menina mimada

  • Minha luta

    Não sei se ainda estou perdida. As guerras de minha mãe e de meu pai devem ter afetado o meu psicológico severamente. Eles digladiavam com tudo, entre si, com o mundo. Tinham trabalhos que odiavam. Chegavam a casa resmungando ou gritando. Quase sempre eu era bucha de canhão. E olhe lá quando não me chamavam de menina mimada, sem ver para quê, e eu pensava que era justamente pelo fato de não me meter nessas tragédias diárias. Até que se separaram e eu dei graças a Deus. Pensei que as brigas iam cessar. Mas morar com minha mãe não foi a melhor opção — aliás, não tive opção. Minha mãe me pegava para Cristo e me impunha mais obrigações com a casa: arrumar, limpar, deixá-la brilhando. Eu era uma verdadeira cinderela, uma filha bastarda, só pode. Logo meu pai se amigou com uma gentinha e sumiu. Pelo menos ele não dava as caras para me aporrinhar com mais demandas. Se ligava, era uma vez perdida, para perguntar como eu estava, mas eu sentia que a pergunta era clichê, de praxe, só para demonstrar preocupação. Eu estava exausta e desamparada. Minha mãe ficou solteirona, reclamando da vida, culpando o meu pai por tudo que lhe acontecia. E o pior, foi mal-acostumada: não sabia mexer no computador, não sabia fazer compras virtuais, mal sabia usar o celular. Então, para tudo demandava a minha presença, e eu era obrigada a reparar as suas deficiências. Aos dezessete, tive a oportunidade de morar com a minha avó, e agarrei com unhas e dentes. Foi o momento para descansar e estudar. Minha avó, sim, foi minha mãe, cuidava da minha alimentação, se preocupava realmente comigo, com o meu bem-estar, com meus estudos. Inclusive, nessa época, me lembro, ganhei peso, e fui obrigada a me inscrever numa academia — no fim, foi bom porque me desopilava e via os gatinhos do bairro a que acabara de chegar. Não passei de primeira no vestibular para Odonto. Teria que fazer numa universidade pública. Tive mais tempo de estudar e, enfim, passei no ano seguinte. Mas ao longo da faculdade sentia um vazio, uma inadequação, como se tivesse feito a escolha errada. Seguiria a sina dos meus pais? Fiquei com medo de mudar de curso. Sempre gostei de literatura e tinha uma vontade velada de fazer Letras. Mas primeiro devia me formar em Odonto, por pura vaidade minha e pelo que os outros iriam dizer. Formei-me e trabalhei seriamente no ramo por dez anos. Depois resolvi fazer Letras, era uma paixão. O tempo estava escasso, a vida cansativa, mas eu me divertia. Meus pais só tinham orgulho da filha cirurgiã dentista — enchiam a boca para falar —, mas, de resto: nada. Não contribuíram com a minha formação. Pensando melhor, acho que me encontrei. Foram anos de luta até me formar em Odonto e em Letras. Por enquanto, Letras é um hobby. De uma coisa eu sei: os caminhos ainda estão abertos. Esqueci-me do amor, de amar. Talvez ainda haja chance para isso.

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