Mundos Paralelos

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    As pessoas se levantam cedo, tomam seu café e vão trabalhar.

    Trabalhos variados, perto de onde moram ou longe talvez; trabalhos fáceis, difíceis e até penosos.

    Existe um ditado muito popular que diz: “O trabalho dignifica o homem.”

    Não sei ao certo quem primeiro disse isso. A frase atravessou o tempo, ganhou força, repetição e certo prestígio moral. Embora, em alguns momentos, também pareça servir para romantizar excessos e medir a dignidade humana apenas pela produtividade.

    Mas não é exatamente sobre esse trabalhador que penso agora. Nem sobre o trabalho honesto que sustenta famílias, constrói empresas, alimenta sonhos e atravessa gerações.

    Penso nos trabalhadores do mal.

    Os que aplicam golpes, criam perfis falsos de vendas, driblam mecanismos sofisticados de bancos e enganam pessoas.

    Eles também acordam cedo, tomam café e vão para os seus trabalhos.

    Como são essas pessoas que se afastam da verdade, se dispersam nas próprias paixões e, com impressionante naturalidade, executam diariamente os seus ofícios?

    Elas são aparentemente comuns.
    Dessas pessoas que passam por nós na padaria, reclamam do calor, aguardam atendimento em consultórios e perguntam o preço do tomate na feira. Talvez conversem sobre futebol, tenham dores na coluna, paguem boletos atrasados e levem os filhos à escola antes de começar o expediente.

    O expediente.

    Essa talvez seja a parte que mais me inquieta.
    Porque o mal, quando imaginado, costuma surgir grandioso, quase teatral. Entretanto, a vida real parece preferir os gestos pequenos, repetidos e discretos. Há pessoas que organizam cuidadosamente o próprio dia para enganar desconhecidos. Criam métodos, estudam abordagens, aperfeiçoam narrativas. Aprendem a falar com delicadeza, a parecer confiáveis, a reconhecer solidão, ingenuidade, carência ou desespero do outro lado da tela.

    Existe quase um profissionalismo nisso.

    E essa constatação produz um desconforto difícil de explicar.
    Não falo aqui do criminoso impulsivo, do rompante de raiva ou do erro desesperado. Penso nos que transformam o engano em rotina. Nos que acordam já sabendo exatamente quantas pessoas tentarão lesar naquele dia, como quem estabelece metas silenciosas para si mesmo.

    Será que sentem culpa?

    Ou será que a consciência humana possui uma espantosa capacidade de adaptação?
    Talvez ninguém acorde, de repente, completamente deformado. Imagino que exista um caminho lento. Pequenas concessões interiores. Uma mentira tolerada hoje, uma vantagem injusta amanhã, até que a própria consciência passe a funcionar de maneira diferente, como um relógio que continua marcando as horas, embora já esteja desregulado.

    E então o absurdo se normaliza.

    O sujeito toma café, responde mensagens, organiza contatos, liga o computador e vai trabalhar.

    Trabalhar no erro.

    Curioso como até o mal exige disciplina. Alguns desses homens talvez sejam pontuais, organizados e persistentes. Talvez façam pausas para almoço, conversem sobre assuntos banais e encerrem o expediente cansados, com a sensação íntima de “mais um dia cumprido”.

    Isso me causa um espanto silencioso.
    Porque, no fundo, não é difícil compreender grandes monstros históricos. O horror explícito se apresenta sozinho. Difícil mesmo é compreender o homem comum que aprendeu a conviver pacificamente com a própria fraude.

    Talvez o mais assustador nos trabalhadores do mal seja justamente isso: eles não parecem habitar um mundo separado do nosso. O que nos separa é a verdade deformada em que eles vivem.

    No mesmo mundo.

    🌷
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