E vem
é frio é pouco
e quente e certo
incerto
é leve é tarde
e breve e louco
solto
é muito é medo
e mesmo e igual
real
parte e vem
vem e parte
uma parte
e vai…
E vem
é frio é pouco
e quente e certo
incerto
é leve é tarde
e breve e louco
solto
é muito é medo
e mesmo e igual
real
parte e vem
vem e parte
uma parte
e vai…
Ouço os passos do vento
Ouço e estremeço…
Tempo
Entretempo
Ouço rumores de vento
E penso que sou eu
o vento
e o rumor
Momento…
E o meu corpo
descolado das palavras
é brisa marinha
As ondas me invadem
uma a uma
e a sensação da vida e do amor
preenchem os espaços outrora vazios
preenchem cada canto
o olhar de sal
e as mãos que se quebram de tanto escrever
As ondas e o vento
e o meu corpo ainda intacto
Depois?
Não ouço mais nada…
.
Um escritor nunca escreve sozinho…
Antes, escreve com todas as vozes
Que sussurram a todo instante
histórias e versos
Acertos e desacertos
Melodias e ilhas
Desconcertos…
Sou Cecília…
Oswald, Mário, Carlos… Andrades!
Sou também Bandeira!
Camões, Pessoa, Castro e muito mais.
Sou Clarice…
Veríssimo, Graciliano, Rosa,
Sou também o cais.
Jorge e Murilo e muito mais.
Sou o que sou: olha só os tais!
Pouco, muito…
E até coisas banais.
E desfaço o ser quando entender…
e é o que basta,
mas
não sou sozinho, sou inteiro,
sou vários, por vezes inabitável,
propenso e líquido
e, ao mesmo tempo,
uma cidade inteira
contrassenso
Sou Mia, Leminski, Milton
Caetano!
E não há engano!
Sou Machado
E o texto, ironicamente,
É mais afiado.
Sou Carlitos, o vagabundo,
Sou parte itinerante
Das lembranças do mundo!
Sou e não sou a cada hora.
E o relógio não tarda.
Agora
Sou todos os textos e canções
Sou todas as rimas e emoções
Um escritor nunca escreve sozinho…
Antes, escreve com todas as vozes
Que sussurram a todo instante
histórias e versos
Acertos e desacertos
Melodias e ilhas
Desconcertos…
E todo verso que faço
Um pedaço de mim está e fica e se vê
Um outro ninguém sabe, um laço
que não se sabe onde fica e nenhuma vista lê
E toda estrofe que nasce
Meus sonhos e verdades lá estão
Num outro canto, outras verdades
No esquecimento ficarão
Quando o poema, inteiro, surge diante de mim
É meu o rosto e é meu o nome
Mas é um outro que não sou eu
Não sei se isso é o começo ou o fim…
E então me refaço e me reescrevo
Junto ou em pedaços o tempo inteiro
Sou e não sou, tenho ou não tenho
É este o poeta e o seu ofício primeiro
O homem dos muros
É um ser sombrio,
Sua imagem causa arrepio
E gera confusão.
O homem dos muros
Grita e divide
E com força Insiste
Em mais desunião.
O homem dos muros
É uma grande desgraça
Incita arruaça
Morte e destruição.
O homem dos muros
Nem parece um homem
A razão e o senso somem
Na sua louca ambição.
O homem dos muros
É um menino mimado
Birrento e enjoado
O caos é a sua motivação.
O homem dos muros
É o pior presidente
Não gosta de gente
Não tem empatia nem coração.
Coitado do mundo!
Que dano profundo
Se um outro discípulo
Medonho e ridículo
Pudesse aparecer!
Coitado do mundo!
Que dano profundo!
Se um louco varrido
De pedra cingido
Pudesse crescer!
Ainda bem que no Brasil
Um país muito gentil
Isso não há de suceder!
Aqui o buraco é mais embaixo!
Tão incerto e tão escuro
Que não dá nem pra ver!
Coitado do mundo
Que dano profundo
Se outro homem dos muros
De atos impuros
Pudesse aparecer!
Não haveria mais poesia
Seria tudo monotonia
Difícil sobreviver!
Mas enquanto for possível o poema
Mas enquanto for possível a escrita
A palavra liberdade estará em cena
A palavra resistência terá vida!