Metacrítica

  • Metacrítica

    Como uma sugestão literária pode desencadear reflexões íntimas

    A taça agora reflete um leve nuance púrpuro, apenas; eu, nesta fria estadia serrana, pretendia perder-me entre os dois novos volumes machadianos, ou, quem sabe, afogar-me nos sentimentos mais belos e tristes que só um romance épico da literatura infanto-juvenil de Budapeste apresenta-nos. Mas é fim de setembro, principia o inverno e a neve não virá, como sempre. Minhas mãos voltam-se para as teclas do computador, são obrigações da vida adulta que por ora me prendem a esta tela. Entre análises gráficas, e-mails e discussões acadêmicas, presenteio-me com a possibilidade de libertar meu eu lírico em pequenas doses de literatura singela. Crio, pois, meu próprio grund, dentro de um edifício que talvez já tenha tido seu espaço defendido por heróicos meninos do antigo primário. Sinto-me resfriada, e a dúvida oscila entre a mudança de temperatura e banhos frios em águas inimigas. E ponho-me a chorar, silenciosamente, pela morte de um grande soldado raso (agora capitão). E ponho-me a gritar interiormente pela vitória de um espaço que perderei em breve. E ponho-me a pensar em todas as injustiças que acontecem ao meu redor. E sinto, pois, que crescer é deveras dolorido, mas que, por fim, minha infância não foi só um belo conto-de-fadas.

    Ao fundo, nenhum acorde ousa quebrar este silêncio honrado. Nenhuma cor sobressai perante o cinza nostálgico dos meus dias de “Os Meninos da Rua Paulo”. Só o vinho do liquido aventura-se a atravessar a garganta, amolecendo o peito e aquecendo o corpo contra os graus fajutos que lá fora brincam com o vento cortante.

    Eis a história que não podem deixar de ler. Bia Mies indica “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mónar, reeditado recentemente pela editora Cosac Naify.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar