Música

  • Trilhas da Minha Vida – parte 3/5

    Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 3ª parte:

    Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    41) PULP FICTION (Quentin Tarantino), 1994

    Tarantino divide os críticos. Menos quando se trata das trilhas sonoras, quando a opinião unânime é que o diretor não dá bola fora. PULP FICTION é não apenas seu mais badalado filme, como o que possui a trilha mais arrojada. Além da sacada de ressuscitar empoeirados clássicos da surf music, realizou a proeza de transformar em sucesso uma antiga canção de Neil Diamond interpretada por Urge Overkill (GIRL YOU’LL BE A WOMAN SOUL). Tarantino tem por hábito garimpar músicas antigas esquecidas para servir como pano de fundo a suas películas. Teve por mérito permitir ao lendário Ennio Morricone faturar seu único Oscar pela trilha de OS OITO ODIADOS.

    42) SUPLÍCIO DE UMA SAUDADE (Henry King), 1955

    Alfred Newman foi um verdadeiro colecionador de Oscars, tendo composto para mais de 200 filmes. Sua parceria com o diretor Henry King foi das mais profícuas dos anos de ouro de Hollywood. Dentre as trilhas mais marcantes de Newman, destacam-se A MALVADA (ALL ABOUT EVE), O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, COMO ERA VERDE O MEU VALE, CANÇÃO DE BERNARDETTE, AEROPORTO e a arrebatadora LOVE IS A MANY SPLENDORED THING, cujo tema (de autoria da dupla Fain/Webster) foi gravado por uma pá de artistas (Andy Williams, Matt Monro, Bing Crosby, Nat King Cole, Shirley Bassey, Frank Sinatra etc.) e até suplantou o sucesso do filme.

    43) ALÉM DA IMAGINAÇÃO (Rod Serling), 1959

    A série televisiva TWILIGHT ZONE que reúne elementos de ficção científica, fantasia e terror, criada e apresentada por Rod Serling, alcançou sucesso sem precedentes no período 1959 a 1964 com 5 temporadas, originando três revivals que não repetiram o êxito, além de um longo produzido por Steven Spielberg. Apesar de a primeira temporada receber trilha do celebrado Bernard Herrmann que trabalhou em diversas películas do mestre Hitchcock, o tema que ‘emplacou’ foi o que abriu a segunda temporada e as 3 seguintes, de autoria de Marius Constant com sons dissonantes que criam uma atmosfera perturbadora. 

    44) ZORBA O GREGO (Michael Cacoyannis), 1964

    A trilha do filme greco-americano, estrelado por Anthony Quinn, Alan Bates e Irene Papas, composta por Mikis Theodorakis, fez bastante sucesso, sobretudo o envolvente tema instrumental, ZORBA´S DANCE, utilizado para acompanhar a dança tradicional grega. Mikis, conhecido por seu engajamento em causas sociais, compôs também a trilha de SERPICO de Sidney Lumet e duas obras primas do cinema político de Costa Gavras, Z e ESTADO DE SÍTIO.

    45) O PIANO (Jane Campion), 1993

    O drama neozelandês transcorrido no século XIX e protagonizado por Holly Hunter e Harvey Keitel gira em torno da paixão de uma mulher muda desde a infância por seu piano, do qual se viu privada, ao iniciar vida em companhia do novo marido numa terra estranha. Com ele, a diretora Jane Campion consagrou-se como a primeira mulher a ganhar a Palma de Ouro de Cannes. A belíssima trilha ajudou a popularizar seu autor, o prestigiado pianista e compositor minimalista Michael Nyman. É dele também a trilha do instigante O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E A AMANTE do diretor Peter Greenaway.

    46) O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Bernardo Bertolucci), 1972

    Bertolucci foi um dos maiores diretores de todos os tempos com inúmeras obras primas. Várias de suas trilhas se destacam, como a de 1900, composta por Ennio Morricone, O CÉU QUE NOS PROTEGE, O PEQUENO BUDA e O ÚLTIMO IMPERADOR, as 3 de Ryuichi Sakamoto, além de OS SONHADORES e BELEZA ROUBADA que apresentam um bem selecionado painel de temas pop. O ÚLTIMO TANGO EM PARIS foi um filme que provocou polêmica pelo conteúdo sexual explícito (em especial a insólita cena da manteiga como lubrificante), contracenado por Marlon Brando e Maria Schneider. Controvérsias à parte, a trilha sonora, composta pelo saxofonista argentino Gato Barbieri se sobressai, em especial o tema principal, um dos mais belos e pungentes do cinema.

    47) ROUND MIDNIGHT (Bertrand Tavernier), 1986

    O saxofonista Dexter Gordon surpreendeu por sua atuação nessa película do diretor francês, concorrendo ao Oscar como ator. A trilha sonora (vencedora da estatueta) homenageia os anos dourados do jazz reunindo cobras como Herbie Hancock, Ron Carter (que também atuaram no filme), Bobby McFerrin, John McLaughlin, Chet Baker, Freddie Hubbard e Wayne Shorter, dentre outros. Uma celebração ao nobre gênero musical. A canção que dá nome à película, composição de Thelonious Monk, é um dos principais clássicos do gênero, tendo recebido dezenas de gravações.

    48) O EXORCISTA (William Friedkin), 1973

    Friedkin foi laureado com 5 Oscars (incluindo filme e direção) por OPERAÇÃO FRANÇA que teve trilha composta pelo trompetista Don Ellis. Em O EXORCISTA, um dos mais horripilantes filmes de terror de todos os tempos, Friedkin rejeitou a composição de Lalo Schifrin feita de encomenda, acabando por utilizar alguns temas clássicos contemporâneos. Além disso, lançou mão de trechos do já consagrado álbum TUBULAR BELLS do multi-instrumentista Mike Oldfield (expoente do rock progressivo) que, embora não tenha sido elaborado com essa finalidade, acabou associado à película. O diretor considerou a atmosfera densa e repetitiva do álbum (em que Mike executa todos os instrumentos) apropriada para o tom sombrio imprimido ao filme, sendo utilizada a faixa GEORGETOWN como tema principal  

    49) MANHATTAN (Woody Allen), 1979

    Woody Allen sempre foi apaixonado pelo som dos anos de ouro de New Orleans e pelos clássicos dos anos 20/30. As trilhas sonoras de seus filmes refletem suas preferências musicais. Em MANHATTAN, filmado em preto e branco, em que atua ao lado de Diane Keaton e Meryl Streep, podemos encontrar os principais chavões que caracterizam suas comédias cerebrais. A ideia do filme surgiu a partir de uma canção de Gershwin (assim como Allen, um apaixonado por NY). Todas as canções da trilha sonora são do compositor norte-americano e executadas pela Filarmônica de Nova York sob a regência de Zubin Mehta, com destaque para as conhecidíssimas RHAPSODY IN BLUE e EMBRACEABLE YOU. Outro filme famoso com músicas de Gershwin é AN AMERICAN IN PARIS de Vincente Minnelli.

    50) BEN-HUR (William Wyler), 1959

    O compositor húngaro Miklós Rósza tornou-se conhecido por suas trilhas orquestrais de filmes épicos e bíblicos como BEN-HUR, EL CID, QUO VADIS, O REI DOS REIS, EL CID e JULIUS CAESAR, tendo influenciado fortemente John Williams. Indicado para 17 Oscars, faturou 3, incluindo BEN-HUR, personagem vivido por Charlton Heston, filme grandioso, um dos mais custosos da história, até então. São de Miklós também QUANDO FALA O CORAÇÃO de Hitchcock, UMA VIDA DUPLA de George Cukor (pelos quais também faturou Oscars), PACTO DE SANGUE e FARRAPO HUMANO, ambos de Billy Wilder, dentre outros.

    51) BETTY BLUE (Jean Jacque Beineix), 1985

    A carreira do celebrado compositor e pianista libanês Gabriel Yared (que chegou a morar no Brasil no início dos anos 70), deslanchou quando ele se dedicou à execução de trilhas para o cinema francês como CAMILLE CLAUDEL e SALVE-SE QUEM PUDER (Jean Luc Godard). Foi laureado com o Oscar pela trilha sonora do filme O PACIENTE INGLÊS de Anthony Minghella. Desse mesmo cineasta britânico, assinou as trilhas de COLD MOUNTAIN e O TALENTOSO RIPLEY, além de CIDADE DOS ANJOS. A película francesa 37º2 LE MATIN (que no Brasil recebeu o título de BETTY BLUE) teve uma trilha sonora que acabou se tornando mais badalada que o próprio filme.

    52) FOME DE VIVER (Tony Scott), 1983

    Primeiro filme dirigido pelo irmão mais novo de Ridley Scott, que depois se especializaria em filmes de ação como TOP GUN (que lançou Tom Cruise ao estrelato), CHAMAS DE VINGANGA, INIMIGOS DE ESTADO e DIAS DE TROVÃO. Estrelado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon FOME DE VIVER (THE HUNGER) é um filme sobre vampirismo. Tornou-se cult por sua estética gótica, atmosfera sensual, abordagem sexual e pela trilha sonora que expôs como tema de abertura a canção BELA LUGOSI’S DEAD com o grupo Bauhaus, de 9 minutos de duração, que se tornou uma espécie de hino gótico com seus efeitos fantasmagóricos alucinantes.

    53) AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES (Werner Herzog), 1972

    Werner Herzog sempre foi um diretor obscuro cultuado por um grupo restrito de cinéfilos. Logicamente, as trilhas de seus filmes refletiam essa condição. Assim como ocorreu com o ator Klaus Klinki, o conjunto alemão Popol Vuh (capitaneado pelo tecladista Florian Fricke) foi colaborador recorrente do cineasta alemão. Assinou diversas trilhas, como as de FITZCARRALDO e NOSFERATU, conferindo às trilhas um clima onírico, combinando as viagens eletrônicas de grupos como o Kraftwerk e o Tangerine Dream com influências místicas e orientais e, no caso do filme em questão, andinas.

    54) INTERESTELAR (Christopher Nolan), 2014

    O diretor britânico Christopher Nolan tem uma parceria bem sucedida com Hans Zimmer que compôs algumas de suas trilhas mais icônicas como as de BATMAN BEGINS, BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS, A ORIGEM e INTERESTELAR. Esse último, com um elenco (inter)estelar, liderado por Matthew McConaghey, é um épico de ficção científica ambientado num futuro distópico em que a Terra está ameaçada de extinção pela fome e catástrofes naturais. A trilha minimalista com o uso de órgão de tubos alterna suavidade e silêncio com momentos grandiosos. Zimmer musicou outras trilhas famosas como as de GLADIADOR, REI LEÃO, O ÚLTIMO SAMURAI e MELHOR É IMPOSSÍVEL.

    55) ALTA SOCIEDADE (Charles Walters), 1956

    Dispensável falar da importância de Cole Porter para a cultura norte-americana. Celebrados pelos principais nomes da música, seus standards tornaram-se presença obrigatória em qualquer compilação representativa da era de ouro do jazz. Sem falar dos inúmeros espetáculos da Broadway, muitos transpostos para a tela. Filmes como CAN CAN, KISS ME KATE e O PIRATA trazem a marca de Porter. HIGH SOCIETY, do diretor de musicais Charles Walters (o mesmo de EASTER PARADE) traz Bing Crosby, Frank Sinatra e Grace Kelly (seu último papel antes de se tornar princesa), e a presença marcante de Louis Armstrong e banda executando HIGH SOCIETY CALYPSO. Além de TRUE LOVE com Crosby e Grace, último grande sucesso do compositor.

    56) IMENSIDÃO AZUL (Luc Besson), 1988

    Éric Serra colaborou com o diretor francês Besson em diversas películas como O PROFISSIONAL, NIKITA e O QUINTO ELEMENTO. Em IMENSIDÂO AZUL (THE BIG BLUE), filme que trata da rivalidade esportiva entre dois mergulhadores que competem para obter maior profundidade no mar, procurou transferir para a música a sonoridade etérea do vasto oceano, misturando sons naturais com melodias suaves e elementos eletrônicos, com destaque para a faixa de abertura. Serra foi convocado também para compor a trilha de 007 CONTRA GOLDENEYE com Pierce Brosnan no papel de James Bond.

    57) TRAINSPOTTING (Danny Boyle), 1996

    O diretor de YESTERDAY (regravações de temas dos Beatles) e do premiado QUEM QUER SER UM MÍLIONÁRIO? (com canções indianas), já chamava a atenção dos cinéfilos desde os desconcertantes COVA RASA e TRAINSPOTTING, ambos com Ewan McGregor. Esse último retrata sem retoques o mundo das drogas em Edimburgo nos anos 80. A trilha tornou-se ainda mais cultuada que o filme, reunindo a nata da canção pop inglesa e americana da época: Lou Reed, Brian Eno, Iggy Pop, Blur, Primal Scream, New Order, destacando-se BORN UNSLEEPY com o grupo Underworld (que se tornou um hino rave).

    58) TITANIC (James Cameron), 1997

    O cineasta canadense James Cameron é o segundo com maior bilheteria (atrás apenas de Steven Spielberg). Duas de suas megaproduções receberam trilhas de James Horner, AVATAR e TITANIC. Esta última rendeu a Horner um Oscar, além de obter um enorme sucesso comercial com o álbum, um dos campeões de vendas de todos os tempos, em grande parte puxado pela canção tema (também de sua autoria em parceria), MY HEART WILL GO ON interpretada por Céline Dion, igualmente laureada pela Academia. Horner musicou ainda os filmes ALIENS, O RESGATE (também de Cameron), O HOMEM BICENTENÁRIO, CORAÇÃO SELVAGEM. APOLLO 13, COCOON, CAMPO DE SONHOS, JUMANJI, O NOME DA ROSA e DOSSIÊ PELICANO

    59) OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (Tim Robbins), 1995

    Tim Robbins é conhecido como ator (como no aclamado UM SONHO DE LIBERDADE). Aqui exercita seus dotes de diretor (além de roteirista e produtor) num filme que retrata um prisioneiro condenado à morte (representado por Sean Penn), sendo confortado em seus momentos finais por uma freira (Susan Sarandon, que faturou o Oscar), estabelecendo-se entre os dois uma relação intensa e debates sobre justiça, perdão e responsabilidade. A memorável trilha sonora inclui artistas pop de renome como Bruce Springsteen, Patti Smith, Tom Waits e Suzanne Vega. Mas o ponto alto são duas faixas cantadas em dueto por Eddie Vedder, vocalista do Peal Jam, com o cantor paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan que, a partir daí, ganhou visibilidade no Ocidente.

    60) DO FUNDO DO CORAÇÃO (Francis Ford Coppola), 1982

    O maior fracasso comercial da filmografia do cultuado diretor da trilogia O PODEROSO CHEFÃO talvez seja paradoxalmente o que tenha uma das trilhas mais cativantes, a cargo de Tom Waits. Não obstante Waits seja um músico cult, seu vínculo com o cinema fica mais por conta de suas atuações como ator coadjuvante, sobretudo em filmes de Jim Jarmush (DOWN BY LAW, COFFEE AND CIGARETTES) e do próprio Coppola (SELVAGEM DE MOTOCICLETA, VIDAS SEM RUMO, DRÁCULA DE BRAM STOKER). Em ONE FROM THE HEART, no entanto, brilha como compositor (sendo o autor das 12 faixas que integram o álbum) e como cantor, fazendo dupla com Crystal Gayle, convertida do country para o jazz romântico.

  • Trilhas da Minha Vida – parte 2/5

    Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    21) CASABLANCA (Michael Curtiz), 1942

    Impossível não associar o cultuado drama ambientado durante a II Guerra a AS TIME GOES BY, uma das canções mais marcantes do cinema que, tocada ao piano num bar, faz com que o galã Humphrey Bogart se recorde de seu antigo amor, Ingrid Bergman. Curiosamente, o aclamado tema é de 10 anos antes, não tendo sido composto para o filme, cuja trilha sonora pertence a Max Steiner que o utilizou habilmente. O austríaco Steiner é um dos maiores compositores de Hollywood, assinando mais de 300 trilhas com 24 indicações ao Oscar, destacando-se outro clássico, E O VENTO LEVOU (1939), além do primeiro (e melhor) King Kong, o de 1933.

    22) DIAMANTES SÃO ETERNOS (Guy Hamilton), 1971

    Não se pode deixar de mencionar as diversas trilhas da franquia 007. Injusto ressaltar uma dentre elas, já que muitas foram marcantes, em especial aquelas compostas por John Barry (também um dos autores do famoso tema de James Bond). Cada novo filme revelou uma canção principal com algum intérprete renomado: Paul McCartney (LIVE AND LET DIE), Carly Simon (NOBODY DOES IT BETTER), Matt Monro (FROM RUSSIA WITH LOVE), Louis Armstrong (WE HAVE ALL THE TIME IN THE WORLD), Tom Jones (THUNDERBALL), Duran Duran (A VIEW TO A KILL), Nancy Sinatra (YOU ONLY LIVE TWICE), Sheena Easton (FOR YOUR EYES ONLY), Adele (SKYFALL) etc. Mas a coroa vai para Shirley Bassey, agraciada com 3 temas (GOLDFINGER, DIAMONDS ARE FOREVER e MOONRAKER).

    23) LUZES DA CIDADE (Charles Chaplin), 1931

    Nesse clássico que combina comédia e drama, Carlitos desempenha um vagabundo que sustenta uma florista cega que, ao voltar a enxergar, não consegue esconder a frustração ao reconhecer seu maltrapilho benfeitor. Não bastasse ser diretor, produtor, roteirista e ator principal, Chaplin ainda compôs a bela trilha sonora. Em se tratando de um filme mudo, a música desempenha papel primordial traduzindo as emoções dos personagens. É utilizada também a espanhola VIOLETERA como tema da florista. Deve-se ressaltar que Chaplin compôs outras duas pérolas: THIS IS MY SONG (sucesso na voz de Petula Clark) para o filme CONDESSA DE HONG KONG, além da célebre SMILE (filme TEMPOS MODERNOS), regravada por Nat King Cole, Michael Jackson, Judy Garland, Barbra Streisand e Lady Gaga, dentre tantos.

    24)  OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (John Badham), 1977

    Na década de 60, os Bee Gees eram tidos como um trio de soft rock que alcançou sucesso com canções singelas como MASSACHUSETTS e I STARTED THE JOKE. Pegando carona na onda ‘disco’, os irmãos Gibb emplacaram uma das mais bem sucedidas trilhas, SATURDAY NIGHT FEVER com canções como STAYIN’ ALIVE, HOW DEEP IS YOUR LOVE, YOU SHOULD BE DANCING e NIGHT FEVER com John Travolta arrepiando na pista. De quebra, outros grupos representativos dos anos 70: Kool & the Gang, KC & Sunshine Band e Tavares.

    25) UM HOMEM, UMA MULHER (Claude Lelouch), 1966

    Esse drama romântico de Lelouch, vencedor da Palma de Ouro de Cannes e do Oscar de filme estrangeiro, que consolidou a importância do diretor francês no contexto internacional, deve seu sucesso em grande parte à maravilhosa trilha de Francis Lai. Aliás, a parceria entre Lelouch e Lai estendeu-se para outros filmes do diretor, como VIVER POR VIVER, UM BOM ANO etc. Outra trilha icônica de Lai, que lhe valeu um Oscar, é a do blockbuster americano LOVE STORY de 1970. O tema instrumental de Lai, THEME FROM LOVE STORY, lançado em single por Henry Mancini, alcançou grande êxito comercial. Quando lhe foi adicionada uma letra, sendo rebatizado como WHERE DO I BEGIN?, voltou repetidamente às paradas nas vozes de Andy Williams, Tony Bennett e Shirley Bassey.

    26) SE MEU APARTAMENTO FALASSE (Billy Wilder), 1960

    Billy Wilder é um dos mais respeitados diretores do cinema com obras primas inesquecíveis como CREPÚSCULO DOS DEUSES, PACTO DE SANGUE, FARRAPO HUMANO e SABRINA, versão com Humphrey Bogart e Audrey Hepburn. A que tem a trilha mais conhecida – composta por Adolf Deutsch – é provavelmente THE APARTMENT com Jack Lemmon e Shirley MacLaine, destacando-se a canção JEALOUS LOVER. Deutsch musicou também outra comédia de Wilder, QUANTO MAIS QUENTE MELHOR além de RELÍQUIA MACABRA (de John Huston) e o musical SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS (Stanley Donen).

    27) ORFEU NEGRO (Marcel Camus), 1959

    Apesar de o enredo (baseado na mitologia grega) ter transcorrido no Rio de Janeiro durante o Carnaval, com elenco de atores brasileiros, os méritos ficaram com a França do diretor Camus, nos grandes festivais em que concorreu, por aquele país ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes. A trilha sonora, de autoria de Tom Jobim (em colaboração com Vinícius) e do violonista Luiz Bonfá, que compôs os temas MANHÃ DE CARNAVAL (interpretado por Agostinho dos Santos) e SAMBA DE ORFEU (ambos em parceria com Antônio Maria) marca o início da explosão da bossa nova. MANHÃ DE CARNAVAL consolidou-se como uma das músicas brasileiras mais conhecidas no exterior com versões de Sinatra, Sarah Vaughan, Nina Simone, Stan Getz, Paul Desmond, Quincy Jones etc.

    28) THE BLUES BROTHERS (John Landis), 1980

    A simpática comédia musical estrelada por John Belushi e Dan Aykroyd, por aqui recebendo o título de OS IRMÃOS CARA-DE-PAU, teve uma das ‘soundtracks’ mais bem sucedidas de todos os tempos. Boa parte das músicas (clássicos de blues, soul e R&B, inclusive uma versão de PETER GUNN de Henry Mancini) foi executada pela própria dupla, algumas ao lado de astros de primeira linha que participaram pessoalmente da trama como Ray Charles, Aretha Franklin, James Brown e Cab Calloway. Houve uma continuação, BLUES BROTHERS 2000, que, apesar da boa seleção musical, não vingou.

    29) FALE COM ELA (Pedro Almodóvar), 2002

    Preferido de Almodóvar, Alberto Iglesias compôs diversas trilhas para o cineasta espanhol como VOLVER, MÁ EDUCAÇÃO e TUDO SOBRE MINHA MÃE. A mais bela e pungente talvez tenha sido HABLE CON ELLA que abre espaço para temas da MPB com Elis Regina interpretando POR TODA A MINHA VIDA (Tom & Vinícius) e Caetano Veloso com CUCURRUCUCÚ PALOMA que aparece em pessoa cantando  a pérola do folclore mexicano, faixa do álbum FINA ESTAMPA AO VIVO. Iglesias musicou outros filmes como LÚCIA E O SEXO, CHE, O CAÇADOR DE PIPAS e O JARDINEIRO FIEL, este dirigido por Fernando Meirelles.

    30)  MY FAIR LADY (George Cukor), 1964

    Baseada no megassucesso do musical da Broadway, a comédia estrelada por Audrey Hepburn e Rex Harrison arrebatou 8 Oscars incluindo o de trilha sonora com a memorável I COULD HAVE DANCED ALL NIGHT interpretada pela própria atriz. A trilha foi composta e supervisionada pelo maestro e pianista André Previn, outro colecionador de indicações às estatuetas, tendo faturado mais três: GIGI, PORGY AND BESS e IRMA LA DOUCE, sempre fundindo pop com jazz e música clássica. Cukor foi também o diretor da mais famosa versão de NASCE UMA ESTRELA (1954) com Judy Garland e canções da dupla Arlen/Gershwin.

    31)  EASY RIDER, SEM DESTINO (Dennis Hopper), 1969

    O celebrado ‘road movie’ protagonizado por Peter Fonda (que também o produziu) e Dennis Hopper (que também o dirigiu) marcou o surgimento da geração beat com uma trilha sonora pertinente que traz The Jimi Hendrix Experience e The Byrds (com seu líder Roger McGuinn em duas faixas solo). Mas a canção que marcou realmente foi o hino libertário BORN TO BE WILD (que passou a ser também o hino dos motociclistas) interpretada pelo grupo Steppenwolf que a lançara em seu álbum de estreia um ano antes. À icônica canção é atribuída a origem do termo ‘heavy metal’, contido em um de seus versos.

    32)  CANTANDO NA CHUVA (Stanley Donen), 1952

    A cena começa com Gene Kelly deixando Debbie Reynolds em casa e termina com ele entregando o guarda-chuva a um necessitado, sob o olhar repreensivo de um guarda. Esses 4 antológicos minutos bastaram para credenciar SINGIN’ IN THE RAIN como um dos musicais mais famosos do cinema. O curioso é que quase nenhuma das músicas da dupla Freed/Brown que tocam no musical foi feita para o filme, tendo sido oriundas de outros espetáculos da MGM, inclusive a que dá título à película, composta em 1929, época em que não havia quase filmes falados, inspirando o diretor Donen que popularizou a canção.

    33)  MISSÃO IMPOSSÍVEL (Bruce Geller), 1966

    Não estamos nos referindo à franquia estrelada por Tom Cruise com diversos longas metragens de ação iniciada em 1996, mas ao bem sucedido seriado para a TV em que ela se baseou, criado e produzido por Bruce Geller que foi ao ar entre 1966 e 1973 em 7 temporadas. O famosíssimo tema musical (reaproveitado na versão cinematográfica) marca o ponto alto da carreira de Lalo Schifrin. O maestro, músico e arranjador argentino trabalhou com diretores de renome, como Peter Yates (BULLITT com Steve McQueen) e Don Siegel (DIRTY HARRY com Clint Eastwood), além das trilhas de OPERAÇÃO DRAGÃO (Bruce Lee), A HORA DO RUSH (Jackie Chan) e TERROR EM AMITYVILLE dentre tantas.

    34)  VELUDO AZUL (David Lynch), 1986

    Angelo Badalamenti foi o compositor preferido de David Lynch, compondo 4 trilhas de destaque: TWIN PEAKS, CIDADE DOS SONHOS, ESTRADA PERDIDA e BLUE VELVET. Nessa última, a canção tema, mega-sucesso do cantor Bobby Vinton (interpretada no filme pela atriz Isabella Rossellini) inspirou o título. Roy Orbison também comparece com IN DREAMS, reforçando o clima pop vintage, justaposto por uma partitura orquestral conduzida por Badalamenti, tendo como referência o compositor clássico Shostakovich. A combinação desses elementos tão díspares criou um clima perfeito para o perturbador enredo com características neo-noir.

    35)  O PICOLINO (Mark Sandrich), 1935

    Russo de nascimento, Irving Berlin foi indiscutivelmente um dos mais profícuos compositores da história, com inúmeras canções que se tornaram clássicos do cancioneiro americano. Dentre as trilhas mais famosas, O PICOLINO (TOP HAT) com a inesquecível CHEEK TO CHEEK em que Fred Astaire exibe suas habilidades vocais e de sapateado acompanhado de Ginger Rogers. Outros filmes que contaram com composições de Berlin são BLUE SKIES, EASTER PARADE (DESFILE DE PÁSCOA) e HOLIDAY INN que revelou WHITE CHRISTMAS imortalizada por Bing Crosby, referenciado como o single mais vendido de todos os tempos, com 50 milhões de cópias.

    36) FURYO (Nagisa Oshima), 1983

    A produção nipônica de guerra estrelada por David Bowie ganhou uma bastante pertinente trilha assinada por Ryuichi Sakamoto, combinando composição sinfônica ocidental com sons tradicionais do extremo oriente e um toque de música eletrônica. O conhecido tema instrumental ganhou uma maravilhosa versão vocal de David Sylvian do grupo Japan (que de japonês só tem o nome). Sakamoto viria também a compor para três filmes de Bernardo Bertolucci, O CÉU QUE NOS PROTEGE, O PEQUENO BUDA e O ÚLTIMO IMPERADOR (ganhando o Oscar por esse último).  Compôs também para OLHOS DE SERPENTE (Brian de Palma) e DE SALTO ALTO (Almodóvar). O diretor Oshima é o mesmo do arrojado IMPÉRIO DOS SENTIDOS, filme que desafiou os padrões de censura com suas cenas de sexo explícito.

    37) ADEUS ÀS ILUSÕES (Vincente Minnelli), 1965

    Nesse filme rodado na costa da Califórnia, o casal Richard Burton & Elizabeth Taylor protagonizou um tórrido romance proibido que desafiou as convenções moralistas da época. Apesar das críticas mornas e do desempenho comercial sofrível, o filme teve o mérito de revelar THE SHADOW OF YOUR SMILE (também conhecida como LOVE THEME FROM SANDPIPER), composição de Johnny Mandel, que, não apenas ganhou o Oscar de melhor canção, como foi, devido à sua melodia refinada, uma das preferidas por intérpretes ligados ao jazz, com incontáveis gravações: Tony Bennett, Andy Williams, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Astrud Gilberto, Stevie Wonder, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, George Benson, Gerry Mulligan, Bill Evans etc.

    38)  HAIR (Milos Forman), 1979

    O diretor e roteirista tcheco Milos Forman é um dos mais respeitados do cinema, com diversos filmes premiados como UM ESTRANHO NO NINHO, AMADEUS, HAIR e O POVO CONTRA LARRY FLYNT, dos quais, HAIR, recheado de hinos hippies é o que dispõe da trilha sonora mais conhecida. A ópera-rock antibelicista, baseada no musical homônimo da Broadway de 1968, captou o clima da contracultura e da rejeição à guerra do Vietnã. O álbum vendeu milhões de cópias revelando canções como AQUARIUS/LET THE SUNSHINE IN (imortalizada pelo grupo 5th Dimension) e GOOD MORNING STARSHINE (hit do cantor Oliver). Por sua vez, a trilha de AMADEUS com músicas de Mozart regidas por Neville Marriner ajudou a popularizar o músico erudito.

    39) O SENHOR DOS ANÉIS (Peter Jackson), 2001

    A quantidade de trilhas assinadas por Howard Shore impressiona. Musicou quase todos os filmes de Cronenberg (A MOSCA, VIDEODROME, SCANNERS, MARCAS DA VIOLÊNCIA) e diversos de Scorsese (O AVIADOR, OS INFILTRADOS, GANGUES DE NOVA YORK, AFTER HOURS), além de O SILÊNCIO DOS INOCENTES, SEVEN dentre tantas. Mas, indubitavelmente, suas trilhas mais conhecidas são as das trilogias O SENHOR DOS ANÉIS e O HOBBIT dirigidas por Peter Jackson com base na literatura fantástica de J R R Tolkien. A grandiosidade da tarefa de Howard é notável, empenhando uma orquestra com uma quantidade absurda de músicos e instrumentos. Como resultado, faturou 3 Oscars, inclusive melhor canção para INTO THE WEST (parceria com Annie Lennox).

    40)  FAÇA A COISA CERTA (Spike Lee), 1989

    Spike Lee é conhecido por explorar, em filmes engajados, temáticas raciais. DO THE RIGHT THING foi seu maior êxito. O filme trata da escalada de violência gerada pela instalação no bairro predominantemente negro do Brooklin, NY, de uma pizzaria por um italiano branco e seus filhos. A trilha que serve como fundo a esse quadro de conflitos traz diversos ritmos da música black: hip hop (Public Enemy), jazz (Al Jarreau), swing (Teddy Riley), reggae (Steel Pulse), gospel (Take 6) e até salsa (Ruben Blades).

  • Avarias

    Na sala do apartamento que dividia com Mila Cox, Zími cantava e tocava no teclado dela uma versão de ‘Always the sun’, dos Stranglers.

    Usando apenas acordes rudimentares, executou a canção de maneira belíssima.

    A rouquidão de sua voz, a falta de técnica vocal e a embriaguez tiveram efeito favorável para o resultado apresentado.

    Mila Cox e Silvano observavam.

    A visceralidade mostrada ali, do nada, com Zími alcoolizado, improvisando, era algo tão raro  atualmente, que os fez pensar imediatamente na vergonha que tinham das pessoas que se arriscam a ser artistas, e que eles eventualmente presenciavam se apresentando sozinhas ou com outras pessoas em bares da cidade, com repertório constrangedor e interpretação ainda pior.

    Cox, que apareceu quando ele já havia começado a música, olhava fixamente, encostada na lateral da porta de seu quarto.

    Estava vestindo apenas uma camiseta cinza, muito grande para ela, como se fosse um vestido, com a cara da Anette Peacock na frente.

    Silvano estava na sala com Zími, e alternava o foco de seu olhar entre ele e Mila Cox.

    A cara que Cox fazia enquanto olhava Zími e ouvia a música era a mesma que ela fez numa das fotos que estavam coladas na porta de seu quarto , em que ela, ainda criança, segurava e olhava a capa do primeiro disco da Suzi Quatro.

    Talvez a ideia de se tornar contrabaixista tenho surgido naquele momento.

    Ela também tinha o teclado e o sintetizador, para sanar a falta de um guitarrista na banda.

    Antes de Zími começar a tocar a música, Cox estava dentro do quarto ouvindo outra música ,enquanto ele falava na sala sem parar e às vezes tocava sons aleatórios no teclado.

    Ele falava sobre como são as pessoas que estão distópicas, e não os ambientes ou as paisagens.

    Contava sobre o desprezo que sente pelo sistema de um modo geral, focando naquilo que havia feito dele a pessoa que se tornou.

    Mencionou as dinâmicas de grupo para selecionar funcionários em empresas.

    Em seu monólogo semiembriagado, ele levantou uma questão.

    Questionou  o porque de, entre o desespero causado pelo capitalismo, que obriga milhões de pessoas a buscar um salário baixo em troca de uma carga horária de trabalho alta (além de ter que passar eventualmente pelo constrangimento das abomináveis dinâmicas de grupo), há pessoas, que vivendo exatamente no mesmo contexto, que simplesmente acham que as coisas são assim mesmo?

    Essas pessoas também dizem que se deve agradecer no caso de conseguirem uma oportunidade dada por corporações bilionárias, que irão sugar toda a energia vital de cada um dos escravos assalariados, cuspindo depois o caroço deles no limbo.

    Vivem acreditando que todo o sofrimento e humilhação diários serão recompensados depois da morte com a vida eterna num paraíso.

    Mila Cox tinha ido para a sala assim que ele parou de falar e começou a tocar a música.

    Quando Zími terminou, Cox olhou para Silvano e sabia o que ele estava pensando.

    Silvano estava pensando em como seria se Zími desencanasse da banda Crop Circles (que é um duo formado por Cox e Zími) e seguisse carreira solo.

    E Mila Cox sabia que Silvano estava pensando isso porque ela às vezes dizia que caso se cansasse da parceria musical com Zími,  iria substituí-lo por uma bateria eletrônica e seguiria com o nome da banda, mesmo tocando sozinha.

    Ela estava com vinte e um anos e provavelmente teria tempo para acertar e errar.

    Mas Silvano também tinha pensado em como Zími era cool e exercia influência sobre ele, mesmo tendo estilos e ideais musicais diferentes.

    Zími, que é baterista e vocalista dos Crop Circles, tem mais estofo musical, mas Silvano é mais determinado.

    Silvano é uruguaio, mas falava português quase sem sotaque, pois vivia em São Paulo desde os três anos de idade. Tem agora quarenta e nove.

    É vizinho de porta de Zími e Mila Cox,e tem uma Kombi para fazer carretos e pagar as contas.

    Cox e Zími pagam as contas trabalhando como copywriters, geralmente fazendo publicidade para corporações que não aprovavam.

    Antes de Mila Cox e Zími mudarem para lá, Silvano já morava naquele prédio havia onze anos.

    Ele parece o Pappo Napolitano, e também era guitarrista e cantor. Canta em inglês por opção estética, fazendo uma mistura de rock a billy, blues e punk rock.

    Se apresentava tocando guitarra sentado para fazer a parte percussiva com uma gambiarra de chimbal e bumbo, que ele tocava com os pés.

    Mila Cox sabia que Zími não seguiria carreira solo.

    Mas ele também dizia brincando que caso fosse despedido por Cox, juntaria outras três pessoas mais jovens que ele e montaria outra banda.

    E seria uma banda de apoio, para que ele se tornasse um crooner.

    Elaboraria um repertório primoroso de músicas autorais, misturadas com pérolas obscuras da música mundial do século vinte.

    Ambos sabem que isso nunca aconteceria, porque Zími sabe da falta de glamour que isso significaria em sua vida pessoal.

    Faria shows esporádicos, e gravaria em casa, também esporadicamente

    Estaria satisfeito. Estava com quarenta e sete anos e pensava mesmo era em preservar sua saúde mental e viver com o mínimo de conforto.

    Mas ele não sairia mesmo em carreira solo, porque seria um trabalho duro para ele fazer sozinho, considerando seu entusiasmo para ser artista, que somente aparece por causa da motivação constante por parte de Mila Cox.

    Zími entendia esse sentimento como a superação de sua necessidade de autoafirmação, e não como falta de entusiasmo pela arte.

    Afinal, mesmo que ele não fosse parte de uma banda, ainda assim, seria um apreciador e de alguma outra forma, um apoiador das artes.

    Zím terminou a música e alguns segundos depois Mila Cox falou: “Você deveria gravar essa do jeito que você tocou agora, deixar eu completar a gravação e a gente lançaria como single.”

    Zími respondeu: “Agora seria melhor lançar uma música autoral. Pra lançar cover, eu já estava pensando em uma outra, que é ‘Baby’s on fire’, do Brian Eno. Aproveitar que é uma música legal e é obscura o suficiente pras massas. Embora essa dos Stranglers também tenha essas características. Toquei porque ela me veio à cabeça sem que eu tivesse pensado nela. Eu te enviei a letra de uma música inédita, mas ainda não pensei na parte musical dela, então te mandei pra ver se você tinha alguma ideia.”

    Mila Cox havia mesmo recebido a letra da música, mas não havia começado a trabalhar na canção.

    Naquele momento se lembrava apenas que a letra era em inglês e definia o amor moderno como uma transação bancária em peças publicitárias de bancos.

    Numa outra parte, dizia que quem precisa ser liderado por um pastor, tem a inteligência de uma ovelha.

    Em outro trecho, a letra dizia em primeira pessoa que uma grande parte da humanidade é composta por pessoas com as quais ele jamais se envolveria, em qualquer nível e em quaisquer que fossem as circunstâncias.

    Exaltava ainda a desobediência às convenções.

    Então o interfone tocou e ninguém foi atender.

    Não estavam esperando ninguém, e menos ainda uma notícia minimamente razoável sendo dada pelo interfone naquele momento.

    O toque do interfone não foi persistente, tocou apenas uma vez.

    Então Zími disse que atenderia, mas que fumaria um cigarro na janela antes.

    Olhou para baixo, e nada acontecia na frente de seu prédio, nada que pudesse anunciar algo realmente ruim a ser comunicado.

    Não havia incêndio e nem invasão. A Rua da Glória estava normal.

    Zími tomava o vinho uruguaio direto da garrafa e fumou três cigarros.

    Então ele finalmente  foi atender o interfone, e o porteiro disse que havia ligado para avisar que a água do banheiro seria fechada por meia hora, mas que naquele momento o reparo já havia sido resolvido.

    Zími explicou a situação para Mila Cox e Silvano.

    Fizeram silêncio e pensaram na chateação que haviam evitado, apenas por deixar de ouvir o que um outro humano tinha para lhes dizer.

    Alguém iria querer usar o banheiro só porque estava sem água.

    A preguiça coletiva de comentar pairava densa.

    Uma pequena chateação evitada que causou um bem estar enorme naquele momento.

    As famílias tradicionais e conservadoras muitas vezes começam a ruir com esses pequenos aborrecimentos, que viram ataques de fúria quando a frustração por uma vida farsante pesa mais do que tentar manter aparências.

    Sossego é uma premissa para a felicidade, e a felicidade não é algo para durar incessantemente, pois assim perderia seu sentido.

    Eles tentavam  eliminar as chateações gratuitas, para aguentarem aquelas que são inevitáveis, e que tem alguma razão decente para surgir.

    Silvano voltou para seu apartamento, Mila Cox voltou para seu quarto e Zími ficou na sala, sabendo que a solidão é um luxo e a desobediência às vezes é a ordem de uma intuição que não costuma falhar.

    O aluguel pago fazia agora com que Zími não quisesse estar em nenhum outro lugar.

    Houve um tempo  em que ele dormia num armário no corredor de uma pensão no centro da cidade.

    Ele não tem filhos porque sabe que não daria conta de ser um pai aprovado pelo status quo, então mais tarde poderia dormir bêbado no sofá.

    Gostava de crianças, mas odiava playgrounds de condomínio.

  • Uma História de Pai, Filho, Avô

    Para Matheus, meu filho.
    Para Francisco, seu avô
    .

    Matheus fez trinta, a vida falou sem gritar,
    o corpo avisa, a alma aprende a escutar.
    A dor não pede licença: entra e ensina,
    quem ama, simplifica, ampara e ilumina.

    O tempo é lavrador: ara a gente por dentro.
    Quem aceita o sulco, colhe entendimento.

    Fala, meu filho, que hoje o verbo é ouvir,
    ouvir é cuidar: verdade a seguir.
    Se o fardo pesa, nós dois vamos dividir,
    a coragem é quieta, mas sabe resistir.
    O vô plantou raiz pra eu não me perder,
    agora, contigo, aprendo a renascer.

    Eu, que era resposta antes da pergunta,
    descobri que o amor é a pausa que junta.
    “Pai, respira. Vai no passo que dá.”
    No teu conselho simples, mora o verbo amar.

    O vô dizia: “Filho, firme o pé no chão,
    tradição é mapa, futuro é direção.”

    Tudo passa, menos o que a gente passa adiante,
    mesa posta, fé breve, silêncio constante.
    Três tempos, uma voz: o que foi, o que é, o que vem,
    sertão por dentro, onde a gente se mantém.

    Ouça, filho, o pai está aqui,
    a escuta é a forma mais pura de dizer “estou”.
    Se a vida insiste, a gente insiste em si,
    com o vô na lembrança, o amor que nos guiou.
    Raiz bem funda abraça qualquer vento:
    pai, filho e avô: três nomes do mesmo tempo.

  • Preta foi para o céu

    Preta Gil foi para o céu. O Brasil ficou órfão de sua alegria escandalosa. Preta perdeu sua última batalha contra o câncer.

    Perdemos a cantora, a empresária, a apresentadora, o exemplo de mãe, a mulher inspiradora que ela foi.

    Preta foi embora no último domingo, dia 20, nos Estados Unidos.

    Preta descobriu cedo sua força porque, na escola, apesar de ser filha de pai famoso, soube que isso não a blindava do racismo do colégio onde estudava: a mãe de uma colega se recusava a dar carona para “gente de cor” na Kombi dela. Porém, se não era impedida de passar por isso, viu a lição que a mãe dela, Sandra Gadelha — a Drão — deu na mulher desaforada.

    Preta Gil não se encostou no pai cantor. Foi produtora, empresária, apresentadora, cantora. Casou, descasou, casou de novo, teve filhos e passou perrengues como qualquer pessoa comum.

    Quando li “Os primeiros 50”, livro que ela lançou em 2024, pela editora Globo Livros, pensei em como seria bom se ela tivesse se lançado também na ficção. Ou, pelo menos, uma crônica semanal no jornal, se muito. Como escrevia gostoso.

    Perdemos uma mulher que ensinou pra gente o que é a força da mulher, o empoderamento e o gostar de viver.

    Ela namorou homens, mulheres, famosos e anônimos, e mostrou que o amor é sagrado — que cada um de nós pode amar quem quiser, do jeito que quiser.

    Sei que um dia todos vamos deixar este mundo, sei que todo mundo terá sua hora, mas dói saber que ela era tão nova. Dói saber que seu rosto era tão vigoroso, tão bonito.

    Preta Gil foi abandonada pelo marido durante a luta contra o câncer, mas colecionou amigos, fãs e uma família amorosa.

    Perdemos uma mulher com riso fácil e um senso de humor delicioso.

    Ela desnudou seu corpo e sua alma no disco “Prêt-à-Porter” (2003). Chocou alguns e foi aplaudida por muitos.

    Vá em paz. Você será sempre uma inspiração para novas gerações.

    *Excepcionalmente nesta quarta-feira.

  • Canções pra Americano Ver

    A revista Rolling Stone publicou recentemente sua lista de 500 melhores canções de todos os tempos (grifo meu) e supostamente de todo o mundo, atualizada para 2024.

    Aparecem na lista nomes como Cardi B, Carly Rae Jepsen, Migos, Megan Thee Stallion, Eslabon Armado, BTS, Clipse, Pusha T, Bad Bunny, Mark Ronson, Nick Minaj, CL Smooth, Funky 4+1  e Cardi B. Já ouviu falar em algum? Esses ilustres desconhecidos que bombaram nas plataformas de streaming e têm bilhões de acesso no Youtube em breve estarão mofando nas nuvens do esquecimento assim que largados à sua irrelevância.

    Em compensação, músicos de prestígio não fizeram jus a uma indicaçãozinha sequer. Ficaram de fora dentre outros, Frank Sinatra, Tony Bennett, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Quincy Jones, Barbra Streisand, Carpenters, Janis Joplin, Joan Baez, Sting, Tom Waits, Bjork e Moby.

    Não é preciso ser crítico musical para constatar que há algo de errado. Que parâmetros teriam sido usados para reputar ídolos do pop descartável como Backstreet Boys e Britney Spears como superiores a um Tom Jobim ou um Burt Bacharach?

    E o que dizer de canções que atravessaram gerações e se eternizaram no imaginário popular como “Moonlight Serenade”, “As Time Goes By”, “Over the Rainbow”, “Smoke Gets in Your Eyes”, “Moon River”, “Take Five”, “Summertime”, “Stella by Starlight”, “My Funny Valentine”, “Misty”, “Autumn Leaves”, “Ne me Quitte Pas”, “La Vie en Rose”, “Volare”, “Besame Mucho”, “Guantanamera”? Nenhuma foi lembrada. Por serem músicas ‘de tiozão’, não mereceram a atenção dos iluminados idealizadores do famigerado guia da RS. Em seu lugar, entraram coisas tipo, “Toxic”, “In Da Club”, “Yeah”, “Hey Ya”, “Big Poppa” e “Fuck tha Police”.

    O rock não teve melhor sorte. Foram sumariamente vetadas bandas de primeira linha como Deep Purple, Dire Straits, Genesis, Yes, Jethro Tull, Emerson Lake & Palmer, Supertramp, Echo & Bunnymen, Siouxsie & Banshees e os ex-Beatles Paul McCartney e George Harrison. Apesar de cantarem em inglês, foram preteridos por uma simples razão: são britânicos. Fossem da terra de tio Sam, não fariam jus a tamanha desfeita.

    Por outro lado, abundaram indicações de gangsta rap, hip hop e country music (equivalente ao nosso sertanejo universitário), estilo cujo alcance está restrito ao território americano.

    Nada contra. Não se trata de discriminar determinados gêneros musicais. A questão é que um levantamento que se propõe a ser um painel da produção musical representativa deveria com isenção abrir espaço ao que é produzido em todas as épocas e lugares, segundo sua relevância artística.

    O Brasil pode dar-se por satisfeito: conseguiu emplacar umazinha preciosa indicação no clube fechado dos 500: “Ponta de Lança Africano”, improvável canção de Jorge Ben Jor surpreendentemente ganhou a 352ª posição. Nada a comemorar já que ficaram de fora temas como “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Carinhoso”, “Asa Branca”, “Aquarela do Brasil” e “Chove Chuva” (essa última do próprio Jorge).

    Outros países tiveram pior sorte. Foram banidos da lista xenófoba da RS a França (Edith Piaf, Charles Aznavour, Serge Gainsbourg), a Itália (Pavarotti, Bocelli, Peppino di Capri), a Espanha (Paco de Lucia, Sarita Montiel, Gypsy Kings), Portugal (Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Madredeus) e a Alemanha (Ute Lemper, Marlene Dietrich, Nina Hagen). Que dirá os pobres latino-americanos. Tal como imigrantes ilegais, foram barrados a Argentina (Astor Piazzola, Carlos Gardel, Mercedes Sosa), o México (Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Maná) e Cuba (Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Buena Vista Social Club). Por não se expressarem no idioma trumpiano, foram escanteados.

    O rol de escandalosas omissões é infindável. Grandes nomes que fazem parte da memória musical foram atirados na lata de lixo da história.

    Poderíamos relevar tais aberrações fosse esse painel um dos inúmeros que pipocam em sites inexpressivos na internet. Não é o caso. A Rolling Stone se alardeia como uma revista gabaritada e adquiriu respeitabilidade nos meios musicais. Figurar em sua ‘qualificada’ seleção tem para o músico o peso equivalente ao que teria para o cinema uma indicação ao Oscar.

    Sendo uma publicação sediada nos EUA, não esconde sua subserviência descarada ao showbiz americano e se afina ao mote “make America great again”. Abdicou dos ideais democráticos e universalistas que inspiraram sua criação para adotar um deslavado colonialismo cultural, difundindo para o resto do planeta a predominância de valores essencialmente americanos.

    Prefira a despojada, mas honesta lista das ‘500 Mais da Kiss FM’.

  • Desde aquele dia

    Em 2010 eu morava em Gaurama e não sabia o que fazer da vida dali pra frente. Aos vinte anos a gente acha que pode tudo e acredita cegamente que as questões da vida têm soluções simples, num otimismo nada mais que adolescente. Eu estava perdido e assim fiquei talvez por mais um ano ou dois, pois tinha abandonado uma faculdade, concluído dois cursos técnicos dos quais pouco aproveitei e seguia vivendo na crença de que teria um futuro promissor como baterista. Embora hoje, década e meia depois, me orgulhe de uma empreitada ou outra, ando com a certeza de que jamais me dediquei tão fortemente a algo como ao instrumento.

    A bateria me era uma religião. Estudava como se apostasse todas as fichas numa única jogada e criei uma rotina que ultrapassava dez horas de prática por dia. Lia todas as revistas, buscava referências, bandas e músicos, fazia aulas com os bateristas mais experientes da região e viajava seguidamente para workshops em Porto Alegre e Caxias do Sul. Vez ou outra, além disso, compunha músicas para a banda da qual fazia parte, chamada General Lee.

    Nessas idas e vindas, conheci muita gente e sempre foi comum a surpresa quando falava sobre a minha cidade. Acredito que era, e ainda é, relativamente estranho viajar de um lugar com seis mil habitantes para um grande centro por conta de um workshop de bateria, que tem duração de, quando muito, duas ou três horas.

    Numa dessas o Rubens, baterista que encontrava nos workshops pelo estado e com quem converso até hoje, liga no telefone fixo de casa ao meio dia. Eu almoçava com a minha avó. Jamais soube como ele conseguiu aquele número. O fato é que não tive tempo para me surpreender com a ligação porque ele foi direto ao ponto. Um conhecido músico gaúcho acabara de entrar numa polêmica das brabas e tinha de sumir por uns dias. Gaurama seria o lugar perfeito. Concordei sem pensar e só quando desliguei percebi que não sabia o nome do fugitivo. Ao ser indagado, segundos depois, disse apenas: “vamos esconder alguém”.

    Pelo extinto MSN, combinamos o restante. Na sexta de tarde, eles viriam com um Punto preto, eu aguardaria sua chegada em frente ao posto de combustíveis na entrada da cidade e os guiaria até a minha casa. Soube quem era o tal músico só quando estacionamos. A minha avó era cúmplice e até gostou da história, acabou preparando uma macarronada para o jantar.

    Organizamos um quarto isolado, no sótão, com vários cobertores, pois aquela foi uma das semanas mais frias do ano. Ansioso e um tanto tenso porque, afinal, mal conhecia o Rubens, e, sejamos sinceros, aquilo tinha tudo para dar errado, quase mijei nas calças quando vi o Humberto Gessinger saindo do carro. Trazia uma mochila e uma edição antiga do Crônica da casa assassinada, do Lúcio Cardoso. Ao me ver, no looping de uma surpresa paralisante. gargalhou e agradeceu a parceria.

    A sensação de pânico não me abandonou naquela noite. O Humberto e a minha avó conversavam sobre os mais variados assuntos como velhos amigos. Eu mal acreditava no que via. Na manhã seguinte, mostrei a cidade ao forasteiro que, de touca e óculos escuros, fazia várias perguntas. De tarde descemos ao porão de casa, onde estavam os equipamentos da General Lee. Ele olhou tudo com calma e, ao ver o baixo na parede, pediu de quem era. Eu respondi que era do Joel, o baixista da banda, que geralmente o deixava ali para os ensaios. O Humberto o mirou por mais alguns instantes e, com a mão no queixo, sem virar para mim, disse: “Será que ele se importaria se fizéssemos um som?”. Aquele era um dos raros fins de semana em que não ensaiaríamos e, não preciso dizer que ficamos por horas, Humberto e eu, tirando um som no porão de casa. Só paramos quando a minha avó nos chamou para o jantar.

    Depois, por sugestão dele, fomos ao Maruag Pub. Ele estava de touca, manta e óculos, tapando quase completamente o rosto. Naquela noite, o Pub promoveu o show de uma banda de Passo Fundo, mas teve pouco público. O frio assustava. Assistimos sentados, num canto meio escondido, tomando seguidas latinhas de Coca-Cola, com raros comentários, pois o Humberto não tirava os olhos da banda. Quando a apresentação acabou, o vi escrevendo um SMS no celular, pagamos a conta e voltamos para casa, em silêncio.

    Jamais pensei em revelar essa história, mas creio que o Humberto já não se importe. Ninguém o reconheceu naquele fim de semana e não houve aborrecimentos posteriores. Acho até que o pedido de sigilo tenha jubilado. No domingo bem cedo ele partiu. Autografou alguns discos e pediu para que não contasse da visita a ninguém. A minha avó o convidava seguidamente para retornar enquanto se despedia. Eu via aquele Punto saindo pela estrada sem entender o que havia acontecido, com a certeza de que ninguém acreditaria caso contasse. Pouco me lembro dos dias subsequentes, mas fui alvo de piadas no ensaio da banda por estar feliz. E nunca pude contar o porquê. No fim das contas, a vida é mesmo cheia dessas coisas difíceis de explicar.


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