por César Manzolillo

  • Catarina

    Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.

    *****

    Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.

    Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.

    Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.

    — Max, desce da cama! — Francisco ordenou.

    — Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…

    Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…

    Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.

    Uma e meia da manhã, cama do casal.

    — Francisco, que dia é hoje?

    — Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.

    — Você conferiu o resultado do jogo?

    — Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.

    — O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…

    — Gôndolas são de Veneza, esqueceu?

    — No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!

    — Ah, depois, deixa eu dormir…

    Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…

  • Simulações

    Ninguém sabe de quem foi a ideia, que ganhou força quando chegou aos ouvidos do meu avô Nélson. Ele logo organizou as coisas e dividiu as tarefas. Os responsáveis pela criação do primeiro episódio seriam meu pai e meu tio Mário. Estavam todos lá na segunda reunião, realizada no casarão do Cosme Velho, que, ao longo das últimas oito décadas, assistiu a incontáveis momentos importantes na vida dos Bandeira de Assis. Abertos os trabalhos, meu pai fez uso da palavra. Explicou que havia pensado em algo impactante. Uma moça, por volta dos 20 anos, andando sozinha na praia do Flamengo seria assaltada e em seguida estuprada por dois marginais. Alta madrugada, iluminação deficiente e local deserto ajudariam a compor a cena. Minha tia Clarice adorou a ideia e sugeriu um tom explícito. Completou que as imagens nada deveriam ficar devendo à realidade. Minha prima Cecília acrescentou que, já no final da ação, a polícia deveria chegar sem nada conseguir resolver. Aliás, seria ótimo se os policiais terminassem mortos pelos bandidos, opinou ela, levantando da cadeira e agitando os braços finos com entusiasmo. Meu tio Mário, calado até aquele instante, foi enfático: Muito sangue! É preciso que haja muito sangue! Os presentes agitaram-se, um burburinho tomou conta da sala. A reunião seguia, o contentamento era geral, e uma excitação perversa contaminava o ambiente. Meu avô ia aprovando tudo com discretos acenos de cabeça. Na sequência, pediu que meu primo João e minha irmã Lígia falassem a respeito do segundo episódio. Pelo que pude perceber, a ideia partiu dela. Algo bem semelhante havia acontecido com a bisavó de uma amiga sua. Uma senhora nonagenária saindo de uma agência bancária. O cenário era o Méier, tradicional subúrbio carioca, habitado por uma classe média falida. Dia claro e ensolarado, uma gangue de pivetes surgiria de repente, derrubaria a velhinha no chão e roubaria todos os seus pertences. Ela gritaria desesperada, sua voz fraca e rouca, quase inaudível, não lhe seria de muita serventia. A fim de tornar tudo mais dramático, seria importante que a protagonista acabasse morta. Mais uma vez, alguém — acho que meu primo Murilo — propôs que a polícia se mostrasse inepta, incapaz e inábil. A essa altura, todos estavam ansiosos para ouvir a terceira sugestão, esta a cargo de minha avó Raquel e do meu primo Carlos. Linchamento! Linchamento! Foi assim, gritando juntos, que os dois começaram a expor a proposta. Mercadinho de bairro em Bangu, na zona oeste. Jovem maltrapilho, um típico morador de rua, seria a figura central nesse caso. Faminto, o adolescente roubaria dois pacotes de biscoito. O segurança da casa comercial, atento, se apressaria em cumprir sua função. O meliante sairia correndo. No entorno da loja, transeuntes começariam a gritar Ladrão! Pega ladrão! Meu tio Rubem se preparava para fazer comentários quando tiros foram ouvidos em frente à nossa casa. De forma instintiva, muitos dos presentes se levantaram, atravessaram correndo o jardim e alcançaram o portão. Estendidos na rua, emoldurados por poças de sangue, os corpos de quatro homens. A polícia apareceu alguns minutos depois.

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