sem perceber, os transformamos exatamente naquilo que não gostaríamos que fossem. Essa reflexão pode soar dura, mas carrega uma verdade inegável que frequentemente é ignorada. Por trás de cada olhar atento e de cada rabo que balança diante de nós, há um reflexo sutil de nossas ações, emoções e até mesmo de nossos pensamentos.

    É intrigante como as pessoas se esforçam para ensinar comandos como “senta” ou “fica”, enquanto negligenciam a poderosa linguagem invisível que permeia suas expressões corporais e verbais. Cada interação, por menor que seja, contribui para a construção da personalidade e do comportamento dos cães. Sentar-se à mesa é um momento que simboliza respeito e, por isso, não deve ser compartilhado com cães, a menos que eles demonstrem equilíbrio e saibam se comportar educadamente. Ainda que essas regras possam ser flexibilizadas, isso só deve ocorrer quando o ser humano estabelecer uma liderança clara e for capaz de gerenciar o cão com segurança em qualquer situação ou ambiente.

    Oferecer um petisco porque “ele latiu” pode parecer inofensivo, mas reforça comportamentos que podem se tornar inconvenientes em momentos impróprios. Brincadeiras agitadas antes de dormir, por exemplo, podem resultar em noites interrompidas por um cão que não sabe como desacelerar. São nesses detalhes que os cães revelam sua legítima essência. Como observadores natos, eles se tornam verdadeiras esponjas das emoções e sentimentos humanos.

    No livro O Treinamento Invisível, exploramos essas habilidades incríveis dos cães. Educar um cão não é apenas moldar um comportamento, mas aceitar o convite para uma transformação pessoal. Quando controlamos nossa ansiedade, ensinamos calma. Ao sermos consistentes, cultivamos respeito e admiração. E, ao sermos generosos com nosso tempo e paciência, não apenas ajudamos o cão a se equilibrar, mas nos tornamos pessoas melhores no processo.

    Entretanto, a lição mais desafiadora é reconhecer que, muitas vezes, o problema não está no cão, mas na própria pessoa. A história de Bob, um labrador que treinei há cerca de 10 anos, ilustra bem esse sentimento imperceptível que existe dentro de nós. Certa vez, Bob destruiu toda a fiação da moto Harley-Davidson do meu cliente ao ser deixado sozinho em casa. O dono, frustrado, culpou o cão pela “desobediência”, mas, na realidade, o verdadeiro erro estava na falta de planejamento e no ambiente mal preparado que ele, inconscientemente, mantinha. É mais fácil acusar o cão do que enfrentar as próprias falhas. Só o conhecimento leva uma pessoa a buscar as ferramentas adequadas para cada solução.

    A verdadeira mudança começa quando deixamos de enxergar o cão como um projeto a ser moldado e passamos a tratá-lo como um parceiro de aprendizado. Um ser que observa, absorve e responde muito mais ao que fazemos do que ao que dizemos. Essa percepção transforma a relação: o que antes era correção se torna conexão; o que antes era comando se transforma em espontaneidade. Assim como as crianças aprendem observando, os cães absorvem cada uma de nossas atitudes, sejam elas conscientes ou não.

    Na próxima vez que se qustionar sobre o comportamento do seu cão, pergunte a si mesmo: o que ele está aprendendo comigo? A resposta pode não ser satisfatória, mas, certamente, será o ponto de partida para uma relação mais profunda. É nesse quesito que reside o início de uma relação baseada em respeito mútuo, paciência e desenvolvimento. Uma convivência que vai além de comandos e liderança, mas que alcança o que realmente importa: a essência da intimidade entre as espécies.


  • Como pode uma pessoa viver tanto tempo sem um cão?

    Outro dia, deparei-me com uma foto simples, mas cheia de significado: um cão da raça shih tzu fofo e a legenda que dizia, com uma sinceridade quase cortante: “Como pude viver 58 anos sem um cão?” Aquilo me fez refletir profundamente sobre a força desse questionamento. Não era apenas uma questão retórica ou um desabafo casual; era um grito silencioso sobre o impacto de algo que muitos ignoram até o dia em que se deparam com as evidências. Quantas pessoas, por diversas razões, deixam de viver a experiência única de compartilhar o cotidiano com um cão? Quantas, por escolha, circunstâncias ou até por falta de oportunidade, acabam privadas de algo tão poderoso e, ao mesmo tempo, tão simples. É uma relação que dispensa explicação, que não se justifica em palavras, mas que transforma vidas com uma intensidade quase inexplicável.

    Quando reflito sobre isso, o que sinto não é pena pelos cães. Eles sempre encontram formas de amar, de se fazer, de fazer parte do mundo ao seu redor. Minha tristeza é pelas pessoas. Por quem nunca se permitiu experimentar a leveza, o carinho e a simplicidade que vem de um olhar canino. Eles não sabem o que perdem: uma companhia que não exige nada além de presença, uma lição diária sobre amor incondicional. Uma relação tão pura e transformadora que só quem já teve ou tem um animal de estimação pode compreender plenamente.

    Não escrevo para convencer ninguém. Cada um tem suas razões e seu momento. Mas acredito, com cada fibra do meu ser, que a presença de um cão na vida de qualquer pessoa é uma dádiva. Eles trazem mais do que alegrias passageiras; trazem permanência em meio ao efêmero. Um cão nos ensina a desacelerar, a ouvir com o coração, a encontrar beleza na rotina e valor nos pequenos gestos. É uma troca que transcende palavras, um privilégio que muitos talvez só percebam tarde demais.

    Quem já teve um cachorro sabe do que estou falando. São momentos únicos, pequenos instantes que se tornam memoráveis.

    E, para aqueles que ainda não vivenciaram essa experiência, talvez ainda seja tempo de descobrir o que um cão pode fazer por sua vida. A vida tem um jeito curioso de nos surpreender, de nos oferecer segundas chances quando menos esperamos. Acolher um cão, conviver com um ser que nos ama sem reservas, não é apenas um ato de generosidade; é um privilégio. É um aprendizado diário sobre paciência, afeto e simplicidade. E, muitas vezes, são essas lições que mais nos faltam na correria insana dos dias.

    Se eu tivesse que dar uma única dica, diria que um cão é um lembrete claro de que a vida pode ser mais do que contas a pagar e metas a cumprir. É sobre conexões reais, sobre estar presente e sobre amar sem esperar nada em troca.

    Para aqueles que ainda duvidam do que a companhia de um cão pode ser capaz, talvez a pergunta não seja “Como pude viver tanto tempo sem um cão?” e sim “O que estou esperando para descobrir o que um cão pode me ensinar?”. Afinal, não importa quando o laço começa, ele sempre tem o poder de durar (ou curar o) para sempre.

    *Inspirado numa publicação de Roberto Motta, extraído do Threads.


  • O Luto na Visão dos Cães

    O luto, no olhar humano, é o vazio que se instala após uma perda. Uma ausência que ecoa e se faz presente em cada instante de saudade. Mas, se o luto é tão humano, como explicar que o cão também sofra quando seu dono se vai?

    Talvez isso se deva ao mistério do vínculo que une nossas almas às deles. Diferente de nós, os cães não filosofam sobre o que foi ou sobre o que virá, nem se perdem em pensamentos sobre a ausência. E, ainda assim, quando seu dono parte, algo neles se transforma para sempre. Como Hachiko, o cão que esperou incansável pelo dono que nunca retornaria, os cães têm seu próprio e singular jeito de viver a perda.

    Eles refletem nossas emoções, espelham nossos sentimentos, sentem a nossa dor e também vibram com nossas alegrias. Na ausência, os cães absorvem o vazio, percebem a mudança no ar, o silêncio dos passos que não se repetem mais, e o cheiro que gradualmente desaparece. Mesmo sem palavras ou cerimônias, são tocados pela presença que se foi.

    Um cão enlutado pode ficar apático, quieto, perder o interesse pelo que antes o alegrava. Sua conexão com o dono é uma cumplicidade que ultrapassa o toque e a presença física, algo que, de certa forma, transcende. Como uma alma pura, ele sente a perda sem as complexidades culturais ou emocionais que nós temos. É como se o cão soubesse, em sua simplicidade, que algo essencial se perdeu..

    No entanto, assim como nós, os cães possuem uma força de renovação surpreendente. O segredo está em manter a rotina, respeitar seu tempo, e, acima de tudo, não projetar sobre eles as nossas próprias tristezas. Eles não se apegam à dor; para eles, apenas o presente é real, e talvez por isso, gradualmente, eles sigam em frente. Eles não entendem a nossa pena, não precisam de lamentações.

    Diz-se que, para o cão, só existe o momento presente. E talvez isso explique porque, aos poucos, eles reencontram o caminho para a alegria. O luto dos cães não é uma prisão; é uma travessia silenciosa que nos lembra que a dor pode ser abraçada, mas não deve ser eterna.

    Talvez, de vez em quando, ao sentir um cheiro familiar ou uma brisa que traz algo do passado, ele erga o focinho e, em seu íntimo, sorria, sentindo que, de algum modo, ainda estamos presentes. Porque o amor de um cão não se apaga com o tempo ou a ausência; ele persiste, eterno e fiel, como uma chama que nunca se extingue.

    E assim, quando a noite cai e o silêncio domina, ele dorme em paz, com o coração ainda aquecido por aqueles que um dia amou. E nós, de algum lugar, talvez sintamos o mesmo: uma saudade doce, acompanhada da certeza de que um vínculo assim, entre cão e humano, nunca se rompe de verdade. Nessa complexidade de se fazer evoluir, para os cães, cada instante importa, o passado se dissolve na simplicidade do presente. Eles nos ensinam, assim, que amar também é saber soltar. Um novo lar, uma nova rotina, um novo amor… tudo no cão é levado a ser simples.


  • “Apenas um cachorro”, de Richard A. Biby

    Há pouquíssimas informações disponíveis sobre a vida de Richard A. Biby, autor do livro Apenas um Cachorro. Apesar disso, ele nos presenteou com uma das mais belas e comoventes obras literárias dedicadas a um cão. Seu poema, de uma profundidade tocante, expressa de maneira única e sensível o amor e a conexão entre ele e seu fiel companheiro canino, revelando sentimentos que ecoam no coração de qualquer pessoa que já tenha vivido a experiência de amar um animal.

    Abaixo, os poemas no original em inglês e em tradução livre:

    Apenas um cachorro

    Muitas horas passaram sendo minha única empresa “apenas um cachorro”, mas não por um único momento eu me senti desprezado. Alguns dos meus momentos mais tristes foram para “apenas um cachorro”, e naqueles dias cinzentos, o toque suave de “apenas um cachorro” me deu o conforto e a razão para passar o dia.

    Se você também pensa “é apenas um cachorro”, então você provavelmente entenderá frases como “apenas um amigo”, “apenas um nascer do sol” ou “apenas uma promessa”. “Somente um cão” traz à minha vida a própria essência da amizade, da confiança e da alegria pura e desenfreada. “Somente um cão” traz a compaixão e paciência que me tornam uma pessoa melhor.

    Por “apenas um cão”, vou me levantar cedo, vou fazer longas caminhadas e ansioso para o futuro. Então, para mim, e para pessoas como eu, não é “apenas um cão”, mas uma encarnação de todas as esperanças e sonhos do futuro, as lembranças do passado e a alegria absoluta do momento. “Somente um cão” traz o bem em mim e desvia meus pensamentos para longe de mim e das preocupações diárias.

    Espero que um dia você possa entender que não é “apenas um cachorro”, mas o que me dá a humanidade e me impede de ser “apenas um humano”. Então, na próxima vez que você ouvir a frase “apenas um cachorro”, apenas sorria porque “simplesmente não entende”.

    *Richard A. Biby


    JUST A DOG

    From time to time, people tell me, “Lighten up; it’s just a dog,”

    or, “That’s a lot of money for just a dog.” They don’t understand the distance traveled, the time spent, or the costs involved for “just a dog.”

    Some of my proudest moments have come about with “just a dog.”

    Many hours have passed and my only company was “just a dog,” but I did not once feel slighted.

    Some of my saddest moments have been brought about by “just a dog,” and in those days of darkness, the gentle touch of “just a dog”gave me comfort and reason to overcome the day.

    If you, too, think it’s “just a dog,” then you will probably understand phrases like “just a friend,” “just a sunrise” or “just a promise.”

    “Just a dog” brings into my life the very essence of friendship, trust, and pure unbridled joy.

    “Just a dog” brings out the compassion and patience that make me a better person.

    Because of “just a dog” I will rise early, take long walks and look longingly to the future.

    So for me and folks like me, it’s not “just a dog” but an embodiment of all the hopes and dreams of the future, the fond memories of the past, and the pure joy of the moment.

    “Just a dog” brings out what’s good in me and diverts my thoughts away from myself and the worries of the day.

    I hope that someday they can understand that it’s not “just a dog” but the thing that gives me humanity and keeps me from being “just a human.”

    So the next time you hear the phrase “just a dog,” just smile, because they “just don’t understand.”

    “Just a Dog” was written by Richard Biby.


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