Poema #05: Procura dos sentidos

  • Poema #05: Procura dos sentidos

    Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
    custei a compreender que o farol era oco.
    Lançam-se às ondas os que não veem.
    Os olhos,
    mal acostumados à claridade nua,
    não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
    Perfil de muitos rostos
    ou nenhum.

    Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
    As letras,
    maiúsculas e resolutas,
    marcham e cantam
    cantam e marcham
    em fileiras que se entrelaçam e colidem

    até se emaranhar em mil espinhos
    aptos a ensurdecer o toque.
    O ruído das opiniões encarece o silêncio.

    Mas não há trégua.
    A pele sem pausa se arrepia
    ao cheiro que escorre das redes.
    Pouco se aproveita da pescaria.
    Aqui uma lesma
    ali uma pedra
    o resto é areia
    que os dedos espalham até perder as digitais.

    Melhor seria se recendesse a sal.
    Na disputa amarga das fragrâncias,
    ao nariz resta a fratura.
    E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
    impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.

    A língua não quer assepsia.
    Tampouco a visão da terra firme.
    Temperos novos
    híbridos
    em vão buscam os lábios que os perseguem.
    O encontro jamais consumado
    afinal se junta ao rol das coisas que,
    embora não devoradas,
    consomem.
    Qual apetite desaparecido.

    Despojado enfim de todos os sentidos
    o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
    Sonâmbulo entre sonâmbulos
    pisoteia bússolas e dicionários

    enquanto flana
    em meio à multidão da praia deserta.

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