O Acaso das Manhãs

  • Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noite
    levou-me ao extremo de deixar a cama
    em pleno delírio da febre sem causa
    que me acometia desde há muito.

    Nunca em meus transportes noturnos,
    que eram então muito frequentes,
    eu havia experimentado essa ânsia de fuga
    que só se compara à de uma suicida na ponte.

    Corri como que alucinado fantasma
    até o porão da casa onde a umidade
    havia impregnado as paredes de morte,
    e peguei no baú o espelho quebrado.

    A chuva era intensa e os relâmpagos
    cortavam a estrada barrenta ao norte,
    para a qual fui levado rumo ao destino
    que o maldito espelho me reservara.

    O cemitério estava deserto e escuro
    mas havia um rumor quase que imperceptível
    entre as catacumbas, abertas na véspera
    para o desfecho insólito da profecia.

    Então eu pude sentir os murmúrios
    daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
    cujos aspectos de decomposição física
    acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.

    Ali, em meio à tempestade de abril,
    o espelho quebrado que eu encontrara
    junto aos aposentos da velha inquilina,
    emitiu em reverberações estranhas e malignas
    um brilho intenso que me cegou os olhos.

    Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
    e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
    Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
    sou conduzido para o rito anual de bruxaria.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #72: Um momento… todos os momentos

    Um momento cristalizou
    todos os outros momentos
    de espera e indagação.
    Um momento trouxe à tona
    todos os outros momentos
    de sublimação dissimulada.
    Um momento estabeleceu o paradoxo
    de todos os outros momentos
    entre o que se quer concretamente
    e o que se assume perante a consciência
    para fugir do inevitável.
    Um momento levantou questões
    de todos os outros momentos
    dos quais buscava-se o refúgio
    na indiferença e no não-sinto.
    Um momento mostrou claramente
    aquilo que os outros momentos,
    todos eles, deixavam transparecer.
    Um momento revelou o arrependimento
    por todos os outros momentos, e, no entanto,
    esse próprio momento foi abjurado
    diante do não-poder.
    Um momento trouxe consigo a culpa
    de se ter detonado a bomba existente
    e oculta de todos os outros momentos.
    Um momento revelou o medo de como-ser
    nos momentos que virão, contudo
    veio a certeza de que não será
    como foram todos os outros momentos.
    Um momento levou com ele
    todas as certezas anteriores,
    e agora a dúvida se generalizou
    diante do entrelaçamento de valores
    de todos os outros momentos.
    Um momento exigiu a coragem de encará-lo
    e avaliar o que de perdido ficou
    em todos os outros momentos.
    Um momento deixou claro que também ele
    deveria ter sido evitado, como o foram
    todos os outros momentos.
    Pois na medida em que aconteceu
    despertou coisas novas
    que não se poderia ter descoberto,
    uma vez que depois de o ter feito
    ficou implícita a necessidade de conduzir
    o que iniciado foi; mas que é escusado
    perante conceitos e medos tradicionais
    que, em última análise, determinaram o afastamento
    característico de todos os outros momentos.
    Um momento e a vida estancou de repente
    tornando difícil todos os outros momentos
    sem aquele em que houve a revelação e a descoberta
    de um prisma novo e em si mesmo fascinante.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #70: Trágica & Cômico

    A cada dia vai-se diminuindo
    o meu espaço vital.
    Isto porque quando comecei a sentir-me
    parte integrante do mundo
    eu já havia sido expulso do mundo.
    Toda uma vida
    todo um aprendizado
    adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
    é tão somente de conhecimento meu próprio.
    Só eu sei dos mecanismos mentais
    que implicam em cada gesto
    em cada palavra
    que ensaiando digo às paredes
    que ainda não foram construídas.
    Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
    na qual sou o único personagem,
    e o teatro em que represento
    não é frequentado pelos homens
    e está prestes a se desabar sobre.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #67: Saldo

    De cotidianos resíduos
    arrancados na solidão de prisioneiro
    em que todo o meu ser se devora,
    tento compor uma imagem humana
    que me faça aceitável a mim mesmo.

    No silêncio da morte aparente
    na qual me recolho ao túmulo previsto
    não sei com que ânsia mórbida de calma,
    procuro juntar os cacos de culpa diária
    que reunidos formam um apelo ao suicídio.

    E não é só o remorso das manhãs doentias
    pelo que na noite se desfez em delírios
    de humana fraqueza cansada de si mesma,
    é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
    e lançar no cômputo geral das misérias minhas.

    De cotidianos resíduos
    recolhidos no isolamento mental de indivíduo
    em que todo o meu ser se liberta,
    tento compor uma imagem poética
    que se faça de ideias e despreze a vida.

    O Acaso das Manhãs

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