Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escuro e arriscado; há bastante consumo de droga e malfeitos, como pequenos furtos. Melhor não dar sorte para o azar. Tenho evitado visitar a minha mãe, que mora num bairro próximo, porque ambos os lados não estão para brincadeira. Antes de comprar o imóvel, conversei com uma porrada de amigos, e eles foram unânimes em dizer que não era uma boa; que, para chegar num bairro assim, do nada, deveria ter contato com alguns moradores, para ser protegido. Pequei, como sempre peco, com a minha ansiedade, com a minha vontade acaçapante. Sou um cara impulsivo, devo admitir. Já entrei em algumas roubadas, fazendo negócios escusos, não por minha culpa (achava que tudo isso era normal), mas porque era influenciado para ganhar dinheiro fácil vendendo motos adulteradas. Felizmente nunca fui pego pela polícia. Saí do ramo quando Roberval foi preso, por receptação de moto roubada. O pobre do meu amigo comeu o pato sozinho, e senti uma sensação forte de me entregar, mas não consegui pela covardia, e porque pensei nos meus filhos e na minha esposa. Voltando à nova morada, quando cheguei aqui, Nikita só me olhava atravessado, botando a mão no cós das calças, dando a “sugesta” de estar armado. Ele me colocava no outro extremo do bairro, como se me enxotasse só no olhar; sentia ódio a mim. Sei que Nikita é um velho policial, com fama de matador – Leozinho me informou com detalhes, e eu fiquei cabreiro por dias, sem dormir direito, porque o cara é, além de mau, frio. Depois da pandemia e da aposentadoria, o dito cujo montou uma bodega, mas nunca pisei lá, claro – e nem pisaria nas minhas piores necessidades. Sei que o sujeito não gosta de mim, não quero afrontar. Ainda fico matutando pra saber o que eu fiz para ser perseguido. Leozinho, meu vizinho, diz que “eu tenho as coisas”, carro, moto, e o velho é invejoso. Além do mais, o que me dá medo, é que parece ser metido em milícia e quer ser o dono do bairro. Segundo Leozinho, volta e meia ele cobra uma cota de “segurança” do bairro – ainda não fui atingido. Vou me adiantar e pegar o beco, antes que seja tarde demais. Terei de vender a casa, que ainda estou pagando. Era meu sonho ter uma casinha como a minha. Não posso botar a vida da minha família em risco. Devia ter averiguado essas coisas antes, mas não conhecia ninguém aqui. O fracasso é a pior das sensações. Estou sendo, veladamente, mandado embora, sob o risco de perder a vida. Melhor sair e viver em paz.