Maria Elza Gonçalves no Crônicas Cariocas

  • Quem ou o quê?

    Nem só de pão vive o homem…

    Vive atrás do salário, da prestação da casa própria, do preço da gasolina, da promoção que não veio, da aposentadoria que talvez venha, da dieta que começa na segunda-feira e do boleto que, pontualíssimo, nunca se esquece dele.

    Ah, e também de notícias.

    Escândalos financeiros, guerras, feminicídios, golpes, corrupção, propaganda eleitoral. Mudam os candidatos, às vezes os partidos, raramente o modelo. Entre uma tragédia e outra, um anúncio oferece um colchão ortopédico em doze parcelas sem juros.

    O ser humano é realmente uma criatura admirável.

    Acorda, olha o celular e, antes mesmo do café, já sabe o que o aguarda. Ainda assim, escova os dentes e vai trabalhar.

    No caminho, reclama do trânsito, no trabalho do salário, no almoço do preço da comida.

    Não pensem que estou falando apenas dos pobres, dos fracos, dos desafortunados ou dos “menos favorecidos”.

    Não.

    O rico também sofre. Naturalmente, sofre com algum conforto, o que não deixa de ser uma vantagem considerável.

    Mas sofre.

    Talvez esteja aí uma das coisas mais estranhas sobre a humanidade.

    Somos capazes de assistir a uma guerra durante o jantar e, logo depois, discutir porque alguém deixou a manteiga fora da geladeira.

    Choramos por desconhecidos.

    Brigamos com quem amamos.

    Economizamos para o futuro e compramos por impulso.

    Queremos viver muito, mas passamos boa parte da vida com pressa.

    Inventamos máquinas para poupar tempo e imediatamente encontramos novas maneiras de não ter tempo algum.

    Construímos cidades, escrevemos poemas, fazemos transplantes de coração, mandamos sondas para outros planetas.

    E ainda não aprendemos a conviver direito com o vizinho.

    Quem somos afinal? 

    Porque somos?

    Não sei.

    Faço parte da espécie, o que certamente prejudica a imparcialidade da minha pergunta. 

    Só sei que, apesar de tudo, amanhã alguém vai plantar uma árvore, outra pessoa vai preparar o café para quem ama, uma criança vai aprender uma palavra nova, haverá quem estenda a mão para um desconhecido e quem ria até perder o fôlego por uma bobagem qualquer.

    Talvez seja por isso que continuamos.

    Eu, pelo menos, decidi uma coisa: não vou mais questionar

    Não por enquanto.

  • A loja do Joca

    — Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo?

    — Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade.

    — Peraí. Vou lá buscar.

    E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda.

    Essa é a segunda empreitada comercial do Joca.

    Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas.

    Depois virou dono de um caminhão de gado.

    Também foi tratorista.

    Mais tarde resolveu abandonar, por algum tempo, as atividades ligadas ao campo e entrou para a área da tecnologia.

    Nessa época quase desapareceu. Já não era visto com a mesma frequência de sempre.

    Acho que descobriu rapidamente que telas não conversam.

    E o Joca gosta é de gente.

    Gosta de contar novidades, perguntar da vida dos outros, dar notícias, ouvir histórias.

    Logo abandonou a carreira tecnológica e voltou ao convívio humano.

    Mas, se depender da herança, tanto da genética quanto da financeira, ainda acredito que acabará no setor rural.

    Foi então que ouvi:

    — Mãe, o que você está fazendo aí? Venha. Nós já vamos almoçar.

    — Já vou. Estou esperando o Joca.

    Lá vinha ele, carregando sua loja.

    — Tia, você também quer comprar?

    — Quero. O que você vende?

    Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:

    — Eu vendo lápis… ou melhorias.

    Eu esperava qualquer coisa. Mas desta vez, confesso que fugiu ao meu alcance! O que ele queria dizer com “lápis e melhorias”?

    Abriu uma caixa de papelão, colocou-a sobre a cadeira e levantou a tampa.

    Lá dentro havia três ou quatro lápis.

    Olhei para a caixa e perguntei:

    — E as melhorias? O que são?

    Sem dizer uma palavra, pegou um apontador.

    Ergueu-o diante de mim, como quem apresenta uma grande invenção.

    — Se você já tiver um lápis, eu vendo só a melhoria.

    Fez uma pequena pausa.

    — Mas, se você não tiver, eu vendo o lápis… e dou a melhoria de graça.

    Na lógica dos adultos, aquilo talvez nem fizesse sentido.

    Na lógica do Joca, fazia todo.

    Porque, para ele, um lápis nunca é apenas um lápis.

    Sempre pode melhorar.

    E talvez seja justamente isso que a infância saiba fazer como ninguém: enxergar melhorias onde nós só vemos um apontador.

  • Despreparar

    Ou preparar. Quem sabe?

    A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece?

    Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade?

    Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado formal. Apenas a vida acontecendo.

    Então surge uma febre repentina. Chamamos o pai. Só que ele também está aprendendo. Ontem era um rapaz sem grandes preocupações. Hoje tenta descobrir por que o bebê chora, aprende a fazê-lo arrotar, troca fraldas, anda pela casa com a criança no colo durante a madrugada. Tudo isso enquanto o pequeno tem cólicas, regurgita e volta a chorar.

    Ninguém entregou um manual.

    Faço essa reflexão e me vem à mente a ideia de que carregamos uma memória antiga, quase genética, exemplos silenciosos e uma rede invisível de proteção.

    Há sempre os anjos da guarda da vida real: mães, tias, vizinhas, amigas, sogras, primas.

    Há também as heroínas dos livros, dos filmes e das histórias. Mesmo sem perceber, somos influenciados por elas.

    Talvez seja assim que sobrevivemos. Escutamos a música e, intuitivamente, sabemos dançar.

    É por isso que acredito nessa sabedoria sem nome. Uma mistura de experiência, instinto, coragem e referências que vamos recolhendo ao longo da vida.

    Algumas nascem conosco. Outras nos são emprestadas por quem passou antes de nós.

    Depois de tantos anos sendo exigidos pela vida, atravessando fases tão diferentes, é natural que chegue o tempo de colher um pouco do que plantamos e aproveitar as benesses da terceira idade.

    Também aprenderemos a envelhecer. Como aprendemos a ser adultos. Na prática.

    Talvez a velhice não peça tantos aprendizados novos. Ela nos convide apenas a desaprender. Que não há culpa de pensar em nós primeiro. Nem ter a necessidade de resolver tudo.

    Desaprender a acreditar que nossa felicidade deve esperar a de todos os outros.

    Acredito que precisemos nos despreparar.

    Deixar pelo caminho algumas exigências que fizeram sentido durante tantos anos, mas que já cumpriram sua missão.

    Quero crer que envelhecer também seja isso: reconhecer que continuo responsável pela minha vida, mas que agora posso escolher um ritmo diferente.

    Porque viver nunca foi uma escolha. Aprender a viver, sim.

    E, depois de ajudar a sedimentar o caminho de quem um dia dependeu de nós, talvez seja chegada a hora de caminharmos com mais leveza pelo nosso próprio. Intuitivamente, mais uma vez!

    🌷

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