Menino

  • O Menino e Matisse

    Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e também com os dedos, os movimentos da figura. Ele está sozinho no quarto e desenha. Nada parece perturbá-lo. Não se trata de um simples traçado, mas de uma imitação livremente inspirada na sedução que uma linha curva sinuosa exerce sobre quem a vê. O desenho que começa a surgir na folha é peculiar: uma espécie de mesa oblíqua formada pelo entrelaçamento de numerosas linhas muito leves. Na superfície, um vaso redondo; abaixo, uma roda cheia de segmentos amorfos. Se não estivesse sozinho, o menino seria interrompido por sua mãe, chamando-o para comer; por seu pai, fazendo perguntas bobas sobre o significado do desenho em vez de perceber a beleza das linhas curvas e das linhas retas; ou por sua irmã menor, que poderia, só de pirraça, rasgar a página. Mas ele estava sozinho, desenhando em uma folha de papel as figuras que viu num livro aberto. Ele se concentrou em seu mister e só o interrompeu quando ficou escuro. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de leite. Quando voltou ao quarto, por mais que procurasse, não encontrou a folha de papel. A mesa, a roda e o vaso estavam lá, na página aberta do livro, mas não a folha branca com o desenho que ele criara. Esse jamais reapareceria. O vaso, porém, perguntou-lhe se ele havia jantado; a mesa o abraçou, beijou-o e depois o carregou para a cama; a roda chorou a noite toda, mantendo-o acordado. No dia seguinte, a vida continuou dando voltas, como de costume.

  • O BALÃO E O MENINO

    Esta é a história de um menino. Não sei o seu nome. Entre tantos meninos que vivem nas ruas, embrulhados pela fumaça dos carros, continuam caminhando.

    Um menino, um sonho e algumas palavras.

    Esse menino sonhava com um balão, mas não um balão qualquer, um balão comum. Um balão que revelasse o tamanho do mundo, que mostrasse, do alto das nuvens, a paisagem perfeita. E tudo poderia ver e sentir e imaginar.

    Um balão que levasse toda a tristeza embora.

    Balão no céu, balão no ar. Céu azul, céu quase azul. Confundindo-se com o mar…

    Sonhava o menino com fúria, com vontade e se achava solto no tempo, voando atrás do balão, atravessando o céu.

    Grito estridente de um vendedor ambulante, buzinas ecoam… Com esforço e movimentos repetidos, o menino manobrava a carroça de papel para não ser atropelado. Tudo o que tinha era uma carroça que carregava todos os dias: papel, papelão, papelote. Assim era a vida. Muitos papéis. A vida inteira.

    Uma senhora de expressão fechada e casaco marrom reclama com o policial.

    Um carro passa.

    Pessoas passam.

    A vida passa.

    O menino sonha com um balão, mas não um balão qualquer. Nunca o deixaria. O sonho era maior que tudo. Os outros meninos estavam ocupados com o cheiro ácido das colas e com as bolsas de couro das madames.

    Ele não.

    O gosto pelo balão se mostrava maior que suas próprias forças…

    Carroça, mãos que apanham o papel sujo e amassado. Papel, papelote, papelão. Muitos papéis. Muitas palavras que não dava pra ler direito. Letras grandes e pequenas. Papel amassado. Rostos jovens e bonitos. Balão. Céu.

    Vagava o menino.

    Vagava.

    Passava pelas ruas estreitas, pelas ladeiras, atrás de papel.

    Passava pelas ruas estreitas, pelas ladeiras, atrás do balão. Queria-o tanto.

    Seus olhos imaginavam já a terra dos sonhos, a terra do fogo, a terra luminosa dos raios de sol. Nunca tinha visto raios mais dourados. A terra de flores coloridas, montes verdes e céu azul. O balão subia, subia mais alto, mais alto… E mais… Longe estava, bem longe ia. Não percebeu o carro… O balão mais alto subia, mais e mais. Não viu o carro. O céu se tornou amarelo e depois vermelho, um vermelho intenso, o sangue brotava mais e mais.

    As pessoas se aglomeraram ao redor do pequeno corpo…

    No entanto, o balão continuava subindo, cada vez mais alto.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar