Provérbios

  • Repensando os provérbios

    Camões diz num soneto que o mundo é feito de mudanças. Isso contraria o Eclesiastes, para o qual não há nada de novo sob o sol. O mais prudente é chegar a um equilíbrio e reconhecer que as coisas mudam para permanecer iguais. Ou se tornam iguais a cada vez que mudam.

    Se as coisas se transformam – mesmo mantendo sua essência –, transforma-se também a linguagem. Os provérbios, por exemplo. Eles são generalizações, e como tais expressam verdades aparentemente imutáveis. Mas será que não têm de se adaptar à evolução dos tempos? Sempre é possível, nem que seja por um artifício poético ou irônico, vê-los com nova roupagem.

    Diz-se (ou melhor, Hobbes disse) que o homem é o lobo do homem. Ora, hoje ele é muito mais logro do que lobo. Nosso propósito é antes enganar do que devorar o semelhante. Passamos-lhe a perna nos negócios, nos concursos, nas relações sentimentais. E queremos que ele se mantenha vivo para presenciar nossa vitória – o que seria impossível caso o triturássemos entre caninos esfaimados. Retifiquemos, então: “O homem é o logro do homem.”

    Vivemos tempos pragmáticos e pouco dados a especulações filosóficas. A especulação que nos interessa hoje é a financeira, por isso proponho esta atualização para o axioma de Descartes: “Penso, logo invisto.” Trocar “existir” por “investir” ajusta-se melhor a uma época na qual se cultiva pouco o ser e se mede o valor das pessoas pelos valores que elas têm no banco.  

    “O que os olhos não veem o coração não sente” é outra sentença que não bate muito com a realidade – mesmo porque pode ser facilmente contestada. Suponhamos que nossos olhos não vejam um buraco à nossa frente. Fatalmente cairemos nele, e duvido que em tal circunstância o coração não sinta e não responda com uma galopante taquicardia. Mudemos, pois, esse brocardo para alguma coisa como: “O que os olhos não veem pode nos fazer tropeçar.” Simples, prático, irrefutável.

    “O futuro a Deus pertence” também deve ser visto com reservas, pois não expressa uma verdade universal. Um político nepotista, por exemplo, dirá com bem mais exatidão: “O futuro aos meus pertence.” E quem pode dizer que ele está errado?

    A atual onda ecológica torna suspeita a afirmação segundo a qual “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Ter um pássaro na mão sugere a atitude politicamente incorreta de comê-lo ou engaiolá-lo, enquanto que deixar os dois a voar concorre para a preservação da espécie. É um gesto de respeito à vida, que os ecologistas e os poetas agradecem. Proponho, então, uma variante menos ofensiva à Natureza (se algum grupo preservacionista quiser aproveitá-la, fique à vontade): “Um pássaro na mão não vale a sua extinção”. Para terminar, sugiro que se substitua o ingênuo “Quem sai aos seus não degenera” por algo mais condizente com a natureza humana. Levando em conta a força da genética, troquemos o verbo e passemos a dizer: “Quem sais aos seus não se regenera.” O povo há muito reconhece essa verdade, traduzida no conhecido provérbio: “Pau que nasce torto, morre torto.”

  • Robérvios

    À noite todos os gatos são pardos, e Robérvios estava certo de que Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Afinal, Saco vazio não para em pé.

    Sempre ouvira falar que Deus escreve certo por linhas tortas e que Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Mas Quem não chora não mama e Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Cada um sabe onde lhe aperta o sapato e, no seu caso, precisava urgente recuperar o ouro perdido.

    Pensou: Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. Essa é, portanto, minha chance, e O diabo não parece tão feio quanto se pinta. Está na hora da onça beber água.

    Foi até Onde Judas perdeu as botas, pois Todos os caminhos levam a Roma. Desceu a ladeira devagar, já que Para baixo todo santo ajuda e Devagar se chega ao longe, tendo em mente que A pressa é a inimiga da perfeição e ninguém precisava Tirar o pai da forca.

    Ia só, pois apesar de que Uma andorinha sozinha não fazer verão, nesse caso Antes só do que mal acompanhado; Não punha a mão no fogo por ninguém.

    A ocasião faz o ladrão. Lá vinha uma figura com uma capa Cor de burro quando foge. Onde há fumaça há fogo, pensou. Lembrou-se de que As aparências enganam e Não se pode julgar um livro pela capa. Em seu delírio achou que ali deveria estar escondido um pote de ouro, pois De médico e de louco todo mundo tem um pouco. Exultante, preparou o bote. Caiu na rede, é peixe.

    Preparou-se para a emboscada. Infelizmente, porém, Quando a esmola é demais o santo desconfia, e Nem tudo que reluz é ouro. Comprou gato por lebre mas agora Não adianta chorar pelo leite derramado. Como Seguro morreu de velho, pensou com seus botões: Mais vale um pássaro na mão do que dois voando e, afinal, De grão em grão, a galinha enche o papo. Além do que, A cavalo dado não se olha os dentes.

    Seguiu em frente. Mas… Quem é vivo sempre aparece e o Castigo anda a cavalo. A viatura de polícia surgiu do nada e Robérvios Foi pego com a boca na botija. O barato saiu caro pois Quem semeia vento, colhe tempestade, Escreveu não leu, o pau comeu. Sabia que iria Ver o sol nascer quadrado.

    Desgraça pouca é bobagem. O que fazer agora? Quando interpelado, nosso ladrão de provérbios Deu uma de João-sem-braço, fingiu que não era com ele. O policial esbravejou, ordenou que parasse, quis saber o que fazia ali. Sabiamente Robérvios se lembrou de que Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Deixou que ele gritasse pois Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha… e se calou. Em boca fechada não entra mosquito. O policial continuou sua ronda.

    Salvo pelo gongo.


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