Maria Elza Gonçalves no Crônicas Cariocas

  • Despreparar

    Ou preparar. Quem sabe?

    A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece?

    Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade?

    Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado formal. Apenas a vida acontecendo.

    Então surge uma febre repentina. Chamamos o pai. Só que ele também está aprendendo. Ontem era um rapaz sem grandes preocupações. Hoje tenta descobrir por que o bebê chora, aprende a fazê-lo arrotar, troca fraldas, anda pela casa com a criança no colo durante a madrugada. Tudo isso enquanto o pequeno tem cólicas, regurgita e volta a chorar.

    Ninguém entregou um manual.

    Faço essa reflexão e me vem à mente a ideia de que carregamos uma memória antiga, quase genética, exemplos silenciosos e uma rede invisível de proteção.

    Há sempre os anjos da guarda da vida real: mães, tias, vizinhas, amigas, sogras, primas.

    Há também as heroínas dos livros, dos filmes e das histórias. Mesmo sem perceber, somos influenciados por elas.

    Talvez seja assim que sobrevivemos. Escutamos a música e, intuitivamente, sabemos dançar.

    É por isso que acredito nessa sabedoria sem nome. Uma mistura de experiência, instinto, coragem e referências que vamos recolhendo ao longo da vida.

    Algumas nascem conosco. Outras nos são emprestadas por quem passou antes de nós.

    Depois de tantos anos sendo exigidos pela vida, atravessando fases tão diferentes, é natural que chegue o tempo de colher um pouco do que plantamos e aproveitar as benesses da terceira idade.

    Também aprenderemos a envelhecer. Como aprendemos a ser adultos. Na prática.

    Talvez a velhice não peça tantos aprendizados novos. Ela nos convide apenas a desaprender. Que não há culpa de pensar em nós primeiro. Nem ter a necessidade de resolver tudo.

    Desaprender a acreditar que nossa felicidade deve esperar a de todos os outros.

    Acredito que precisemos nos despreparar.

    Deixar pelo caminho algumas exigências que fizeram sentido durante tantos anos, mas que já cumpriram sua missão.

    Quero crer que envelhecer também seja isso: reconhecer que continuo responsável pela minha vida, mas que agora posso escolher um ritmo diferente.

    Porque viver nunca foi uma escolha. Aprender a viver, sim.

    E, depois de ajudar a sedimentar o caminho de quem um dia dependeu de nós, talvez seja chegada a hora de caminharmos com mais leveza pelo nosso próprio. Intuitivamente, mais uma vez!

    🌷

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