Poema de Felipe Duarte de Paula

  • Poema #05: Procura dos sentidos

    Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
    custei a compreender que o farol era oco.
    Lançam-se às ondas os que não veem.
    Os olhos,
    mal acostumados à claridade nua,
    não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
    Perfil de muitos rostos
    ou nenhum.

    Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
    As letras,
    maiúsculas e resolutas,
    marcham e cantam
    cantam e marcham
    em fileiras que se entrelaçam e colidem

    até se emaranhar em mil espinhos
    aptos a ensurdecer o toque.
    O ruído das opiniões encarece o silêncio.

    Mas não há trégua.
    A pele sem pausa se arrepia
    ao cheiro que escorre das redes.
    Pouco se aproveita da pescaria.
    Aqui uma lesma
    ali uma pedra
    o resto é areia
    que os dedos espalham até perder as digitais.

    Melhor seria se recendesse a sal.
    Na disputa amarga das fragrâncias,
    ao nariz resta a fratura.
    E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
    impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.

    A língua não quer assepsia.
    Tampouco a visão da terra firme.
    Temperos novos
    híbridos
    em vão buscam os lábios que os perseguem.
    O encontro jamais consumado
    afinal se junta ao rol das coisas que,
    embora não devoradas,
    consomem.
    Qual apetite desaparecido.

    Despojado enfim de todos os sentidos
    o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
    Sonâmbulo entre sonâmbulos
    pisoteia bússolas e dicionários

    enquanto flana
    em meio à multidão da praia deserta.

  • Poema #4: Rondó randômico

    A tosse que se ouviu pulsar,
    entranhada nas dobras do ar,

    ouvi que nunca houve outra igual,
    engasgo ou sintoma de um mal
    que se ouvisse sem se escutar.

    Como prever em qual lugar,
    incontrolável como o mar,
    recairia o surto canibal
    que se ouviu pulsar?

    Nesse jogo de sorte e azar,
    tecido com ardil no tear
    da imprecisão proposital,
    cada lance adia o final
    do giro sem fim do pesar
    que se ouviu pulsar.

  • Poema #03: Oferenda

    Da onda ao pé da praia,
    recolho as relíquias do mar:
    sigilo
    deslumbrante encanto
    pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

    Preservo meus amuletos.
    Quisera crer somente na força
    das águas que os trouxeram,
    banhados em luz e sal,
    sutil religação do corpo ao mistério.

    Algo estranho, porém, corta
    minhas mãos, meus pés.
    Fio afiado de faca
    cravado nas costas da mansidão.
    Em vão vasculho a areia:
    misericórdia amor tolerância
    estão enterrados tão fundo
    que sequer a mais teimosa esperança
    pode trazê-los à tona.

    Os detritos e os dejetos
    de uma deturpada devoção
    soterram sem piedade
    o que um dia foi oferenda.

  • Poema #02: Último andar

    Inunda o céu a invasão
    desse voo vadio sem asas
    de volteios fora do tempo
    a trapacear a vertigem.

    Fora de ordem e selvagens
    são as aves que sequer
    as mais hábeis artimanhas
    mantiveram na gaiola.

    Em silêncio, em liberdade
    furam a fila das nuvens
    e enganam sombras e luzes
    no movimento sem freios.

    Ao redor do último andar
    vê o caminhar derradeiro
    que prescinde de convite
    pra lançar-se ao recomeço.

    Faminto de novos ares
    voa pra abocanhar o céu
    pássaro infenso à censura
    tecido de pensamento.

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