Eu sei que eu mereço
(embora talvez eu não venha a
ter) o meu nome num nome de rua.
Eu sei que eu mereço
uma estátua de bronze
na praça de Ervália.
Eu sei que eu mereço
denominar a Casa da
Cultura como o poeta que sou.
Eu sei que eu mereço
casar com uma mulher
negra, que é o meu sonho
de consumo.
Eu sei que eu mereço
ter um aumento de salário
para poder sobreviver.
Eu sei que eu mereço
ganhar um prêmio literário
para pagar as dívidas.
Eu sei que eu mereço
pescar um peixe grande
nas águas do tanque.
Eu sei que eu mereço
nadar como quem voa
pelos céus de outro país.
Eu sei que eu mereço
cavalgar uma égua
enfiando o dedo no seu cu,
para ela andar depressa.
Eu sei que eu mereço
empinar uma pipa gigante
que nunca será alcançada.
Eu sei que eu mereço
formar uma banda de rock
e fazer muito sucesso.
Eu sei que eu mereço
ser aclamado e lido como
nunca antes na história
deste país.
Eu sei que eu mereço
receber uma homenagem
de adeus e logo ser esquecido.
Eu sei que eu mereço
uma catacumba digna
para descansar os meus ossos.
Eu sei que eu mereço
tudo isso, mas desconfio
que não terei nada.
O Jardim Simultâneo