parece que perdi
o dom de sonhar
depois de tantas
decepções.
depois de tantas
perdas
parece que sonhei
que já não tinha o dom.
acordei e era tudo
verdade ou pesadelo
depois eu acho
que dormi de novo.
O Jardim Simultâneo
parece que perdi
o dom de sonhar
depois de tantas
decepções.
depois de tantas
perdas
parece que sonhei
que já não tinha o dom.
acordei e era tudo
verdade ou pesadelo
depois eu acho
que dormi de novo.
O Jardim Simultâneo
Agora que a luz se apagou
e a solidão restabeleceu seu domínio,
ouço com receio a linguagem do escuro
que me des-norteia a vida.
Nasci sob o signo da morte
mas prefiro-a assim,
conquistada aos poucos.
Porção diária de veneno
que injeto na raiz da vida
até que ela, afinal, desapareça.
E a linguagem do escuro prevalece
(ainda que se acendam todas as luzes)
como sendo a linguagem universal de tudo
a tecer as teias da incompreensão fraterna.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
“Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino
Que envelheceu, um dia, de repente!”
Mário Quintana (1906-1994)
Tenho quarenta e cinco anos
e já neste meu último aniversário
foi levantada a hipótese irreversível
do envelhecimento antes da morte,
mas nunca sabemos o que virá primeiro.
Seja como for o assunto é desagradável.
Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
entrando pela porta da frente dos ônibus
e viajando de graça pelo país dos meus netos.
Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
no banco e haveria um guichê específico
esperando a minha dificuldade de caminhar.
Soube também que eu poderei requerer
um acréscimo no valor da aposentadoria,
para gastar com hospitais, médicos e remédios.
Seja como for o assunto é desagradável.
A minha vontade é rasgar
o estatuto do idoso
e voltar a ser criança.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
Quando a chuva neutralizar
a esperança das flores, no chão
uma semente irá se desenvolver
à imagem e perspectiva de tornar-se,
sintetizando em si todo o anseio dos homens
para que de seus ossos não se faça apenas
um cemitério, mas também um canteiro.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
A vida,
em todas as suas formas,
revela a sutileza de um mágico
que hipnotiza a todos
para que não vejam seus truques falhos.
Os homens,
em todas as suas crenças,
revelam a idiotice de um asno
que acredita em tudo
por não ser capaz de discernir o óbvio.
Os homens,
com todos os seus mágicos,
revelam a estupidez da espécie
que acredita na vida
como sendo o caminho para a salvação.
A vida,
com todas as suas armadilhas,
revela a esperteza de um camaleão
que dissimula aos homens
a sua completa inutilidade como veículo.
O Acaso das Manhãs.
sou nascido e criado
na roça
acostumado com as durezas
da vida
racho lenha para o sustento
com um machado cego
de cabo de pau-mulato
herança do meu avô
após almoçar no quintal
uma empurra a outra na moita
e eu saio aliviado para o round
da luta suja e feroz do homem.
Um Andarilho Dentro de Casa
estou sem almoço
e sem janta
e com duas costelas
quebradas
meu caminhar é pele
sobre o bronze
do asfalto, atrito
suave de quem sonha
estou sofrendo
com as calças e tudo
e isso é nada para
quem vive na rua.
Um Andarilho Dentro de Casa
Identifico-me com a noite
e com o que ela traz
de específico a si mesma,
e assim fazendo, aceito
o convívio de seres opacos
e da nova ordem e estado de coisas
que o escuro inaugura.
Identifico-me com o avesso
sou aliás o próprio avesso de mim,
e assim sendo, conheço
as esquinas sombrias
nas quais se disfarça
a inexorável nulidade.
Volto de manhã para casa,
e num balanço isento da noite
nenhum acréscimo se me acrescentou
de forma permanente.
Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
apesar das concessões necessárias
ao convívio comum entre os homens.
Nada ganhei e também nada de mim
se perdeu, exceto esta vida
que amanhece mais velha.
O Acaso das Manhãs
Olho para o vazio
de meus olhos.
O espelho
não reflete mais o amor,
outrora visível.
Imagens tão nítidas
se me afloram perdidas
na incongruência do vidro,
uma vez descascada sua tinta
prateada de reflexão.
E agora as manhãs
trazem o hálito da perda,
do que fui e que no meu delírio
se esgotou em fome.
Não a fome dos homens
do nordeste, biológica.
Tampouco a fome dos homens
civilizados, que inventaram a fome
para dois terços do mundo.
Mas fome ela mesma,
que não se come e me digere.
Não se alimenta e me fez assim
um antropófago de mim.
Fome que se reverte em morte
e não me assusta, pois construí
a vida a partir dela.
Sou um desses seres que acreditam
que na sombra se esconde a morte,
e se perde a vida e se ganha a vida.
A vida ganha com a morte
não é metafísica.
Por isso eu me mato a cada dia,
consciente de que um vazio com outro
não se compatibiliza.
O Acaso das Manhãs
O vento sopra um frio doido e esquisito
na curva da esquina de um terreno baldio.
Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
Apaguei todas as luzes da esperança
e estou sendo mordido por cachorros de rua.
“Atualmente eu vivo rodeado por minhas
paixões defuntas”. Todas inclusive,
menos uma delas: a paixão do absoluto.
Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
(você quer pegar os balões? Coitado, mas
eles são feitos de sonhos que estão muito
acima da sua compleição). Talvez nunca,
quem sabe, mas eu acabei de comer agora
uma casca de pão e um pedaço de linguiça
como tira-gosto da pinga. Houve uma época
distante em que eu comia arroz e tomate
nos degraus da escada de uma igreja no alto.
A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
Um cão latindo na noite
é sempre um cão.
Sem cor, sem nome e sem
significado
para quem o está ouvindo.
No entanto este cão
traz em seu latido,
sombras de milhões de outros cães
sintetizados
em uníssono noite adentro.
A chuva não consegue abafar
este inquietante latir,
profanando o sono dos homens
e o sectarismo estático
das coisas e dos seres.
Alguém para se ver livre
do incômodo latido
desfechou tiros na escuridão,
e a noite se arrastou em insônia.
Da boca sangrenta daquele cão morto
brotaram ruídos confusos
que invadiram as ruas e as casas,
mostrando a todos a inutilidade do ato.
O Acaso das Manhãs