por Cláudia Valle

  • Audição criativa

    Vamos falar de surdos. Surdos no sentido coloquial, não surdos de verdade, isso é assunto para especialistas. Só percebi a diferença quando assisti a um diálogo entre um senhor e a atendente de uma loja que vendia aparelhos auditivos. Quando ele se queixou de que era surdo, ela foi objetiva:

    — O senhor não é surdo, se fosse eu não poderia ajudá-lo. Seria mais ou menos como fazer um cego enxergar usando óculos. Sua audição é deficiente.

    Tenho vários desses surdos no meu entorno. Como ouvem mal o que dizemos, ou simplesmente não ouvem, o diálogo é difícil. A maioria dos surdos tenta suprir as falhas de audição adivinhando o que está sendo dito. Se o tema é irrelevante, a gente deixa para lá, mas nem sempre é o caso.

    Não raro um diálogo vira monólogo por parte do surdo. Você fala uma coisa, ele entende outra e, a partir de certo ponto, continua sozinho a conversa, agindo como se o outro estivesse participando.

    — Você pegou o jornal?

    — Não, eu não passei mal.

    — Eu perguntei se você pegou o jornal.

    — E eu já respondi que não passei mal!

    — Onde está o jornal?

    — De novo? Estou ótimo, normal.

    — O JORNAL!! Onde está?

    — Ah!… A única notícia interessante de hoje é que “Vestido de Noiva” do Nelson Rodrigues vai ser reencenada. Você leu?

    — Como posso ter lido se nem sei onde está o jornal?

    — É realmente sensacional.

    — Esquece.

    — Concordo, o texto merece.

    — Eu vi há alguns anos, gostei muito.

    — Estreia semana que vem.

    — …(silêncio)

    — Um clássico do teatro.

    — …(silêncio conformado)

    — Você conhece a peça? Gostaria de assistir?

    — …(silêncio desesperado)

    A surdez rende situações hilárias, mas rende igualmente brigas e discussões. Duas amigas entraram numa loja de conveniência, deram uma voltinha, resolveram sair. A surda foi à frente e a outra, já quase na porta, decidiu comprar uma garrafinha de água. Pegou rapidamente a mercadoria, foi para a fila do caixa e avisou à surda:

    — Fulana, espere um pouco.

    A surda continuou andando, a amiga repetiu o pedido em voz mais alta. Repetiu uma, duas, três vezes, gritou uma quarta, mas não teve jeito. Ela não queria desistir da água, nem podia sair sem pagar. A surda desapareceu na rua e, dois minutos depois, reapareceu na porta da loja, furiosa.

    O surdo, protegido pelo silêncio, não acompanha as agruras de quem tenta se comunicar com ele. Costuma reagir indignado e rotular de impacientes os pobres interlocutores. Acredite se quiser, já ouvi a seguinte frase.

    — Eu não sou surdo, você é que não gosta de repetir.

    É óbvio que o surdo não consegue avaliar o quanto está deixando de ouvir. A surdez não se instala da noite para o dia, ele vai perdendo aos poucos o contato com o entorno.

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — FULANO, QUER IR AO CINEMA?

    — Está gritando comigo por que? Está pensando que eu sou surdo?

    Eu amo todos os meus surdos, mas acho que eles são impiedosos. De vez em quando um deles pergunta porque ando tão estressada. Se trocassem de lugar comigo por uma semana, entenderiam.

    Talvez eu tenha sido surda em vidas passadas e agora esteja pagando por isso. Deve ser carma.

  • Anamnese

    Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi esse problema: criei meu próprio formulário de anamnese, que, em primeira mão, compartilho com vocês.

    Trata-se de uma série de perguntas simples para quem se interessar em ser meu amigo, oxalá alguém se anime. Lembrem-se de que uma anamnese não é um teste de excelência, é apenas uma coleta de informações.

    Quem já for meu amigo pode ignorar o assunto: tem lugar cativo, quaisquer que sejam as respostas dadas. E se alguém achar que, em vez de respostas, deve enviar-me perguntas, prometo respondê-las com afinco e sinceridade.

    Lido mal com as perdas e na medida do possível quero minimizá-las, assim sendo dou preferência às pessoas que possivelmente viverão mais do que eu. Essa é uma das questões que mais me preocupa e está contemplada logo no início.

    Outra das minhas preocupações diz respeito aos encontros presenciais. Dou preferência a quem mora perto para facilitar o convívio ou a quem mora bem longe, o que dá direito a uma viagem planejada e prazerosa. As médias distâncias são uma encrenca: a Lei Seca, o preço do über, a insegurança de alguns trajetos cariocas, os horários noturnos, os engarrafamentos, não faltam motivos para desestimular o deslocamento.

    Um último comentário: essa coisa de virar amigo não tem regras nem explicações, portanto não há garantia de que o questionário funcione. De qualquer forma, é um começo. Aí vai.

    1. Você pretende viver muito ou é pelo menos quinze anos mais novo do que eu? Sim ( ) Não ( )
    2. Sua família é longeva? Sim ( ) Não ( )
    3. Você mora a menos de 20 km ou a mais de 200 km de mim? Sim ( ) Não ( )
    4. Você procura ser correto? Sim ( ) Não ( )
    5. Você concorda que na vida as coisas não precisam ser obrigatoriamente pretas ou brancas? Sim ( ) Não ( )
    6. Você ama a liberdade de expressão e abomina ditaduras de qualquer cor? Sim ( ) Não ( )
    7. Você convive de forma civilizada com opiniões divergentes? Sim ( ) Não ( )
    8. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito seus (não precisa confessar)? Sim ( ) Não ( )
    9. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito meus (não precisa contar)? Sim ( ) Não ( )
    10. Você consegue tolerar o defeito que encontrou em mim? Sim ( ) Não ( )

    Marque um ponto para cada resposta ‘sim’, sendo que as três primeiras valem dois pontos cada uma. Idem a última, porque amigos devem estar dispostos a perdoar (e esquecer) os eventuais deslizes uns dos outros, e eu possuo cá os meus.

    Se você somou mais de sete pontos, estamos bem encaminhados, pode me escrever no privado para darmos continuidade à conversa. Menos do que isso, penso que não vai dar certo e temos que nos conformar: unanimidade é algo inatingível e tenho certeza de que bastante gente está do seu lado.

    Um adendo: semana passada apareceu uma barata aqui em casa. Horror, horror! Mantenho a casa encharcada de inseticida, não sei se a barata saiu de alguma toca oculta ou se entrou voando. Apareceu já cambaleante, de salto alto, pronta para morrer. Foi caçada (não por mim!) e destruída convenientemente. Pensei, devido à importância que dou ao tema, em incluir na anamnese a pergunta ‘Você sabe matar baratas?’, mas refreei o impulso. No entanto, se você souber, não importa a pontuação que obteve no questionário acima, já quero conhecê-lo.

  • Os brincos

    1.
    Adriana recebeu um forte golpe na cabeça. O sangue escorreu, e, em alguns minutos, o piso da cozinha se transformou num tapete escarlate. Rastejando pelo chão, conseguiu deixar o local. No corredor, ouviu uma porta bem lá no fundo ser batida com violência. Escutou miados e sentiu algo semelhante a um conjunto amorfo de pelos roçar sua perna. Arrastou-se até o elevador. Apertou o botão térreo e lembrou que Pedro havia ficado no berço. Saiu do elevador e correu de volta ao apartamento. Dirigiu-se ao quarto do filho, ele não estava lá. Levou outra pancada, desta vez na face esquerda.

    2.
    Alguns dias – ela não tem a menor noção de quantos – haviam se passado. Deitada num quarto de hospital, Adriana tinha diante de si a mãe, olhos vermelhos de tanto chorar. Pensou em como essa situação sempre constituíra fonte de desconforto para Amália. Desde que tinha cinco anos, Adriana havia aprendido em casa que gente crescida não chorava. Só crianças podiam fazê-lo, crianças choravam por qualquer motivo, era natural que agissem assim. Quando um adulto chorava, era por uma razão muito grave,invariavelmente relacionada a morte, doença séria, falência ou ruína.

    – Minha filha…

    – Onde está o Pedro?

    – Calma, ele está bem. Vicente está cuidando dele.

    – Eu quero vê-lo.

    – Você não pode fazer esforço… Por favor, não se levante.

    – Eu preciso vê-lo.

    – Olha, vem cá, eu tenho uma coisa pra você, sei que vai gostar. Eram da minha avó. Quando você for embora, vai estar linda.

    3.
    No dia em que deveria deixar o hospital, Vicente foi encontrá-la. Havia ficado acertado que Adriana não voltaria para o apartamento onde o pesadelo havia começado. Na recepção, burocracia resolvida num tempo surpreendentemente curto, ela preparava-se para ir embora com o ex-marido quando uma enfermeira veio lhe avisar que tinha esquecido um par de brincos no quarto. Ela agradeceu e em seguida colocou-os. Achou que lhe assentaram bem, mesmo não tendo conferido o resultado num espelho. Poderia ter perguntado a Vicente se eram bonitos ou mesmo adequados, se combinavam com sua roupa ou com sua personalidade. Bobagem. Momento nada oportuno para esse tipo de futilidade. Além do mais, talvez ele só prestasse atenção nas feridas de seu rosto e nem conseguisse enxergar a joia direito. Era muito estranho o fato de jamais ter furado as orelhas àquela altura da vida. Isso limitava bastante os modelos de brinco que poderia vir a usar. Adriana começou então a recordar as mulheres da família: a mãe, as avós, as duas irmãs mais novas, as primas mais chegadas, tia Hilda e tia Helena, velhas solteironas que bem poderiam ter sido criadas pela mente libidinosa de algum escritor pervertido. Cláudia, Valéria e Márcia, amigas queridas, todas elas de orelha furada.

    4.
    Vicente não estava de carro. Na porta do hospital, com Pedro no colo, tentava conseguir um táxi. Uma obra quase em frente à saída dificultava a circulação de veículos, obrigando os motoristas a realizar desvios. Ele afastou-se um pouco à caça de condução. Adriana resolveu dar alguns passos na direção do ex-marido. Fraca e um pouco tonta, escorregou. Caiu. Sua nuca encontra o meio-fio. Deitada no chão, é vista por um senhor que passava claudicante apoiando-se numa bengala. Junto ao corpo imóvel de Adriana, na altura da orelha esquerda, antes que pudesse esboçar qualquer reação, ele reparou bem: uma pedra vermelha, fina e delicada, reluzia.

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