Não sei por onde começar. Dói muito falar, lembrar de tudo isso. Gislane me contou de supetão, mulher sem coração: “Vá visitar logo, antes que ele morra!”. Disse assim, na bucha, que Renato estava doente, em fase terminal, nível quatro de cancro no cérebro. Renato é meu amigo de infância, estudamos juntos no Vinícius de Moraes. Um cara de coração imenso, me abrigou, com a sua humildade família, quando tive de sair de casa por conta das bebedeiras do meu pai. E não foi uma só vez. Ele me acudiu nos momentos mais difíceis, inclusive quando perdi minha mãe atropelada. Minha mãezinha morreu e nos deixou com o nosso pai, um homem desregrado, que só sabia de si. Fomos criados, na verdade, pelo meu irmão mais velho, o Valdemar, que já trabalhava e tinha o seu dinheirinho. Renato não media esforços para ficar ao meu lado, mesmo eu estando em crise, com depressão. Já adultos, tivemos um pequeno hiato; namoricos e turmas novas nos separaram. Soube que passou por uma trágica aventura em Portugal. Recebeu uma tentadora promessa de emprego de mecânico de automóveis. Trabalhou pesado, como um touro que era, mas muito acima de suas condições – Gislane me relatou, com lágrimas nos olhos. Não era bem como pensava. Foi explorado e voltou, depois de dois anos. Logo, por questões que desconheço, permanecemos afastados. Foi o destino cruel que nos puniu, pelo desleixo? Mas a verdade é que sempre pensava e desejava que estivesse bem. Acabei me casando e indo morar numa cidade da região metropolitana. A família de minha esposa é toda de Caucaia, e pudemos nos arranjar na casa de seus pais, onde construímos o nosso lar. Ele, ao contrário, procurou refúgio na serra; decerto queria uma vida mais tranquila. Gislane, que foi sua namorada – e sempre estava na expectativa de sê-lo outra vez –, falou que subitamente ele deixou de falar e de andar. Souberam por acaso, através dos vizinhos. Levaram-no ao hospital, e, de pronto, foi detectada a doença. Fui visitá-lo ontem. Não queira imaginar o aperto no coração que sinto até agora. Ele que era corpulento, um verdadeiro brutamontes, e estava cadavérico, na UTI, com a pele muito fina e o corpo encolhido, como uma criança desprotegida. Era mesmo um fiapo de gente. Chorei por meu irmão. Jamais imaginei vê-lo assim. É questão de dias ou horas para que decretem a sua morte. Amanhã retornarei para uma visita, se ele resistir. Tenho hora no emprego e não posso me ausentar por muito tempo, senão estaria ao seu lado, dia e noite. Pensei na fragilidade humana e na ousadia de tantos que se acham grande coisa. Renato é simples, um cara do bem. E a pergunta que fica é: por que os bons morrem cedo? Já não é o primeiro na minha lista de amados que se foram, sem dar o último adeus.