Da onda ao pé da praia,
recolho as relíquias do mar:
sigilo
deslumbrante encanto
pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.
Preservo meus amuletos.
Quisera crer somente na força
das águas que os trouxeram,
banhados em luz e sal,
sutil religação do corpo ao mistério.
Algo estranho, porém, corta
minhas mãos, meus pés.
Fio afiado de faca
cravado nas costas da mansidão.
Em vão vasculho a areia:
misericórdia amor tolerância
estão enterrados tão fundo
que sequer a mais teimosa esperança
pode trazê-los à tona.
Os detritos e os dejetos
de uma deturpada devoção
soterram sem piedade
o que um dia foi oferenda.