ou Lane

  • INVISÍVEIS

    Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez.

    Toda manhã parece se repetir. Escova os dentes antes e depois do café, come seu pão esquentado na torradeira e bebe de um gole o leite gelado sem açúcar. Quando não há pão, se vira com biscoitos.

    A rotina se repete como um ritual insondável e cada amanhecer traz os mesmos rumos e planejamentos. Enquanto acaba de se arrumar para sair, pensa nas tantas vezes em que sua existência se confunde com o próprio ato de seguir automaticamente.

    No caminho para pegar o ônibus e ir ao trabalho – Lane é diarista – ela reflete como a vida é difícil e, por vezes, sem sentido. Cuida da casa dos outros, tira o pó dos móveis, varre e passa aspirador, lava a louça acumulada, troca as roupas de cama, limpa banheiros e desentope ralos e pias. Pequenas ações que exigem uma vigilância constante, quase mecanizada. Lane sempre teve mania de limpeza.

    O curioso é que não tem quase tempo para si. Sua mania de limpeza termina assim que chega em casa. Se comparada com os apartamentos das madames onde trabalha, a sua moradia parece um local deixado de lado e malconservado. O cansaço justifica seu desleixo.

    Ocasionalmente, pensa desistir. Todo dia é a mesma droga. Mora afastado e pega um ônibus que leva em torno de uma hora e meia. Isso se não houver trânsito. Durante o trajeto, dentro do coletivo, geralmente em pé e espremida com outros passageiros, Lane se pergunta se o resultado do seu esforço é feito para ser invisível. O olhar cansado, os gestos repetidos, a paciência infinita, tudo transformado em banal.

    A maioria de suas patroas, com certeza, não saberia viver sem sua ajuda. Ela, no entanto, começa a perceber a condição de invisibilidade do seu trabalho.

    E se não fosse ela para arrumar a casa, ordenar as coisas, fazer as compras no supermercado, até servir de psicóloga para ouvir as queixas e lamentações das madames? As ações de Lane nunca são reconhecidas e ela, sem rancor, aparenta se resignar.

    À noite, logo que chega, toma seu banho. Chuveiro elétrico. Lane não costuma usar o chuveiro nas casas onde trabalha. Questão de princípios, que ela nem sabe a razão. Talvez cerimônia. De roupa de dormir, vai à cozinha e prepara uma xícara de chá, que fumega como um prêmio secreto. Ali, no instante em que o mundo se aquieta, ela se reconhece como uma pessoa que tem a percepção da sua própria invisibilidade, entre silêncios e coisas triviais. Reside aí um certo orgulho velado. A xícara de chá funciona como uma metáfora de recompensa e reconhecimento pessoal. Nesses raros momentos, Lane pressente que pode haver alguma poesia no ordinário.

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