Poema de Pedro D’Ambrosio

  • Poema #06: De tudo o que não sei dizer

    Se te olhasse de novo, te perceberia
    Se eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…
    Quão terrivelmente felizes
    Seriam meus dias

    Temo não saber o depois.
    Pois quem nunca se perguntou…
    “E agora, o que vem”?

    Deixo vir.
    Mas temo…
    Não saber receber.

    Temo a teima de não saber
    Ser para saber.
    Temo ter de temer, e temer…
    E não viver outra coisa,
    Não ver a beleza,
    Fazer do outro jeito,
    Viver ao contrário,

    Não acertar nunca,
    Estar sempre ocupado
    De erros e não saber fazer
    Outra coisa senão ser.

    Mas se eu soubesse te ver
    Bastaria um olhar.

    Atravessado por um longo suspiro
    Ver-te-ia.
    Como se fosse a mais bela
    Maneira de errar.

    E desejaria que em todos os meus confusos desejos
    Não sobrassem acertos.
    Te teria em meus segredos
    E através de tais erros
    Não haveria mais medo, nem dúvida
    Coisa alguma que não fosse
    Sem jeito,
    sem tropeço

    Sem ter onde cair e me levantar.
    Desejaria esta vida
    E não outra.

    E por desejar esta,
    E não aquela,
    Não teria de ver assim, pelos olhos
    De quem sabe tudo
    A miséria,
    A quem errar lhe pareça tamanho absurdo
    Que se atam os olhos
    Para nunca ver transbordar a vida
    No olhar.

    Pois é assim que vivo:
    Ao meu ver,
    Sem saber e sem querer.
    Quando queres, aprisiona-te.
    Pois precisas ver.
    Quando enxergas, então sabes como amar.

    E por viver assim,
    Quiçá fosse o fim
    E tu, serias o começo.
    E pelos meus primeiros erros
    Saberia, enfim, a quem olhar.

    E por te olhar assim não sobraria a pressa.
    A vista seria o preço.
    E a ti, infinda razão de meus erros,
    Achegar-me-ia
    Para onde te pudesse enxergar.

    E por tua chegada
    Contar-te-ia tudo o que, por acaso,
    Me fizeste ver.
    Não restaria outra coisa.
    Quando chegaste, me fizeste aprender a amar.

    E por ver o amor, voaria
    E passaria os meus dias
    A amar tudo o que, pela falta de ti,
    Não via;

    E na evidência de tamanhos erros
    Não restaria outra coisa a se ver.

    Se por amar-te estivesse, assim, errando,
    Escolheria errar todos os dias,
    E em todos eles,
    Errar te amando,
    E te amar.

    Quando amo, entregam-me os olhos.
    Já não detém-me o discurso e
    Não prefiro mais a palavra.
    Basta-se a ponta do sorriso,
    Basta-se a força da risada.

    E desse modo, percebendo-te, vi
    Que tudo o que mais temia
    Era ver o que não sabia como.
    Mas tu, só tu
    Sempre me alcançavas.

    Não importa se demoras…
    Cada hora sempre atinge seu lugar.

    Quanto a mim,
    Agora que a vejo, já não mais me enganam os
    lábios:
    Só aprendendo a ver, com você,
    Tive onde o amor
    Encontrar.

  • Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto

    Estou debruçado
    sob a fagulha do instante.
    Me distorço enquanto crio
    a ilusão de um esboço para algo
    que sequer sei o quê.

    Ouso um salto, um pêndulo.
    Giro de cá e de lá.
    Laço-me à vertente de um vértice,
    dobro os olhares e os reviro, o sintoma.
    Tu, que me devoraste.

    A vertigem do hoje faz hora
    Há tempo…

    Apressa-te, que o passo é passado.
    Vagueia a tormenta, é futuro.
    Perdoa o vivido, é achado.
    Lamenta, já se fora perdido
    feito pássaro garrido,
    debatendo-se,
    sangrando,
    só,

    estilhaçado.

    Tomba-me a silhueta assombrosa.
    Insinuo que assim continuo.
    Pesa-me o pestanejo, pelos
    entulhos do mundo, filhos
    da moral errante,
    do tocante instrumento de voz,
    secularizado pelo silêncio
    nas penumbras
    corriqueiras, talhados em
    estantes.

    O momento que pulsa tenaz
    é fruto bastardo, pauso.
    Um entrave, acordo
    em um lapso constante.
    O retenho aguçado, assim apazigua-me a
    centelha, o bastante.

    Entrelaço
    um acorde dentre as
    frestas da forma.
    Cravo o risco em páginas

    onde clamo, se por forçosa a teima,
    que ouça o riso da peste
    que sofre, que sonha.

    Estão cansados os poetas.
    Aos retirados à pruma
    surte o rumo da crença.
    E quanto à verdade, meu pai..
    É certo que dela me esqueça
    perene, enquanto perdure
    o delíquio de vossas cabeças
    renques, trépidas de um senso
    cabal,
    diz-se amargo
    o careta.

    A estibordo este vórtice
    que me devora, que me devora..
    Sinuosa esta vida
    que me despoja o agora
    e que sopra, sopra…
    Mas se por dizer
    que escrever possa ser
    velejo,

    e se a vida for mar…
    Viver seja tornar o sopro forte
    E amar, amar bem depressa,
    pois querer vê-la, já
    é tocar
    o amor
    de toda a sorte.

  • Poema #04: Sujeito Itinerário

    Sentar-se à varanda e deliciar-se com as
    passadas, dos sons da cidade,
    com a corrente inóspita do tempo…

    Ao silêncio de um lago turvo
    que se desdobra,
    sobre as luzes que escapam, e a vida que
    existe…

    como que o
    mundo as retirasse de si.

    E notar as ondas eternas das horas
    que mergulham sob a vastidão
    de um verso transitório,
    entre aquilo que se é
    e o que se fora.

    Estou farto de uma existência
    relapsa e
    repentina; deste lampejo
    imediato que submerge
    e estilhaça
    o vislumbre do agora,

    que faz do movimento
    um ressentido,
    detrito sintático,
    repleto de esquecimento.

    Quero é olhar o nada e sentir preencher-me,
    poder tocar em volta
    e correr por sobre o vento,

    e sem a permissão do dito tempo
    arriscar-me a
    pensar em tudo;
    a habitar o espaço
    de um momento.

    É… é preciso de pouco nessa vida.
    Ah, como preciso de tão pouco!
    Mas, do que realmente preciso?

    Não sei.
    O jeito mesmo
    é ir vivendo.

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

  • Poema #02: Trinta e sete tonais de tinta

    Foram precisos tantos
    e tais quais tonais
    de tons entonados
    de tamanho eterno
    e com ternura tal..

    Teria tido eu
    um tempo ao qual
    tenro, turvo, talho,
    traços de tinta em rabiscos

    e tirando tudo de trás…
    teria eu tentado?

    Se tentei foi por tentar.
    Tirava tudo o que me trazia,
    talvez até mais…
    onde coubesse tanto.

    Traste! – terminei traçando,
    “É o que se diz”, entoei
    “quando muito se tem,
    pouco se tenta”
    .

    Pois quero tentar ter nada.
    Ou mesmo tais tonais quais
    que não tires de mim tanto
    que sou tinta entornada,

    tecido traçado no túnel
    de um tempo tirano;

    em torno de tudo,
    envolto de tanto,
    esboço de lata

  • Poema #01: A Viagem

    A gente corre e esquece
    O tempo aquece, escorre
    Se a vida dança, eu rio
    Se a vida flui, eu sambo

    De lá eu vejo, sinto
    De longe eu peço, e fico
    Da rua, a terra, o transe
    A moita, espreita, um tanto

    Eu tive sede e sonho
    Vivi a luz, a sombra
    Timbrei um brado, um tinto
    Um feixe aceso, o sangue
    Da lua negra, um grito
    Afresco a palo seco
    Memória, o vulto, o vício
    Esqueço, vejo;
    Me desencontro

    Tolice a velha sina
    O ter não quer ser tido
    O lado oposto, o tempo

    Se rompe o véu, um rastro

    Um astro, um sal, um vento
    A pena diz assim levanto
    A vida que se espreita
    Espreme, exprime, espanto

    Domingo eu ligo o rádio
    Disfarço um beijo, encaro
    A rima, um desperdício
    A vida, um ter sem rumo
    O ter, um tempo em branco

    Eu finjo um fato, um feito
    Um tapa, o tom do sério
    Eis a vergonha boba
    Viver é só mistério.

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