Vê onde há dor,
vá onde se avista,
doa o que não se pede,
perca o que não se dói.
Foi o que não se via,
viu o que não se achava,
trouxe o que não devia,
deveu o que não se tinha.
“Terei onde ser um outro,
verei o que há de novo”,
tentou ser tudo que tinha
viveu feito vivo-morto.
“Saudade é da liberdade”,
cantava o finado rouco;
mas tudo o que era livre
fizera de caso pouco.
Saudade é da boa turma,
teimosa que só a rima:
largava, sentia, ouvia;
era a vida do bicho solto.
Onde fora tal maledicência
que só o tombo levava o rito?
O tinha o decurso, o todo
fez da fome o que tinha dito.
Repetiu o que se lembrava,
calejava o suor da testa,
uma vida já percorrida
se de si esquecida,
de que resta?
A turma já como desfeita
anunciava o discurso às pressas;
foi o que não era
e não se via.
Eis a sutileza:
Viver é afetar a vida com a espera.