presente

  • O aniversário

    Cinquenta anos de idade. Meu presente mais-que-perfeito. O presente que estou me dando. Meio século de vida. Por que comemorar meu aniversário? Estou um século mais velho. O que é que eu tenho para comemorar? Cinquenta anos ou apenas um ano? Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo?

    Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos brancos. Os dentes apodrecem, o espírito apodrece. A idade pesa nos ombros, a idade tem o peso de um túmulo. Que quero eu da vida? Nada. Dizem que nasci ontem. Mas nasci velho. De repente me descobri velho.

    Quando eu era mais jovem, um homem de cinquenta anos era um velho. Quando cheguei aos quarenta, me senti jovem: a vida começava aos quarenta. Envelheci de repente. Envelheci, sem mais nem menos.

    Nasci ontem? Renasci, depois de um acidente besta. Voltei velho. Voltei estranho. Sou um estranho no ninho. Vegeto ou pouco mais que isso. Me importa o prazer. Boa mesa, boa cama. Sem grandes sonhos. Sem sonhos, existo. Não tenho planos. Quero existir enquanto existo. Não temo o futuro. O futuro não existe. Quero o aqui e o agora. Sem muita determinação.

    Ficam abolidas todas as frustrações. Ser e não ser se dão as mãos. Quais os problemas a resolver? Nenhuns. La nave va. Não tenho problemas. Não vou a lugar nenhum. Não conheço a verdade. Não estou interessado em verdade nenhuma. Quem é o dono da verdade? Matem-no. Ou não o matem. Dá na mesma.

    Olho no espelho e não me encontro. Quebro o espelho. Pelo prazer de não me encontrar em caco de vidro nenhum. Talvez as estrelas se reflitam nos cacos de vidro. Os homens quando morrem, morrem. Tanta gente morta, tantas cruzes à beira do caminho, cruzes anônimas. Tantos amigos, conhecidos, parentes: esquecidos. Vira a página e esquece. A vida é isto: esquecimento. Nenhum dia a mais senão o olvido. Põe uma pedra sobre tudo que passou. Se passou, já não é. Escreve na areia as ofensas, as dores, os prazeres da vida. Tudo passa. Scripta manent: não escreva nada. Por que escrevo? Tantos despropósitos na vida. Quero viver este momento inútil. Escrevo por desfaçatez. Talvez eu deva isso a alguém. Mas não quero pagar dívida nenhuma. Escrevo por escrever.

    Quero viver todos os momentos inúteis que me forem dados. Morrer quando me for dado morrer e desta vez que seja para sempre. Não sou melhor nem pior por isso. O mundo não é nem melhor nem pior por isso. Não sou mais feliz ou infeliz. Ou talvez seja. Talvez eu procure alguma coisa, talvez eu tenha encontrado. O vento me dá na cara neste momento e eu sinto prazer. Os valores estão mudados: sinto prazer. Sinto prazeres mínimos e enormes e me sinto bem.

    Talvez seja necessário dizer isso, para mim mesmo. O resto do mundo? Que se dane. Não posso salvar a humanidade. Não sei se a humanidade quer ser salva. Não sei o que é salvar a humanidade. Existo, mais nada. As dores do mundo? Não posso mais sofrer. Todas as dores humanas, toda a grandeza e miséria humana já não me pertencem. Peço desculpas. Ou não peço, saio de fininho como quem já morreu. Talvez eu já tenha morrido.

  • Festa ao Entardecer

    Daqui a poucos dias faço aniversário… O que vou pedir de presente? Alguma lembrancinha, mais para atender aos filhos e netos que me olham atentamente, tentando adivinhar meus sentimentos, ou meu estado de espírito, nesse dia que me leva cada vez mais ao entardecer da vida.

    Eu os conheço bem: cada um, à sua maneira, vai me sondar, tentar “me ler” nas entrelinhas.

    Não os condeno, pois por longos anos também passei pelo estranho papel de me sentir mãe, em vez de filha.

    Sendo assim, sei bem dos subterfúgios, das desculpas e disfarces para não preocupar os nossos.

    Minha mãe, aos 93 anos, ainda pedia vestido novo para ir às consultas médicas.

    Não saía sem passar o seu batonzinho rosa e não perdia nenhum evento familiar: aniversários, batizados, colações de grau. 

    Tanto podia ser do jardim de infância ou de graduação das suas três dezenas de netos. Ah, festejou também nascimentos e batizados de bisnetos e até uma tataraneta! 

    Eu penso que ela de fato tinha o espírito festeiro do povo latino. 

    Tenho a descendência e as lembranças do convívio  e costumes da minha grande família de origem. Festas, rezas, procissões… sentimentos externados… eu diria até exagerados. Bonitos e barulhentos, que acalentam as minhas memórias afetivas.

    O problema está nessa minha predileção em conversar com os meus pensamentos.

    Sinto que, nesta fase da vida, a calmaria tomou o trono, a paciência encontrou o seu espaço, os hormônios impetuosos se aplacaram, e tudo o que antes demandava tempo e urgência passou a ter a placidez que pode ser resumida com apenas uma expressão: E daí?

    E daí?

    Daí que, apesar de gostar da minha solitude, vou passar o meu aniversário com filhos e netos, sorrindo feliz com as demonstrações de carinho, festejando a vida.

    Tenho a convicção de que fui e sou importante na dinâmica familiar. Meus filhos e netos me reverenciam e agem de forma a me fazer crer na grandeza dos inúmeros papéis que desempenhei, mesmo quando eu mesma ainda estava perdida na ignorância e falta de prática. 

    Sendo assim, pegando carona no amor e carinho amealhado em meus anos de vida, vou me alegrar com a alegria deles.

    Afinal, viver é uma dádiva, em todas as fases, em várias nuances. Buscar e distribuir sorrisos, amar e ser amado, ser a presença amiga na caminhada e no repouso. 

    Aqui onde minha alma encontrou abrigo e serenidade, vou festejar com alegria e emoção dizendo: 

    Feliz aniversário para mim!

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