O Mito de Sísifo

  • Sem caminho

    Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam. Esconder o motivo pelo qual se chega ao “gesto extremo” aumenta-lhe o enigma e a dramaticidade. Talvez seja a atitude mais coerente, pois não há por que justificar um ato que se explica por si mesmo. Além disso, como acreditar nas razões dos suicidas? Até que ponto eles são capazes de avaliar com lucidez o seu ato? 

    Alguns deixam bilhetes ou cartas se desculpando (o que é curioso, pois se o suicida deve pedir desculpas a alguém é a ele próprio). Esses textos são no fundo um tardio pedido de ajuda ou uma forma de incriminação.

    Há os que se matam para ficar “mais vivos”. Foi o caso de Getúlio Vargas, que antes de atirar no coração deixou uma carta com a frase célebre: “Saio da vida para entrar na História”. Ele tinha consciência de como o seu papel na vida pública foi aos poucos se denegrindo. O único jeito de restabelecer a imagem era com um gesto que representasse um sacrifício extremo. E qual soaria melhor do que tirar a própria vida?

    O bilhete deixado por Flávio Migliaccio, que há alguns anos tirou a própria vida, não continha um pedido de desculpas. Tampouco valia como uma incriminação, pois ele se referia ao caos político do País e não acusava especificamente ninguém. Sua acusação se direcionava à humanidade, que “não tinha dado certo”.

    O curioso é que, quando alguém diz que não aguenta mais a humanidade, raramente está disposto a se subtrair ao convívio com os outros (o que seria a consequência lógica). Está na verdade clamando, ainda que inconscientemente, para ser resgatado pela humanidade que diz desprezar. Muitas vezes se usa o “desencanto com a humanidade” como um escudo, uma camada intelectual ou cínica que protege o sujeito da angústia mais crua e intransferível, que é o confronto com o próprio vazio. É muito mais fácil alguém dizer “o mundo é um lugar terrível” do que admitir que não encontra um sentido em si mesmo. Criticar a sociedade, a política ou a moralidade alheia é, muitas vezes, uma forma de evitar olhar para dentro de si.

    Albert Camus, em O Mito de Sísifo, coloca o suicídio como a única questão filosófica verdadeiramente séria. Para ele, o absurdo nasce do confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio irracional do mundo. A superação, segundo Camus, estaria não em fugir, mas em aceitar o absurdo e continuar “empurrando a pedra”.

    Concordo com que a humanidade “não vem se acertando” (e nada garante que ela um dia se acerte), mas não sei se há quem se mate por estar desencantado com ela. O desencanto – por decepção, dor ou cansaço – é sobretudo consigo mesmo. Dostoiévski, em “Crime e castigo”, escreve que para viver o homem precisa sentir que vai a algum lugar. O suicida é alguém que chega à dolorosa constatação de que não tem mais para onde ir. Ou porque não há mais caminho, ou porque, havendo, ele já não tem saúde ou disposição para percorrê-lo.

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