O poema
necessita de um outro
poema
assim como o poeta
necessita
de uma con/vivência poética.
Os versos
não nascem do nada
assim, exclusivamente,
inspiração.
A noite
precede o sopro lírico
e ambos se integram
ao poema acabado.
O poeta,
este ser solitário,
desce das montanhas
de seus sonhos
para recolher os fragmentos
da realidade dos homens,
e com eles constrói no poema
uma unidade hipotética.
O Acaso das Manhãs
O Acaso das Manhãs
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Poema #84: A Solidão e o Poema
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Poema #73: Valpurgis
A inquietação daquela noite
levou-me ao extremo de deixar a cama
em pleno delírio da febre sem causa
que me acometia desde há muito.Nunca em meus transportes noturnos,
que eram então muito frequentes,
eu havia experimentado essa ânsia de fuga
que só se compara à de uma suicida na ponte.Corri como que alucinado fantasma
até o porão da casa onde a umidade
havia impregnado as paredes de morte,
e peguei no baú o espelho quebrado.A chuva era intensa e os relâmpagos
cortavam a estrada barrenta ao norte,
para a qual fui levado rumo ao destino
que o maldito espelho me reservara.O cemitério estava deserto e escuro
mas havia um rumor quase que imperceptível
entre as catacumbas, abertas na véspera
para o desfecho insólito da profecia.Então eu pude sentir os murmúrios
daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
cujos aspectos de decomposição física
acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.Ali, em meio à tempestade de abril,
o espelho quebrado que eu encontrara
junto aos aposentos da velha inquilina,
emitiu em reverberações estranhas e malignas
um brilho intenso que me cegou os olhos.Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
sou conduzido para o rito anual de bruxaria.O Acaso das Manhãs
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Poema #72: Um momento… todos os momentos
Um momento cristalizou
todos os outros momentos
de espera e indagação.
Um momento trouxe à tona
todos os outros momentos
de sublimação dissimulada.
Um momento estabeleceu o paradoxo
de todos os outros momentos
entre o que se quer concretamente
e o que se assume perante a consciência
para fugir do inevitável.
Um momento levantou questões
de todos os outros momentos
dos quais buscava-se o refúgio
na indiferença e no não-sinto.
Um momento mostrou claramente
aquilo que os outros momentos,
todos eles, deixavam transparecer.
Um momento revelou o arrependimento
por todos os outros momentos, e, no entanto,
esse próprio momento foi abjurado
diante do não-poder.
Um momento trouxe consigo a culpa
de se ter detonado a bomba existente
e oculta de todos os outros momentos.
Um momento revelou o medo de como-ser
nos momentos que virão, contudo
veio a certeza de que não será
como foram todos os outros momentos.
Um momento levou com ele
todas as certezas anteriores,
e agora a dúvida se generalizou
diante do entrelaçamento de valores
de todos os outros momentos.
Um momento exigiu a coragem de encará-lo
e avaliar o que de perdido ficou
em todos os outros momentos.
Um momento deixou claro que também ele
deveria ter sido evitado, como o foram
todos os outros momentos.
Pois na medida em que aconteceu
despertou coisas novas
que não se poderia ter descoberto,
uma vez que depois de o ter feito
ficou implícita a necessidade de conduzir
o que iniciado foi; mas que é escusado
perante conceitos e medos tradicionais
que, em última análise, determinaram o afastamento
característico de todos os outros momentos.
Um momento e a vida estancou de repente
tornando difícil todos os outros momentos
sem aquele em que houve a revelação e a descoberta
de um prisma novo e em si mesmo fascinante.O Acaso das Manhãs
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Poema #70: Trágica & Cômico
A cada dia vai-se diminuindo
o meu espaço vital.
Isto porque quando comecei a sentir-me
parte integrante do mundo
eu já havia sido expulso do mundo.
Toda uma vida
todo um aprendizado
adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
é tão somente de conhecimento meu próprio.
Só eu sei dos mecanismos mentais
que implicam em cada gesto
em cada palavra
que ensaiando digo às paredes
que ainda não foram construídas.
Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
na qual sou o único personagem,
e o teatro em que represento
não é frequentado pelos homens
e está prestes a se desabar sobre.O Acaso das Manhãs
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Poema #67: Saldo
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo o meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.O Acaso das Manhãs