Poema #72: Um momento… todos os momentos

  • Poema #72: Um momento… todos os momentos

    Um momento cristalizou
    todos os outros momentos
    de espera e indagação.
    Um momento trouxe à tona
    todos os outros momentos
    de sublimação dissimulada.
    Um momento estabeleceu o paradoxo
    de todos os outros momentos
    entre o que se quer concretamente
    e o que se assume perante a consciência
    para fugir do inevitável.
    Um momento levantou questões
    de todos os outros momentos
    dos quais buscava-se o refúgio
    na indiferença e no não-sinto.
    Um momento mostrou claramente
    aquilo que os outros momentos,
    todos eles, deixavam transparecer.
    Um momento revelou o arrependimento
    por todos os outros momentos, e, no entanto,
    esse próprio momento foi abjurado
    diante do não-poder.
    Um momento trouxe consigo a culpa
    de se ter detonado a bomba existente
    e oculta de todos os outros momentos.
    Um momento revelou o medo de como-ser
    nos momentos que virão, contudo
    veio a certeza de que não será

    como foram todos os outros momentos.
    Um momento levou com ele
    todas as certezas anteriores,
    e agora a dúvida se generalizou
    diante do entrelaçamento de valores
    de todos os outros momentos.
    Um momento exigiu a coragem de encará-lo
    e avaliar o que de perdido ficou
    em todos os outros momentos.
    Um momento deixou claro que também ele
    deveria ter sido evitado, como o foram
    todos os outros momentos.
    Pois na medida em que aconteceu
    despertou coisas novas
    que não se poderia ter descoberto,
    uma vez que depois de o ter feito
    ficou implícita a necessidade de conduzir
    o que iniciado foi; mas que é escusado
    perante conceitos e medos tradicionais
    que, em última análise, determinaram o afastamento
    característico de todos os outros momentos.
    Um momento e a vida estancou de repente
    tornando difícil todos os outros momentos
    sem aquele em que houve a revelação e a descoberta
    de um prisma novo e em si mesmo fascinante.

    O Acaso das Manhãs

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar