A inquietação daquela noite
levou-me ao extremo de deixar a cama
em pleno delírio da febre sem causa
que me acometia desde há muito.
Nunca em meus transportes noturnos,
que eram então muito frequentes,
eu havia experimentado essa ânsia de fuga
que só se compara à de uma suicida na ponte.
Corri como que alucinado fantasma
até o porão da casa onde a umidade
havia impregnado as paredes de morte,
e peguei no baú o espelho quebrado.
A chuva era intensa e os relâmpagos
cortavam a estrada barrenta ao norte,
para a qual fui levado rumo ao destino
que o maldito espelho me reservara.
O cemitério estava deserto e escuro
mas havia um rumor quase que imperceptível
entre as catacumbas, abertas na véspera
para o desfecho insólito da profecia.
Então eu pude sentir os murmúrios
daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
cujos aspectos de decomposição física
acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.
Ali, em meio à tempestade de abril,
o espelho quebrado que eu encontrara
junto aos aposentos da velha inquilina,
emitiu em reverberações estranhas e malignas
um brilho intenso que me cegou os olhos.
Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
sou conduzido para o rito anual de bruxaria.
O Acaso das Manhãs