Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
custei a compreender que o farol era oco.
Lançam-se às ondas os que não veem.
Os olhos,
mal acostumados à claridade nua,
não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
Perfil de muitos rostos
ou nenhum.
Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
As letras,
maiúsculas e resolutas,
marcham e cantam
cantam e marcham
em fileiras que se entrelaçam e colidem
até se emaranhar em mil espinhos
aptos a ensurdecer o toque.
O ruído das opiniões encarece o silêncio.
Mas não há trégua.
A pele sem pausa se arrepia
ao cheiro que escorre das redes.
Pouco se aproveita da pescaria.
Aqui uma lesma
ali uma pedra
o resto é areia
que os dedos espalham até perder as digitais.
Melhor seria se recendesse a sal.
Na disputa amarga das fragrâncias,
ao nariz resta a fratura.
E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.
A língua não quer assepsia.
Tampouco a visão da terra firme.
Temperos novos
híbridos
em vão buscam os lábios que os perseguem.
O encontro jamais consumado
afinal se junta ao rol das coisas que,
embora não devoradas,
consomem.
Qual apetite desaparecido.
Despojado enfim de todos os sentidos
o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
Sonâmbulo entre sonâmbulos
pisoteia bússolas e dicionários
enquanto flana
em meio à multidão da praia deserta.