Por Maria Elza Gonçalves

  • Nelson a conhece

    No ônibus lotado ela vai enfiando o corpo nos menores espaços, dá licença, fala baixinho, não olha nos olhos, vai passando por uma senhora gorda com várias sacolas, por um garoto voltando mais cedo da escola, por moças, por rapazes, por velhos; troca a mão de lugar, consegue um vãozinho para pôr o pé, até chegar o mais próximo possível do lugar procurado e ali segurar na alça de apoio e parar. Não olha para as pessoas, mas também não vê o cenário que passa pela janela.

    Ela sabe o horário, a linha de ônibus, e o lugar onde ele se acomoda, na curta viagem até o ponto onde ela vai descer.

    Com isso faz as coincidências acontecerem.

    Se ela sair de casa às três da tarde, o mercado não estará cheio, então ela fará suas compras, e na volta eles tomarão o mesmo ônibus.

    Ele deve subir no início da trajetória, pois vem sentado.

    As compras dela não podem ser maiores do que uma ou duas sacolas, senão corre o risco de alguém lhe oferecer o lugar e isso ela não quer. O que ela quer é ficar próxima dele, sentir o seu perfume misturado com o cheiro de suor do dia de trabalho, olhar aqueles cabelos jogados displicentes para o lado, a cor da sua pele em seus braços na parte visível da camisa branca arremangada.

    Só isso basta. Parece pouco? Não é não! É um turbilhão, uma mistura de alegria, medo, tesão, e audácia. Ela nem cogita que ele saiba da sua existência. Não! Ela não quer ser notada, não se arruma nem mais nem menos, é apenas uma passageira comum daquele coletivo. Se acaso ele a notasse, falasse com ela, aí tudo deixaria de ter sentido. Esse é um momento só dela, uma transgressão cultivada, com todos os pesos que têm: o desejo por um homem que não é o seu marido, a volúpia do sexo imaginado, o ouriçar da sua pele ao perfume dele impregnando seu cérebro, a languidez sentida pelo balanço da conducão e pelo roçar das suas pernas uma contra a outra, até chegar ao ponto de descida. Aí ela desce e retoma o seu papel. Na verdade, recupera a sua realidade, pois não sabe qual é a sua identidade.

    Ao chegar em casa domina os afazeres da casa, tarefas das crianças, jantar, filhos, passar as camisas do marido, arrumar mochilas para o dia seguinte e finalmente tomar banho e poder se deitar. Quem sabe sonhar com o seu amor secreto. São apenas dois os seus momentos, quando ela vive os seus segredos, os seus pecados e os seus temores.

    Um pedacinho da tarde e o deitar-se e aguardar o marido.

    Muito pouco para o restante da vida e a sua realidade seca, amenizada por aquela fantasia.

    O homem do ônibus.

  • Modo Economia de Energia

    Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta.

    Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas.

    Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas.

    Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa estava ficando “rabugenta.”

    Coisas do tipo: não liga não, ela agora deu de falar o que bem entende, sem filtro e sem papas na língua!

    E eu morria de medo dessas pessoas, “sem papas na língua”.

    Bom, considerando que fui uma entre tantos irmãos, oriunda de família grande, pais ocupados e práticos na função de suprir e educar os filhos, tios e tias intrometidos em nossa vida e rotina, eu meio que optei por não ser a mais vista, nem a mais ouvida e nem a mais falante no dia a dia daquele caos chamado família.

    E quem não aparece, não se estabelece, não é? Vivi isso na adolescência e durante mais alguns poucos anos…

    Mas a vida exigiu que eu mudasse, e ao entrar no mercado de trabalho e viver as relações corporativas, por muitos anos fui considerada a colega, ou a chefe, de língua afiada.

    Sem rodeios, eu dizia o que achava daquela situação, ou do comportamento, da falta de atenção, do erro primário ou não.

    De constrangida, passei a constrangedora.

    Hoje, como uma boa observadora que sou, noto que voltei aos primeiros anos da minha vida de adulta.

    Prefiro me fazer de “sonsa”. Se recebo uma observação dura, tipo: “Nossa, como você engordou”, faço de conta que aquela fala não me afetou. Embora eu me sinta mal ou injustiçada.

    A voz no tom mais alto, a observação ferina, a falta de noção, a invasão de privacidade,continuam aí, fazem parte do mundo, das relações interpessoais.

    E eu, por comodismo ou covardia, calibro a minha bateria social.

    Evito quem já conheço como ácido, me afasto de rodinhas de sorrisos falsos e alfinetadas, prefiro a conversa em dupla, bloqueio até motoristas de Uber não simpáticos.

    Sou daquelas pessoas que conhecem os vizinhos, mas não adoram as conversas “inofensivas” entre si.

    Estou trabalhando muito sobre o convívio real, mesmo porque estou longe de me tornar como os monges, que cultuam o silêncio.

    De forma consciente construo a minha maneira de ser, busco o equilíbrio nas interações reais, evito fazer do emoji diário o substituto para falar ou saber como a pessoa está.

    O problema está em “escolher” quem eu acho que merece isso de mim…

    Aí entra a questão central de trabalhar a minha pouca disposição em ampliar o meu radar amistoso.

    De todo modo, sinto que ainda quero fazer jus a não ter só a falsa aparência de pessoa maravilhosa, tranquila, amena, bondosa, de fácil convívio, aquela que é “um amor de pessoa”.

    E assim sigo: um monge de batom, um ser iluminado que finge não ouvir desaforos.

    Tudo em nome da paz… ou da minha paciência, que está sempre no modo “economia de energia”.

    Porque, no fim, quem tem bateria social fraca, precisa saber onde vale a pena gastar os últimos 3%.

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