Nova Friburgo

  • Quando o tempo para: instantes de giz e asas

    “O mundo não está para a paciência. Mas a paciência está para o nosso bom desenvolvimento humano”.

    Assim, de costas, com o velho e conhecido giz branco em punho, desenhando símbolos e números e letras contra uma lousa verde, a professora Vida passa lições aos seus alunos, uma turma heterogênea chamada humanidade. Aparentemente simples, a lição de hoje reprovou quase a totalidade dos alunos. O simples, nem sempre, é facil. O simples, muitas vezes, é um compacto complexo. Que equaçãozinha filo-matemática desafiadora!

    Sentada na primeira fila, Olivia presta atenção não só ao que está escrito no quadro, mas aos gestos da professora, ao tom da sua voz, séria, embora doce. Sempre voltada para o quadro, difícil dar de caras com ela. Voz, o barulho do giz na lousa, pausas, uma figura que se mexe delicadamente ao passo que injeta questões instigantes, ameaçadoras, apaixonantes e que desfazem o mundo tal qual pensamos que o conhecemos. Odor de lancheira do maternal, sabor da promoção de toda quarta-feira do salgado de queijo, tomate e orégano com batida de morango ao leite da cantina da faculdade. Nesta sala de aula não se sente nem frio, nem calor. Um mistério saboroso, sob o movimentar-se de uma discreta silhueta de longos cabelos brilhantes aprisionados lindamente por uma fita de cetim azul. O vulto veste uma peça única de corte reto, bem cintado, tom sóbrio que, ao ritmo dos passos encurtados e decididos, sem se voltar para os estudantes, prenuncia enigmas que jamais se deixarão decifrar.

    ***

    Vernon senta-se no mesmo lugar, todas as manhãs. Entre outros seres de luz, perfaz a rotina dos eternos sem pressa, deixa-se entreter com o canto dos pássaros e as migalhas deixadas pelo vento, na estrada de pedras lisas, de tom marrom, ao lado do rio cintilante que aponta a direção de sua casa, nada distante.

    Alta, trajando um vestido reto e bem cintado, a professora está atrás de uma lousa transparente. Escreve números, letras e símbolos com um giz branco. Todos estão capturados pela luz de seu rosto, lições simples e delicadas que são entendidas de primeira. Ninguém repara em nada além do rosto angelical da professora Vida, cujo cabelo está todo preso por uma fita cetim azul, e do giz que não pára quieto.

    Hoje, entretanto Vernon se sente diferente. Fixa o olhar em uma borboleta verde que pousou sobre a lousa translúcida. Aos poucos, a claridade rareia, as asas do pequeno inseto o hipnotizam e Vernon enxerga Olívia. O tempo para, o espaço físico se diluí. Olivia está crescida e sorridente, a melhor da turma, como sempre. Seu olhar compenetrado não mudou nada. A pele mais clara de quem perdeu o tempo do lazer e do sol de verão, o sol que sempre amou a queimar-lhe a pele e acender as sardas, por todo o corpo… algumas linhas de expressão mais duras se fazem perceber, perto dos olhos. Está mais magra e mais abatida, também. Mas ainda é bela e vívida..É ela, sua Olívia! Quanto tempo! O coração bate em seu peito como há muito não sentia. Vernon então compreende a dor que desde sua morte não sentira: a ausência dos entes queridos, das memórias, dos dias de aprendizado – e erro -, do amor que ainda corre em suas veias, tão incorpóreas, na forma de mulher humana com quem não teve tempo de se casar. A cena entre planos é orquestrada pela professora, a borboleta que bate as asas em um compasso sonolento. Olívia mexe o nariz do jeito de sempre. Vernon sorri. A borboleta invade a lousa transparente, fura o entre mundos, e sobrevoa a cabeça de Olívia. Pousa em seu nariz.

    Por um breve segundo, apenas um segundo, os olhos de Vernon encontram os de Olívia.

    “Vernon, quanta saudade!”, pensa a jovem estudante.

    A borboleta, então, levanta voo e irrompe pelas janelas do cômodo – o bater das asas sublinhando todo o silêncio do instante interminável -, sumindo em direção a um horizonte qualquer.

  • Caçadores de eclipses

    Chuvas atrapalham planejamentos. Na realidade, chuvas atrapalham expectativas, e estas, nos frustram.

    [Aqui, chuvas podem se tratar de chuvas. Ou não. Use-a como metáfora, os textos pertencem a quem os lê, no momento da leitura].

    Hoje em dia é simples assistir eventos astronômicos com uma meteorologia ruim; eu, por exemplo, inspirada pela minha irmã, de vez em sempre, me surpreendo a mim mesma com o celular em punho, de noite, da varanda, de uma das janelas, da rua, apontando essa prótese humana para o céu, que pode estar límpido ou encoberto, não importa: lá estou eu girando no meu próprio eixo, tal qual uma lunática. Eis o app Stellarium, e a minha curiosidade pelo posicionamento de estrelas, outros astros e da Lua.

    Na madrugada da quinta para a sexta-feira última, fiz planos para ver a Lua de Sangue. Já com minhas vivências, velas e banhos engatilhados para a sexta-feira à noite, me empolguei com a magnífica poasibilidade de assistir a um momento envergonhado, enraivecido ou enamorado do nosso satélite natural, que teria o ápice de seu fenômeno às 3h26 da madrugada. Eu e muitos conhecidos e desconhecidos, aqui do lado ocidental e acidentalmente noturno da Terra, preparávamos nosso inconsciente para a madrugada em claro — que logo, tornaria-se escura, pela nossa própria sombra sobre a Lua. Mas, em Nova Friburgo, uma chuva torrencial, começou quando nem noite ainda era, minando o planejamento. Planejamento, uma pinoia!, diria minha avó; a tal da expectativa. A Lua vai passar pelo seu processo de eclipse, faça chuva ou passem nuvens. Estamos em março, as águas são certas e fecham o verão. Quem quer, que abrace a chuva e se molhe! Olhe para o céu, tome um banho de Lua. As energias podem até ser potencializadas. Há os que se preparem com telescópios ou cameras semi-profissionais com zoom 42x. Há ainda os que não se animem a sair de seus lençóis e pijamas, e liguem smart TVs, celulares, projetores, computadores ou outros — à exceção do Chrome Cast, que rapidamente instaurou o caos e um burburinho cibernético, com resets da configuracao padrão aqui e acolá, mudança de humores, por sair do ar, assim, sem explicações,dias afora…. em tempos de ansiedade impregnada nas veias, nada pior do que perder uma conexão que se espera onipresente e a nosso bel prazer — de novo, posso não estar me referindo à gadjets ou bandas largas, entenda como bem lhe convir. Por último, há os canais ao vivo no YouTube, com comentários que mais me mortificariam se eu não os acompanhasse no percurso da caça ao eclipse, sobre quatro rodas, suprimentos de café e tapiocas feitos às pressas, um spitz alemão com o focinho voltado para o céu, no meu colo, e um motorista que quase sucumbiu à frustração – e ao sono. Pouco antes das 2h, a chuva parou. Vibra a ligação via WhatsApp no pulso:

    — Alô…
    — Vambora? Anima, se não só em 2039!

    Enquanto todas as opções acima ocorressem por todas as Américas, dois adultos e um cachorro se embasbacavam com a Lua alaranjada que ora estava do lado do motorista, curvas depois do lado do carona. Nuvens e vegetações faziam necessária a presença do Stellarium.

    — Tá ali!

    Sobre a coxa do motorista, a tela do celular mostrava a Lua imensa, suas crateras, e exclamações que faziam a caçada ser mais interessante:

    — Está incrível, pessoal! Noooossa, olhem isso, está incrível! Já já essa nuvem passa, pessoal, por enquanto, façam um PIX de R$5,00 e mandem uma mensagem que respondemos aqui ao vivo.

    Seguimos o rastro da Lua, em busca de um descampado distante das luzes da cidade, quieto e seguro que nos permitisse parar, observar o fenômeno e fazer um lanchinho. Um bairro à esquerda, deixa fluir, lá vamos nós, 5G perdendo força, o 4G o qualquer G. Stellarium no more. Adeus YouTube.

    — Melhor voltar.
    — Vamos perder o ápice se voltarmos.

    De repente, uma pracinha digna de cidade de interior, um campo de futebol desses tomados pelas gramas selvagens, um ponto de ônibus, as casas que dormem. Paramos.

    A Lua.

    Para quem nunca presenciou com os próprios olhos, é difícil descrever; tem sabor de perfume de lavanda, sob o formato de brigadeiro; tem cheiro de um perfume marcante misturado ao odor de um café na madrugada, fumegante para que os olhos se abram. É de um vermelho revigorante. Parece final de copa do mundo, a experiência de se estar a ponto de gritar bem alto “É goooooooool!”. Mas não podemos, todos dormem — só os galos cantaram, cachorros-lobos uivaram e o meu spitz tenta inspirar de uma só tragada o pequeno piso concretado com suas narinas pequeninas. 3h26, o ápice. O mundo pára, por um instante.

    Ainda bem que, apesar de tudo, somos bons em desenvolver tecnologias. E ainda bem que sempre há lunáticos dispostos a vencer o sono, outros que se empenham em manter o planejamento e cachorros que nos fazem superar todas as (im)prováveis frustrações.

  • Romantismo anárquico

    Cerâmicas bejes, com um rejunte que nem se faz perceber, emolduram 1/4 de circunferência de uma toalha de Natal, assim disposta junto ao chão, em plena manhã nublada de sábado de Carnaval. Uma xícara moldada pretenciosamente orgânica, um falso orgânico, um orgânico em linha de produção, repousa sem o seu pires sobre o tecido dobrado, com viéis vermelho. Um café o está preenchendo, e a
    fumaça abraça um ramo de Alecrim, há o registro do envolvimento de ambos nas ondulações do líquido, escuro, quase confundindo-se com a própria xícara. O Alecrim faz as vezes de uma colher, mexendo um café sem açúcar.

    Café com aroma de alecrim, picnic solitário e instantâneo no chão da cozinha. Magia que preenche uma rotina, para que esta não exista, padrão de si. Rituais únicos. Anarquia poética.

    “Não vamos morrer por falta de coisas admiráveis, mas por falta de admirá-las”.
    Chesterton

    Memórias como pedaços do que somos, partículas palpáveis, feitas do mesmo material que as estrelas. Somos a explosão de partículas, nossas memórias, as memórias de nossos pais, avós, cidade, imenso planeta. Somos colagens belíssimas de micropartículas interestrelares, por vezes de galáxias antes impossíveis de se misturar, anos luz distantes. Somos arte. Somos instantes eternos, milagres pulsantes. Somos, além: despedidas. A todo tempo. Em todos os lugares. Somos instantes. Um breve momento em que se saboreia, com o congelar do tempo e o fechar dos olhos, o cheiro inesquecível do perfume da Dama da Noite, flor roxeada no meio de uma rua de pedestres, silenciosa no tarde das horas, que testemunham um pai ensinar ao seu filho como saborear as miúdezas de algo singelo e poderoso, beleza como promessa de se passar adiante, geração a geração. A Dama da Noite, branca, repousa e cresce as folhagens em um vaso plástico reciclado na minha varanda, sem brotar, como da primeira vez, anos antes, no aguardo, não se sabe do quê.

    Olfato. Visão. Tato.
    Paladar. Audição.

    Memória deveria pertencer ao rol dos sentidos, sexto membro. Ela não é um, tampouco outro. Por vezes os cinco, simultaneamente. Sem sombras de dúvida é um sentido, sentido da vida, do existir.

    “Estou me tornando um passageiro. E eu não sou um passageiro”.

    Filmes, pessoas e situações aparecem como resultado dos ouvidos atentos de uma tecnologia para melhorar nossas experiência de vida; ela é anterior às inteligências artificiais, e responde pelo nome de acaso. ‘Memórias de um Amor’ é uma película incrivelmente transbordante, que nos traz personagens passageiros de um veículo do qual não queriam ter embarcado.

    Memória é, na concepção que vou lhes apresentar agora, sinônimo de apego.

    Sou apegada às coisas, aos momentos, às pessoas. Herdei tal característica do meu pai, que, sem se dar conta em vida, transformou nossa morada em um verdadeiro “sebo” – definição da querida salvadora, que aparece de quando em quando para domar a bagunça e espantar o pó e os pelos do Zeca. Vassoura e
    microfibras em punho, pôs álcool, água sanitária e sacolas de lixo à obra, resgatando a dignidade arquitetônica daquele apartamento de mais de 100m², onde habitam memórias de cinco vidas, móveis para cinco casas e minha mãe. Pequeno demais para a vontade imensa de se viver que era o meu pai.

    Coisas, registros, pessoas; tenho uma queda por tudo o que é analógico, principalmente a relação que o tempo imprime às mesmas coisas, registros, pessoas. E aqui entendo a relação entre amar e a intensidade das reminiscências; não tem jeito: amo a risada dos meus amigos e, se me chegam por áudio em um smartphone, sinto-me compelida a escutá-los como se rebobinasse uma fita cassete insistentemente, a ponto de romper a fita magnética, ou arranhar um disco de vinil, fossem esses os meios. O som, as palavras, as vozes que atravessam o tempo me transportam ao passado-refúgio. Amo verdadeiramente os meus amigos. Ao voltar de Perugia, um mês que já se completou em 15 anos, colei os rostos de cada um dos que lá fiz, unidos pelo aprendizado da língua italiana, cujos endereços estão espalhados por todo o mundo, no pilar semi enterrado na parede do meu apartamento em Botafogo, acima da mesa de refeições. Assim, arrastava o prazer de tomar café todas as manhãs em suas presenças.

    Sou apaixonada por refeições sem pressa e arrumadas para o ato de se comer, saboreando tudo ao redor. Só os que me conhecem sabem de sua importância e simbolismo – e como transformei uma
    inauguração da árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas em um aniversário mais do que emblemático, um entra e sai de amigos, dedilhar de violões, toalha xadrez, frutas e muitos quitutes, fogos de artifícios… dificilmente um picnic se tornou memória em tantas pessoas, como aquele – talvez o que teve de ser recolhido às pressas, no ano seguinte, com tenda e tudo, da Praia Vermelha, por conta de uma (baita) tempestade. Meu diminuto apartamento em Botafogo se transformou em uma releitura da confraternização ao ar livre.

    Açaís, cervejas, vinhos e limãos sicilianos. Pizzas. Karaokes/ palcos/ microfones; amo MUITO cafés. Amo mais ainda reencontros. Sou techfriendly por necessidade. Amo a vida. Amo gente (ok, ok, talvez menos do que o que sinto por cachorros – e percebo que me tornei o discurso da minha avó paterna, o que me fazia torcer o nariz).

    Amo, ainda, e talvez mais que todos os outros: cartas. Meu maior tesouro repousa em uma caixa de papelão em formato de mala – que já quase cospe papéis mais velhos que meus afilhados -, verdadeira guardiã das memórias mais preciosas. Insubstituíveis. Primeiro amor. Primeiros registros da escrita. Primeiro namoradinho. Primeiro namorado. Quase todos os outros à exceção do primeiro casamento, que evoluiu de memória ao posto de uma importante lição, apenas. Verdade seja dita, lhe sou imensamente grata pelo amadurecimento forçado e finalmente aprender que existem pessoas passageiras. Compreendi a necessidade de respeitar meus próprios limites, a limitar o acesso, consciente, de quem tira os sapatos e transpõe a porta da minha casa.

    Dentro da caixa, não estão apenas vestígios dos romances que se foram; se encontram meus melhores amigos, a “sogra” que certamente foi minha mãe em outras vidas, todos os muitos e imprescindíveis bilhetes e cartinhas dos meus pais – e do papai Noel, e do coelhinho da Páscoa. Os primeiros registros da minha irmã, nossos primeiros bilhetes. Cartões de aniversário e Natal da vovó, sempre acompanhados de um “tico-tico”. O último bilhetinho da minha avó austríaca, a melhor vizinha, que me deixou primos e tias de alma como legado. Papéis dobrados com desculpas entre primas dinda/afilhada (como brigávamos e nos ameaçávamos com “não sou mais sua dinda”, e vice-versa!). Bilhetes de “deixei o café preparado, bom dia”, da tia- mãe que me abrigou no início da faculdade. Bilhetes de amigo contendo bombom durante a aula da Pós, para amenizar minha TPM… tantas recordações… medalhas, páginas de jornais, entrevistas, prêmios… Há ainda papéis que são lembranças do que já não existe, como o embrulho de balas cujo sabor é inesquecível, passagens de ônibus com valores que beiram o surrealismo na cotação atual, de tão baratos. Cartões fidelidade de supermercados. Minha primeira viagem de avião. O recibo do primeiro aluguel da vida. A primeira compra na Italia. Camisas assinadas por todos das turmas, sempre ao final de cada série. Declarações de amizade de coleguinhas que não sei nem por onde andam. Cartas que se desenrolam em mais de um metro de papel, simbólicas entre as meninas da minha época. Elos atemporais. Bilhetes de museus. Fotografias 3×4. Polaroids, negativos, fotos 10×15, autógrafos de celebridades. Ingressos de cinema cuja tinta já impossibilita dizer de qual filme se trata – e quando. Provas de que o tempo passa deixando marcas, e que, elas mesmas se modificam. Aqui, nas cartinhas, a felicidade me espera, e me arranca lágrimas e risadas, sempre.

    Eu amo a vida que eu construi e as memórias que me construíram. Minhas lágrimas, percalços, dores, conquistas, fundos do poço, reconquistas. Meus erros, que eram primeiros passos em outras direções. Meu passado, amo-te, como amo meus livros! Biblioteca eternamente ao alcance do coração, que me empodera de mim mesma, me lembra que os meus dons são importantes – e não permite que se percam. Lanterna mágica a iluminar os momentos obscuros da estrada que percorro sozinha, de buracos e belezas necessárias.

    Um barulho irrompe pelos vidros, vibrantes e fechados das portas-janelas; sombras de serpentinas e confetes imaginários. Minha folia de 2025 não tem espaço para alegorias e adereços; fantasiei-me das minhas profundidades. Embriaguei-me dos meus sentimentos mais verdadeiros. Fiz picnic com novos amigos, abracei os de sempre, tomei vinho com cartas fresquinhas e chorei com amigos inesperados. Não preciso das fuligens, assim como carnavais não precisam de fins. Como trunfo, posso pedir reforço a querida salvadora, ocasionalmente a postos com os materiais de limpeza. Meus planos são outros, percorrem calendários e sites de viagens. Há sempre o amanhã. Há sempre recursos. E há de existir sempre uma Bia por aqui, como um você, para você, com você, por você. Eu me permito ser meu eterno e original carnaval sem quartas-feiras de cinzas.

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