O outro pé da meia

  • O outro pé da meia

    Noite fria, escura.
    Abre a portinhola. A roda gira.
    De cabeça coberta, estica os olhos para os dois lados sem virar o rosto.
    Ninguém à vista. Por um momento titubeia. Mas já está feito. Não há volta.
    Segue em passadas trôpegas seu caminho.

    ****

    Sentindo um ardor na boca do estômago, Stefano serviu-se de uma caneca grande de café, entrou no quarto e fechou a porta. Permaneceu alguns minutos diante da janela, até que o calor da bebida agasalhasse um pouco o coração encaramujado.

    Era hora de arrumar a mala. Organizar o que levar e o que deixar para trás. Partiria em busca de um elo capaz de aproximar passado, presente e futuro — distante das referências e afetos acumulados ao longo dos vinte anos de existência.

    Sentou-se diante da escrivaninha e abriu uma gaveta há muito esquecida. Foi retirando os guardados, um a um: fotografias do primeiro dia de aula, do campeonato de futebol, dos pais cantando parabéns em seu aniversário de dez anos.

    Cartões-postais da primeira viagem com os amigos. O recorte de jornal com seu nome grifado entre os aprovados no vestibular. Sorriu ao encontrar as bolas de gude, tesouro absoluto das disputas de caçapinha.

    O primeiro exemplar do Achados e Perdidos, que colecionava avidamente.

    Folheou também o álbum da Copa de dois mil e quatorze, completo graças à generosidade dos pais, que lhe compravam pacotes e mais pacotes de figurinhas.

    Foi tomado por uma ternura funda ao pensar nos dois.

    Continuando a escavação, encontrou no fundo da gaveta uma meinha azul-clara de bebê. Ficou olhando para ela, tentando entender como fora parar ali.

    Nunca a tinha visto antes. Um pé só. Aquilo parecia guardar um recado. Por instinto, colocou a meinha na mala.

    Algo lhe dizia que aquele pequeno pedaço de pano tinha relação com sua chegada ao mundo — e com o pouco que conseguira compreender da revelação feita pelos pais adotivos. Depois do acidente que lhes tirara a vida, tudo acontecera rápido demais. Restaram apenas fragmentos: Itália, Finestra, esperança.

    Decidira partir em busca dessa Finestra. As perguntas martelavam em sua cabeça exausta pela noite em claro: onde, como, por quem procurar?

    Ainda aturdido, deitou-se na tentativa inútil de descansar antes da jornada que começaria na manhã seguinte.

    ****

    Tarde ensolarada em Milão.

    Sentada na varanda do apartamento, absorta em pensamentos, Angela não percebeu a chegada do marido. Havia tomado uma decisão e precisava compartilhá-la com aquele que, havia dez anos, a acolhera sem perguntas, cuidara de suas feridas e amara até os silêncios.

    Chamou Domenico para o café recém-passado, ritual das tardes de sábado.

    Procurou abrigo em seus braços e deixou que a memória vagasse pelo tempo.

    A cabeça escondida no casaco de lã abafava os soluços e turvava a lembrança daquela noite distante em que se virou e partiu.

    No abraço do marido afogava a própria história: a miséria do corpo desnutrido, os seios secos, a penúria do abandono familiar. O remorso que nunca cicatrizou. A ausência que permanecia acesa, silenciosa, à espreita dos dias.

    Assim ficaram por algum tempo, quietos, até que as palavras finalmente transbordassem.

    Contou-lhe que decidira voltar a Milão, à Finestra da Esperança. Lá deixaria seu nome, o endereço onde agora vivia e um pé da meinha azul.

    Roda a roda da esperança: que algum dia o outro pé daquela meinha encontrasse o caminho de volta.

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