Pilates

  • Dia do fico

    Toda segunda e quarta é dia de lutar por melhores condições de vida no futuro: dia de pilates. A motivação que me leva até lá, semanalmente, é equivalente ao ânimo de comprar um produto que não sei se chegará ao destino ou se terei tempo de desfrutar, mas compro por desencargo de consciência (vai que preciso…).

    Sigo o fluxo, sempre em frente, na busca de um envelhecimento ativo e saudável ainda que, naquela sala cheia de molas, pesos e caneleiras, eu encare a face sádica do tempo.

    Dona G chega acompanhada do marido. Passos miúdos, andar cambaleante de um corpo que teima em não aceitar comandos, nem os dela.

    Olhos de um verde aceso bailam sem rumo pelo espaço. O sorriso ingênuo grudado nos lábios delata a persistência de uma alegria que não se justifica mais. Tudo ali é passado.

    Presente só o silêncio do amanhã.

    A professora, pacientemente, explica os exercícios para Dona G. Suas palavras caem na cabeça da querida senhora feito chuva que não se espera.

    Fico ali a me perguntar: qual o sentido de tudo isso? No lugar dela, eu escolheria continuar cuidando de um corpo que me traiu de forma tão falsa ou gastaria meus dias sentada numa varanda, admirando, sem culpa, a natureza?

    A questão retorna com a dor de um haltere caindo no dedão do pé: qual o sentido de tudo isso?

    Não sei. Talvez a vida careça de um sentido inventado. Ou só seja possível vivê-la em estado de pura abstração. 

  • Sobre ontem

    Contrariada, acordei às 6h da manhã. Hoje é dia de Pilates e caminhada. Pensei em esbravejar, dizer o quanto eu odeio esse compromisso com o bem viver, mas melhor não.

    Faz tempo que aceitei que atividade física é remédio. Não importa se o gosto é ruim, se a drágea é muito grande, engole! Também cansei da cobrança de encontrar um exercício que me desse prazer, já fiz muito esforço para achar um amor, a empreitada é inglória. Então, me troquei e fui. 

    Na volta da caminhada, num calor de furar o saco da paciência, decidi passar na padaria para comprar um picolé Magnum. Adentrei no recinto e me lembrei da dieta que prometi começar hoje. Adio o projeto por mais um dia? Talvez não seja tão complicado, tenho adiado há 50 anos… não, melhor não. Perderia muito da minha admiração por mim. Preciso ter palavra. Me prometi ser mais honesta comigo. Quem sabe um picolé de fruta? Com certeza, é menos calórico que o Magnum. Não, melhor ficar sem nada do que aceitar remendas no desejo. 

    Superado! Hoje tem o meu programa favorito na tevê. É por ele que aguardo e me motivo a seguir em frente. 

    O tempo dança com os ponteiros do relógio de parede, enquanto espera o fim do meu expediente.

    Tomo um banho caprichado feito quem se prepara para a festa. Lanço mão do pijama preferido. Ligo a tevê, o ar, sim, mereço, nada de mesquinharias. Faço a pipoca, salgada, porque fiz promessa de ficar sem açúcar até o carnaval. Me estico no sofá. Mereço! Começa o programa. Um estrondo anuncia o fim da atividade laboral de um transformador. Acaba a luz. Breu. Da varanda, vejo uma tevê acesa no prédio em frente. 

    Será que o morador reconhece a sorte de estar naquele prédio, naquela sala, naquele momento? Será que assiste ao meu programa ou foi vencido pelo sono e dorme sem saber do seu privilégio? 

    Espero. Espero. Escrevo a crônica. O sono chega. A chuva leva para longe a irritação.

    Em algum lugar alguém deseja esse silêncio, esse tempo, essa chance de pensar no amanhã como possibilidade. 


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