Poema #73: Valpurgis

  • Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noite
    levou-me ao extremo de deixar a cama
    em pleno delírio da febre sem causa
    que me acometia desde há muito.

    Nunca em meus transportes noturnos,
    que eram então muito frequentes,
    eu havia experimentado essa ânsia de fuga
    que só se compara à de uma suicida na ponte.

    Corri como que alucinado fantasma
    até o porão da casa onde a umidade
    havia impregnado as paredes de morte,
    e peguei no baú o espelho quebrado.

    A chuva era intensa e os relâmpagos
    cortavam a estrada barrenta ao norte,
    para a qual fui levado rumo ao destino
    que o maldito espelho me reservara.

    O cemitério estava deserto e escuro
    mas havia um rumor quase que imperceptível
    entre as catacumbas, abertas na véspera
    para o desfecho insólito da profecia.

    Então eu pude sentir os murmúrios
    daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
    cujos aspectos de decomposição física
    acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.

    Ali, em meio à tempestade de abril,
    o espelho quebrado que eu encontrara
    junto aos aposentos da velha inquilina,
    emitiu em reverberações estranhas e malignas
    um brilho intenso que me cegou os olhos.

    Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
    e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
    Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
    sou conduzido para o rito anual de bruxaria.

    O Acaso das Manhãs

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