Poema

  • #13 – PROGRAMA NOTURNO

    No silêncio sepulcral desta noite
    abro a janela
    e recebo a visita do demônio.
    Juntos travamos um pequeno diálogo
    acerca da destruição do mundo.

    Depois percorremos os cemitérios
    e os ninhos dos pássaros agourentos,
    respiramos o hálito da morte
    e compactuamos da miséria dos homens.

    A noite era fria e indiferente
    aos nossos propósitos de celebração.
    Com dedos trêmulos cavamos o altar
    de nosso macabro ritual.

    Antes, porém do sacrifício final
    fomos resgatar a memória dos corpos
    e garantir a permanência dos zumbis
    sobre a face andrajosa do planeta.

    Abrimos um caixão e uma brisa vaporosa,
    que era ao mesmo tempo fúnebre e sensual,
    despertou nossos instintos de espécie
    e pouco depois e para sempre estava
    consumado o ato lascivo e sagrado.

    Chegamos depois ao altar fatídico,
    e sob asquerosos protestos de ódio
    à vida social e fútil dos vivos,
    pegamos os punhais do sacrifício
    e nos entregamos ao suplício eterno.

    O Acaso das Manhãs

  • #10 – TECNO-POEMA

    .

    – Fala o poeta de vanguarda:
    A estrutura do verso
    está invertida
    em meu caleidoscópio.
    Preciso de uma máquina
    rápida e perfeita para
    fazer uma circuncisão mental:
    “Quero que a estrofe
    gravada ao jeito
    do vídeo cassete
    saia nítida,
    sem um defeito”.

    – Fala a crítica especializada:
    A infraestrutura do verso
    está evoluída
    em meu laboratório.
    Preciso de um computador
    rarefeito e sem defeito
    para efeito de análise poética:
    “O crítico é um digitador,
    digita tão completamente
    que chega a digitar a dor,
    a dor que sua mãe sente”.

    – Fala o homem pensante:
    A superestrutura dos acima
    está equivocada
    em minha concepção histórica.
    Preciso de uma filosofia
    autêntica e própria agora
    para escrever um poema-amostra:
    “A sombra projetada de um homem
    exclui o mecanismo da repetição alheia,
    pois a condição intrínseca dele mesmo
    exige que seu poema se faça de ideias
    e despreze a vida enquanto justificativa
    para o erro de se caminhar junto ao tempo”.

    – Fala um observador imparcial:
    Poesia significa
    abrir caminho para o abismo
    e pedir que nos devolvam
    o nosso sonho antiatômico.

    O Acaso das Manhãs

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