OMS

  • Módicos Médicos

    A discussão em torno da presença de médicos cubanos no Programa Mais Médicos, alvo de retaliações do governo americano sob a alegação de que se encontrariam sob “regime escravo” e a serviço de uma ditadura, é um exemplo infeliz de como o clima de debate ideológico contamina até programas sociais que mereciam uma análise isenta e menos apaixonada.

    Para os apoiadores brasileiros de Trump, por ter sido instituído durante a gestão Dilma e por abranger profissionais originários da ‘execrável’ pátria de Fidel, o programa padece de um pecado original irreparável. Os ‘doutores’ seriam na verdade perigosos agentes infiltrados dedicados a expandir os tentáculos do comunismo internacional.

    Em meio a esse transcendente embate epistêmico-doutrinário, submeto uma banal questão: “A presença de médicos cubanos no programa está dando bons frutos?” Pelo que me informei de fontes fidedignas, os resultados têm sido bons. Se não por outra razão, uma oportunidade única de levar profissionais da saúde a regiões carentes.

    Os cubanos (que representam 10% do total dos médicos do programa), muitos portadores de cidadania brasileira, estão diligentemente cumprindo a missão de promover assistência a tais áreas, propiciando êxito ao programa. Seu objetivo não é fomentar doutrinação marxista. Os coitados emigraram ao Brasil com um objetivo bem mais despretensioso (mas não menos ‘revolucionário’): prestar auxílio clínico a pessoas necessitadas. Não prescrevem panfletos incitando a revolução, apenas receitas de medicamentos e xaropes. São ‘módicos médicos’.

    Por mais que resistamos em admitir, a medicina em Cuba é bastante avançada, e sua excelência é internacionalmente reconhecida, até pela OMS. Deveria ser um privilégio contar com pessoas com boa formação prestando auxílio suplementar a um país que conta com um médico para cada 400 habitantes.

    Considere-se ainda que tais profissionais, em troca de um salário líquido de 12 mil reais, são conduzidos aos mais longínquos rincões, aos quais os ‘filhinhos de papai’, formados nas boas (e caras) faculdades de Medicina, recusam-se a atender, preferindo cuidar de madames hipocondríacas nas regiões nobres das grandes cidades.

    Em 12 anos de vigência do programa com milhares de profissionais atuantes, não se tem notícia de um caso notório sequer envolvendo negligência ou falta grave no atendimento. Deveríamos nos preocupar isso sim com os recorrentes casos de pessoas não habilitadas praticando cirurgias plásticas mal sucedidas em dondocas narcisistas ou com as centenas de casos de pacientes esquecidos em filas de espera de hospitais públicos, à espera de médicos displicentes que não cumprem o horário.

    O programa Mais Médicos tem atendido com louvor aos propósitos dos países signatários. Serve a Cuba que tem a possibilidade de empregar profissionais formados em suas faculdades de Medicina, obtendo uma remuneração adequada para os padrões daquele país. E serve ao Brasil que consegue oferecer serviços de saúde a populações abandonadas pelo poder público. Não há qualquer razão plausível para rever esse acordo, benéfico a ambas as partes.

    Milhões de brasileiros seriam prejudicados pela saída desses médicos. São pessoas simples de comunidades afastadas que sentirão saudades dos cubanos.  Não sabem onde fica o Caribe e não entendem nada de política. Se privados do atendimento, talvez comecem a pensar a respeito.

    Talvez se fizesse melhor se, ao invés de questionar a presença desses humildes profissionais que estão exercendo uma relevante função social, empenhasse-se em nos livrar de políticos cuja ausência ninguém iria notar, a não ser pela melhora na situação das contas públicas.

    Somos vítimas de uma incurável epidemia de insensatez. Deve haver realmente algo muito doente nesse país insano que assiste impotente à evasão de milhares de cérebros privilegiados em busca de melhores condições de trabalho no exterior, enquanto discute dispensar serviços de médicos apenas por sua nacionalidade.

  • Preconceitos repetidos!

    O que vamos fazer com um mundo devastado depois da pandemia, já que a Organização Mundial da Saúde decretou o fim da emergência sanitária da Covid-19.

    Vamos reconstruir ou renascer nossos sentimentos saudosos por tudo e todos que perdemos?

    O que mais pesa é a decência na busca pelo respeito aos que sobreviveram e são o nosso presente, com frequente marca na construção do futuro, que em breve instante bate na sua porta quase sempre encostada.

    Preconceito e arrogância podem matar lentamente, e ainda não temos vacina contra isso para colocar no braço, somente na cabeça teimosa, que mantém a batida das palavras maldosas disponíveis num cardápio de ofertas.

    A Gordofobia, o machismo, o abuso sexual, a pedofilia, a transfobia, a homofobia, o feminicídio, e se me falhou a memória em citar outra psicopatia cotidiana não foi proposital ou preconceituosa, talvez eu não esteja preparado para colaborar da melhor forma com a lista dos que fazem parte desse grupo de iguais na dor. 

    Por vezes ouço olhos me fitando com suas lástimas em viver com medo da próxima experiência ruim. 

    Não me ausento na busca de argumentos para defender ou abrigar os que pisam inseguros na mesma calçada comum a todos, porém, recortada pelo comentário fiel à injustiça social. 

    Temo que seja tarde ou em vão meus esforços devido ao gigantismo frequente da luta descabida, descrita diariamente pelos doídos. 

    Parece que necessitamos recomeçar frequentemente esse tema, como a cultura no Brasil que sempre volta para o final da fila, porque sua sina é a adversidade permanente, e na reconstrução de si, retorna trilhar os mesmos caminhos de outrora.

    Cornel West, físico, escritor, crítico social, defensor dos direitos humanos, atribui a maioria dos problemas da comunidade negra à angústia existencial derivada da experiência vivida de feridas ontológicas e cicatrizes emocionais profundas, infligidas ao longo de muitas gerações. 

    O racismo faz parte da lista mencionada, e necessita ser banido de nossa sociedade porque permanece causando dor e lágrimas injustas e descabidas. 

    Os estímulos de curto prazo e a euforia instantânea superam as relações sólidas e a essência da comunidade. 

    Movimentos partidos de cidadãos conscientes têm mais força social, que eventos avulsos não recorrentes com base fragilizada. 

    Nessa validação densa de mudança no comportamento estamos nós, que devemos esse compromisso social aos nossos iguais.

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