por José Carlos Brandão

  • História de Abelha

    Voando no ar claro da manhã. Pontinho negro na luz do sol. O brilho nas asinhas céleres – alegria que só ela sabe. Gira que gira, de flor em flor, e alto, volúpias de leve música, desenho breve na mágica transparência. Um mergulho – cego? Sábio mergulho, a florzinha mais roxa, à espera, em oferta – úmida vulva, vinho do amor. Os apelos do amor, símbolos que clamam do abismo. A abelhinha sugando o néctar da florzinha roxa – embriaguez morna do verão, isto o amor. A festa, mas porém, ai, quebra-se o encanto. Plec, plec, a flor nos dedos buliçosos da menina sardenta. A abelhinha zonza no ar – “Sua enxerida”, diz, e flecha um voo, o ferrão da morte no narizinho empinado. “Tomou, sua atrevida?” Tomou também a abelhinha, as duas mãos da garota no nariz, no negro aguilhão que a feria. A bichinha cai no chão, atordoada, sufocada de dor.

    O irmão prestativo – como é prestativa a maldadezinha das crianças – prende a pobrezinha num vidro. Ela mal que se mexe, as asinhas, o corpinho moído, suspirozinho só. “Eu prendi a assassina”, diz o menino. A menina enxuga uma lágrima, um pimentão o rostinho amassado no pranto. Ainda consegue força, numa admiração: “Ela é bonitinha!” “Queria te matar, sua boba”, diz o irmão. “Coitadinha”, ela diz. “Sua burra!” “Burro é você, seu malvadão.” “Gostou da picada, é? Tonta!” Ela chora, a abelha tão engraçadinha. Doeu, pois é. Mas foi sem querer, já está passando. Não é por isso que ela merece morrer. Ela não pode morrer. Está agonizando, olha só. Pobrezinha. Como estremece, pretinha a sua dorzinha – sem consolo! O vidro na janela, o sol cintila – o sol é o deus da vida, a luz, o calor que é a vida. A abelhinha freme as asinhas – um frêmito bom. O corpinho se ergue – viver, tão bom viver. Gira sobre si mesma, cai, cai. “A danadinha”, diz o menino. “Teresinha”, diz a menina, “ela tem o jeito de Teresinha. A Teresinha que estava morta, morrendinho mortinha, e volta para a vida”. “Fênix”, diz o menino, “é Fênix o nome, o pássaro que renasce das cinzas”. “Ah, e eu quero saber de fábula besta”, diz a menina, “eu quero a minha Teresinha, estava morrendinho, mortinha no medinho, e revive – que beleza!” “Beleza! Beleza nada. E ela é minha, eu que peguei”, diz o menino. “É minha”, diz a menina, “ela me escolheu, olha o meu nariz”. O menino ri. Ela, vermelhona, chora. Os dois avançam para o vidro, lutam, a tampa se abre, a abelhinha voa tonta na luz livre, livre, ó glória. Voa, voa, e plaft – bate na vidraça, e o menino bate nela, e a menina bate nela. “Assassina!” “A minha Teresinha!” Irmão e irmã se digladiam – tanto amor desperdiçado, a sina do muito amar, sua esquisitice.

    A Teresinha não fez plaft na vidraça, nem nada. Fez puf, um isso de sonzinho, estrangulado. Um pontinho se encolhendo, volteando no vácuo, sem apoio, parafusinho, e o vazio absoluto, frio, frio. A Teresinha não fez plaft nem nada, mas porém plaft e plaft e plaft fizeram as mãozinhas dos irmãos inimigos no seu amorzinho descontrolado. “Homem que é homem tem que se vingar”, ele diz. “Quem mata tem que morrer! Seu carrasco,” ela diz, “quem não perdoa não merece viver.” E plaft e plaft, a guerrinha dos irmãos. Tantas palavras? Muito mais sentimento. Tanto orgulho ferido! E pá e pá – o jeito é morrer, pensa a abelhinha, e puf – murchinha, se esvaziando a sua vidinha. Depois, num de-repente – pá, pum! – o pezinho, o pezão do menino. Teresinha, nem sombra! Sujeirinha no soalho, nem isso. “Conheceu, papuda”, diz o irmão. “Assassino”, diz a irmã, e segura o narizinho dolorido, se lembrando de chorar, a dor, dor e mágoa, mágoa e dor.

  • O retorno

    No outro lado não havia nada. O outro lado era apenas o outro lado. Voltei branco para casa. Como se já não fosse. Eu estava branco como se nunca tivesse sido. Naveguei pelo Lete como num passeio de domingo. Atravessei o Lete e era como se não tivesse ido a lugar nenhum. Conheci que a morte não é nada, uma hora em que tudo está consumado. Os dentes estavam podres, o passarinho seco no armário. Não havia mais nenhum poema a escrever, não havia unha a cortar, não havia barba a fazer. Havia bolor na manteiga, no pão sobre a mesa. Meu cachorro não me reconhece. Sou um estranho em minha própria casa. Sou um estranho no espelho. Sou uma ausência do lado de fora do espelho. Meu gato perdeu o caminho de casa, geme no horizonte sob a lua. As luzes se apagaram. Um nó nos fios que me ligam a parte nenhuma.

    Você me pergunta se foi bom. Eu respondo que o sonho acaba como quisermos. Há lixo nas ruas, em casa, nos bueiros. Em todo lugar há moscas e ratos e baratas. Deixar de ser é um ato de extrema pureza. Não porque última, mas uma essencial pureza. Os olhos estão nublados, a doçura da cegueira. O universo me ilumina no escuro. Não caminho em linha reta. Não sinto os meus pés, ou estão em brasa, pouco importa. O arame farpado fere as minhas mãos, o peito, o sexo. Eu sorrio como se não fosse comigo, alheio ao ser que em mim pensa e sente. O tempo me devora. E eu estou no sótão me contemplando. Ou no porão com água até a garganta. Bebendo a água do tempo. Teço o ríctus e o sorriso da inocência. Tenho cinza nas mãos. Eu já fui esse punhado de cinza. Ser pó era tudo que almejava. Antes e depois se confundem no pó. Quisera a loucura e toda a sua beleza. Agora todos os desejos se apagaram. O futuro não é mais que uma linha de giz. Ser é uma linha de giz.

    Quero soltar os meus demônios. Já voaram comigo sobre os abismos. Hoje são moscas tontas ao redor de uma lâmpada. As moscas morrem comigo presas no mel. A felicidade é o ser que esgota o seu tempo. Tudo é fluir. E parede, parede, parede. Mas a própria parede é fluir. Criar um corpo é ignorar o corpo. Já não somos donos de nada. Fluímos. O rio é vermelho de tanto fluir. O homem flui através de si mesmo. Fluir nega o ser. Somente a náusea é bela. O vômito é um poema de luz. Eu estou fora do livro. As minhas letras caíram à beira da estrada. Nada é bastante para a minha falta de sede senão que a falta de sede ainda é sede. Essa mulher me quer. Essa mulher, o corpo da mulher me justifica. Estou confuso e luto contra o anjo. Quem me garante que a ficção acabou? Quem me sonha, sonha duas vezes o mesmo sonho? Estou vazio de mim. Sexo é o corpo do ser. Estou suando em agonia dentro da mulher. Estou vivo e não sonhar ainda é conhecer. Não sei o preço da vida. O abandono é a minha herança. O sexo é o tempo e os pomos dourados do outono caem. Não há mais respostas porque não há mais perguntas. Onde estou não é um lugar, domicílio ou prisão. Meu compromisso é não ter compromisso nenhum. Sofro a ingenuidade de ser. O jogo acabou. Uma mulher me espera. O reconhecimento do ser vem da cama.

    Você era, não é. Volta a ser ou não. Eu exalei o último suspiro, um gemido fundo como se buscasse o fundo do fundo da alma. O mundo acabou. Bastava o meu sorriso de bobo. Eu era um idiota com todos os dentes à mostra e nenhuma história mais a contar. Sem nenhum estrondo, sem aviso prévio, o mundo acabou. Um balão sem nada dentro. Mas tenho que me render: a angústia ainda me vira o estômago.

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