Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos.
Instalado no apartamento, o fiteiro de Wilson aparecia no meu campo de visão e no trajeto diário para a universidade; entretanto, não na minha familiaridade. Não tardou, porém, para entrar nela, ou melhor, para eu entrar na familiaridade dele. Assim, o “- Bom dia. – Bom dia.” de todas as manhãs foi substituído pelo “- Bom dia, Horácio! – Opa, Lucas, tudo bem? Vê só…”
Além de compor um cenário, o fiteiro está no cotidiano daquele local e dos que nele vivem. Existem sujeitos que apenas passam por lá, dando um alô sem se deixar ficar, ou somente vão comprar algo, partindo logo após receber o troco. Quando o indivíduo se distancia, vem o comunicado aos novatos, “é fulano, de tal bloco”, ocasionalmente seguido de uma história.
Sem pauta pré-definida ou até interlocutor previamente conhecido, muitos se direcionam para Wilson, sabem que lá a prosa nunca falta ao encontro. Para determinadas pessoas, a ida ao fiteiro é tão habitual que a despedida vem com um “até amanhã”. Uns bebem, dividindo sua motivação entre o papo e a cerveja; mas tem os que só cavaqueiam, vendo nisso a única razão de estar ali.
Quem observa à distância pode julgar que, nesses ambientes, só se fala futilidades.
Elas sempre estão presentes, é verdade, e a isso devemos dar graças; afinal, as parolas são de grande utilidade para a vida. No entanto, no banquinho, na cadeira ou em pé, rolam as mais variadas conversas, desde a mais besta até a mais séria (e, pela besteira, as sérias).
O menor acontecimento vira tema, tenha se sucedido em casa, no trabalho ou na família. Engana-se quem acha que comentar sobre o tempo é a melhor forma de puxar conversa, é o futebol; basta um “E o santinha, como vai?”, para – depois de receber um invariável “Tá difícil” – o papo se instalar. Assuntos vêm também pelas notícias, as dos jornais e das bocas, com cada um dando sua opinião. Há ainda a política, alguns a abordam fugindo, baixinho; outros possuem menor cautela, “Se Bolsonaro surgir aqui na barraca, eu não atendo ele”, bradou Leto certa vez.
Diante de uma história que contei, um amigo perguntou sobre o fiteiro: “Dá uma crônica?” Com certeza. Dá crônica, samba e muito mais.