Raul Tartarotti

  • Futuro do pretérito!

    As cores revelam significados marcantes e frequentes na demonstração de nossos atos, e alguns desejos mais enfáticos associam intensidade única para estruturar aquela manifestação ativa que transborda em um ato contra outro indivíduo, ou por vezes, a nós mesmos.

    Pode ser quando estamos à beira de um ataque de nervos, ou enchendo os olhos de lágrimas, e nossa solidão repudia qualquer um que queira adentrar em nossas vidas e trazer medo e tristeza.

    Eventualmente não são pessoas do mau que nos cercam, como não o foram aqueles estrangeiros a cavalo, agentes do faraó do Egito, Alexandre.

    Por insistência deste, aqueles homens atravessaram fronteiras e grandes distâncias, correndo riscos de ataques dos punhais de ladrões, ou contágio com doenças doloridas e mortais, na busca por objetos secretos mais bem guardados pela corte egípcia. Os camponeses os observavam com desconfiança e medo, porque a experiência lhes ensinara que somente gente perigosa viajava, ou seja, soldados, mercenários e traficantes de escravos. Naquele caso, em meio a tanta dúvida e maledicência, os homens de confiança do rei tinham outra missão, muito mais nobre para a época, eles procuravam livros por ordem de sua majestade. Esses usavam a enorme vantagem de seu poder absoluto para enriquecer sua coleção. O que não podiam comprar, confiscavam. Se fosse preciso fatiar pescoços dariam tal ordem justificando que o esplendor do país era mais importante que os pequenos escrúpulos. Na época daquele grande projeto alexandrino, não existia nada parecido com o comércio internacional de livros. O Senhor das Duas Terras, um dos homens mais poderosos da época, daria a vida (a dos outros é claro; com os Reis sempre foi assim) para reunir todos os livros do mundo em sua Grande Biblioteca de Alexandria. Ele perseguia o sonho de construir uma biblioteca absoluta e perfeita, a coleção que conteria todas as obras de todos os autores desde o princípio dos tempos.

    Esses objetos especiais nos levam ao ponto de partida e ao coração agitado pelo evento da primeira leitura, como definiu Marguerite Duras, passando o infinito ao futuro do pretérito e depois ao subjuntivo, como se sentisse o solo rachando sob seus pés.

    Nada mais humano do que flutuar pensamentos de divagam em nossas redes neurais mais agitadas. O que nos vale ter em mãos é a sensação de que se no ano passado morremos, no atual estamos bem vivos.

  • Mais lúdicos e sutis!

    Na história do Reino Unido, a era vitoriana foi o período do reinado da Rainha Vitória, de Junho de 1837 até sua morte em Janeiro de 1901. 

    Aqueles foram árduos anos para o povo famélico que andava pelas ruas difíceis e vazias. 

    Muitos homens não tinham casa para dormir e se reuniam com outros, em espaços exíguos, para respirar e descansar. 

    A pobreza da época em Londres fazia com que o povo optasse por dormir em caixões do tamanho de seu corpo, caso tivesse como pagar quatro centavos por noite, e ganhavam cobertores feitos de plástico. 

    Se o cidadão tivesse em seu bolso, somente dois centavos, a única opção seria sentar em um banquinho e pendurar-se com os braços, em uma longa corda, que impediria de cair caso adormecesse. 

    A mesma corda segurava outros pobretões esfomeados que tinham tão pouca saúde, quanto dinheiro em seus casacos rasgados.

    De qual lamúria ou incômodo você se compara com aqueles que tentavam sobreviver em tempos onde pouco se tinha, inclusive esperanças?

    Vivemos embriagados com ofertas consumistas e estéticas da última moda, com intenso apego ao valor monetário das vidas que cruzam nas redes sociais ou com os carrões coloridos que se mostram nas esquinas mais limpas, parecendo desfile de Carnaval fora de época.

    A geração da ressaca de dois centavos, assistiu a palavra tornar-se associada ao álcool no século passado. 

    Ela apareceu pela primeira vez no vocabulário inglês no século XIX como uma expressão para descrever negócios inacabados de reuniões, mas foi somente em 1904 que a palavra começou a surgir em referência ao álcool. 

    Na realidade, o significado relacionado ao álcool é um desdobramento de seu conceito anterior, para se referir a negócios ruins ou às consequências de outros eventos.

    Há uma expressão em inglês que diz o seguinte: “he could sleep on a clothesline”, que significa que uma pessoa pode dormir em qualquer lugar. 

    Podendo ser daqueles lugares para passar a noite que a expressão se originou.

    Diferente daquele povo, ao despertar todos os dias, poderíamos ter a mesma sensação de um garoto cigano que vive num vilarejo das colinas da Transilvânia. 

    Que assiste cavalos e carroças descerem a estrada, vacas voltando devagar para o vilarejo no cair da noite, e durante o dia perseguir patos e filhotes.

    Histórias como essas de momentos sanguíneos, merecem consternação, assim como os mais lúdicos e sutis, que nos servem para exercitar a vida entre um respirar e outro.

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

  • Ato saudável

    Minha vida vai muito além das limitações do eu.

    Subir os degraus de qualquer monumento todas as manhãs, me traz a oportunidade de tudo ficar claro. 

    Seria bom passar esse brilho aos olhos dos outros. Está tudo incrivelmente bem, e agora entendo que os limites entre ruídos e sons, são convenções, e todos estão à espera da transcendência. 

    É possível transcender qualquer convenção se você imaginar que pode fazê-lo. Por isso entendo que minha vida vai muito além das limitações do “eu”.

    Ser, é ser percebido, portanto, conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros a natureza de nossas vidas mortais está nas consequências de nossas palavras e ações que continuam a se perpetuar ao longo dos tempos.

    Talvez haja um mundo melhor esperando por nós e que não estejamos mortos por muito tempo.

    Nossas vidas não são só nossas, do útero ao túmulo, estamos ligados uns aos outros. No passado e no futuro, em cada crime e em cada bondade, renascem as esperanças.

    A morte talvez seja apenas uma porta, e quando uma se fecha, outra se abre. Se não pudermos imaginar o céu, imaginemos uma porta se abrindo, e atrás dela, estará a esperança.

    Se um dia você encontrasse com a criança que já foi, aquela pessoa insegura, inexperiente, frágil e esperançosa por carinho, abraço e amor, o que você diria a ela para que pudesse chegar em seu hoje bem melhor?

    O que não vale é mentir sem sentido como descreveu brilhantemente Jean Jacques Rousseau em seu frenesi no último livro chamado “Devaneios do Caminhante Solitário”. Ele escreveu que “Mentir para vantagem pessoal é impostura, mentir para vantagem de outra pessoa é fraude, mentir para prejudicar é calunia”. “Mentir sem proveito ou prejuízo para si ou para outrem não é mentir”. 

    É ficção. 

    Não se poderia dizer que alguém mente quando dá dinheiro falso, a um homem a quem não deve”.

    Com tantas possibilidades em mentir, creio que devemos procurar ser sempre verdadeiros, e correr os riscos desse ato saudável por nossas almas.

    O universo não responde à ansiedade, ao desespero, à pressa. Ele responde à confiança, ao equilíbrio, e à entrega.

    Quanto menos você força, mais tudo acontece.

    O mundo não deve nada a você, então assuma a responsabilidade pela sua vida.

  • Capacitismo

    A discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência, são vistos como normais em sociedades desinformadas ou mal-intencionadas, e essas pessoas são entendidas como exceções; eles creem que a deficiência é algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica.

    Um exemplo de postura inadequada, é dirigir-se ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física, ao invés de dirigir-se diretamente à própria pessoa.

    Atitudes renascentistas como essa, desfilam nos lares das cidades que as acolhem, ocupados com números, objetos, teorias preconceituosas, ou por vezes, nada.

    A história nos mostrou que os franceses condenados, nos anos de 1757, eram levados a praça pública para cumprirem sua punição no fogo, cera e enxofre, porem menos de cem anos depois, o vigiar e punir, foi  transformado em treinamento aos detentos, com disciplina, e frequência às aulas, em dois períodos diários, sendo uma demonstração de progresso e desenvolvimento humano. Naquela França do século XVIII, era clara a evolução das mentes, voltada para um objetivo, a busca da inserção social. E cada sociedade se constituiu, no desejo de ser acolhida como um entendimento ao progresso intelectual de seu povo, sem desfile de capacitismo.

    Hoje assistimos o povo Afegão batendo de frente novamente com o islamismo, praticado ao pé da letra pelo Talibã, esse mal milenar. As mulheres voltam a perder seus direitos, o povo se vê oprimido, e o poder se instaura de forma retrógrada e destruidora.

    O estilo fiscalizador do talibã, pune radicalmente seus opositores, e anuncia cumprir a cartilha da Sharia, com bases ditatoriais.

    Estabelece as mesmas antiquadas regras e tabus de convivência, com armas em punho, sem direito a suplício.

    O que o Talibã faz, segundo o professor, Atilla Kus, mestre e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP, é se utilizar dos conceitos religiosos, para justificar condutas e aglutinar apoio entre segmentos de sociedades que vivem no islamismo.

    No imaginário ocidental, a Sharia é descrita como uma tradução literal da lei islâmica, tal como está escrita no Alcorão, o livro sagrado da religião muçulmana para a vida cotidiana.

    Foi utilizada para justificar a proibição de meninas e mulheres, estudarem ou trabalharem.

    Vendo aqui esse movimento similar ao capacitismo, cada um a sua intensidade e interesse, sabemos que é desumana a relação com as supostas interpretações de quem o pratica, sejam contra os deficientes ou às mulheres afegãs, classificando-as como criaturas inferiores.

    O que nos resta é denunciar grupos deformados mentalmente como o talibã, atrasados socialmente, azedados pelo sangue em suas mãos sujas e carregadas de morte, que deveriam se esfacelar de nosso convívio.

    Lamento incluir esse clã na raça que faço parte no planeta azul, que de tanto girar não consegue soprar com seus ventos secos e nobres, essa lama de maus exemplos de convívio.

  • A verdade pela mentira!

    A composição de um mosaico de histórias, pode ser aprendido nas páginas de um livro bem narrado, que nos transporta ao momento da escrita do autor.

    Se o livro for mal-ajambrado, e não nos levar ao fundo dos sentimentos do personagem, fica difícil ser atraente para um leitor mais crítico, que busca temáticas diferentes, sensíveis ao coração humano.

    A desconstrução de uma tradição, serve como alavanca para o desenho de uma nova narrativa, descrita pelos olhos e a percepção do escritor, envolvido na trama de uma obra de arte. 

    Sendo orgânica, não deve ter um fio desencapado onde o personagem está escorado em outro, como naquele momento em que Pedro ao falar de Paulo, transgride sua narrativa em forma de fofoca, e passamos a conhecer mais sobre Pedro do que sobre Paulo. 

    O Jornalista Italiano Tomaso Debenedetti costumava transgredir a verdade em seus textos, e como descrito acima, debochava do leitor. Trabalhou entre 1994 a 2010 para jornais locais em seu país de origem e criou uma conta falsa no Twitter onde anunciava a morte de personalidades, e com simplicidade estratégica utilizou aquele espaço, imitando um perfil confiável. 

    Lançava seu torpedo falso, para minutos depois anunciar que tudo não passava de uma pegadinha, coisa que repetiu por 10 anos, lucrando nessa toada.

     Uma delas deu errado, e ele assumiu sua jornada como “campeão da mentira”, como gosta de ser classificado. O mais incrível é que nunca foi processado por suas vítimas de seu ataque verborrágico jornalístico. O que o inspira é “dizer a verdade pela mentira” como definiu Mário Vargas Llosa. 

    Essas formas textuais ganharam nome atualizado de fake news, e ele escancarou as fraquezas do jornalismo com suas publicações reais e falsas, na primeira página de portais de notícias importantes. 

    Quando suportamos as confidências de um desconhecido, a revelação de seus segredos nos enche de assombros. Depois disso, devemos situar seus tormentos no drama ou na farsa? 

    Depende de nossa benevolência ou de nossa fadiga. O fraco de atenção sempre sofre mais que os outros, porque os olhos que o cuidam são cegos. 

    Igual a uma terra que não cuida de seus mortos, e que provavelmente está sendo governada pela morte. 

    Não deixe se esconder de você mesmo tão profundamente, pode ser difícil retornar ao mundo dos vivos e de suas rotinas.

     Seu destino com dedos cruzados é de responsabilidade unicamente de suas mãos, as mesmas que desenharam em canetas, poesias de sua história. 

    Os mortos não podem modificar suas esquinas, esses já encerraram as possíveis paixões. 

    Quanto a você, faça valer seus dias de glória junto aos seus, assumindo decisões escolhidas a dedo. Cada letra tem sua palavra pra juntar, e essa, suas famílias, que podem mudar de ideia, eventualmente de uma só vez.

  • O Último Azul

    Qual é o maior pecado que devemos temer em face de nossa caminhada escaldante, que por vezes é gélida de emoções? 

    A certeza.

    Essa é a grande inimiga da união entre os povos, e da tolerância que espreita nossos atos mais dignos.

     Quando Jesus estava na cruz também não teve certezas, por volta das três da tarde bradou em voz alta: Eloí, Eloí, lema sabactâni? 

    Que significa: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”

    O que realmente nos mostra o valor de seguir com o melhor do entendimento humano, é a fé naquilo que imaginamos ser correto, ou acreditamos ser o melhor caminho para trilhar junto aos nossos mais próximos. 

    A dúvida, que promove a contínua busca pelo auto descobrimento, se torna o estopim na procura pelo sentido da vida. 

    Se houvesse somente a certeza e nenhuma dúvida, não haveria o mistério que cerca a esperança mais digna de esforço. 

    Não teríamos fé em nada, em nenhuma possibilidade de dissimulação, sem continuar duvidando do que se apresenta como certo a frente de nossos olhos. 

    Para pedirmos perdão depois de um erro e sermos humildes no entendimento do que se passa, basta não aceitar como os acontecimentos ocorreram e se permitir seguir mais leve.

    Por vezes somos exigidos a sermos fortes e de ferro, porém, somos feitos de carne e osso, por isso a resiliência é um ato muito humano.

    Mesmo aos 77 anos de vida suas oportunidades desfilam a frente para que no estender de seu braço, sejam escolhidas a esmo, e se tornem a próxima experiência, a ser vivida a partir de seu olhar construído até então. 

    Como mostra o filme‘ O Último Azul’ que ganhou o Leão de Prata no último festival de Berlim, e trouxe á tona o direito de sonhar e a crença de que nunca é tarde para encontrar um novo significado na vida, da importância em reeducar o olhar para um tema tão urgente. 

    O filme conta sobre o sistema perene, criado pelo Governo brasileiro, de isolamento vertical compulsório para idosos com mais de 80 anos, ficarem confinados em uma colônia.

     Teca, representada pela atriz Denise Weinberg, tem 77 anos e mora na aldeia de Muriti, na Amazônia, quando é surpreendida pelo anúncio da redução de trabalho por idade, inclusive de sua faixa etária. 

    Encurralada, ela faz uma intrigante viagem escondida dos oficiais em meio a rios, barcos e o submundo, para tentar realizar clandestinamente seu último sonho, fazer um passeio de avião. 

    Imagino que você esteja escolhendo sua próxima aventura em sua tenra idade, ou talvez, na mais rica de todas.

  • Ponte emocional!

    Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade rural, um sítio que lhe dava trabalho e despesas. Ele reclamava que era um homem sem sorte, pois, as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio para publicá-lo no jornal, pois, acreditava que se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito mais fácil vendê-la.

    E assim, Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:

    “Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”.

    Meses depois, o poeta encontrou seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.

    — Nem pensei mais nisso — respondeu ele. — Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que possuo. Desisti de pronto.

    Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestado os olhos alheios.

    Isso nos serve de lição para melhor observar também o outro, que nos cerca e anda de mãos dadas conosco, e sorri todos os dias quando tomamos a iniciativa de uma bela atitude.

    Por vezes não sabemos o valor do que nos envolve, e nos parece que ainda não acordamos de um sonho onde tivemos que dizer adeus. 

    Mas como sobrevivemos, percebemos que onde quer que andemos, gostaríamos que fossemos seguidos. Porque ninguém tem o amanhã garantido, e por isso necessitamos amar toda noite como se fosse a última.

    Se o mundo acabar amanhã, quem você gostaria que estivesse a seu lado?

    Ou, se a festa tivesse terminado e nosso tempo na terra também, quem você gostaria de abraçar, só por mais um instante?

    Às vezes, não tiro uma foto do momento que estou contemplando, porque ela vai atrapalhar. O mais importante, é só ficar nele, como está se passando em meus olhos, transmitindo uma sensação única que a fotografia não vai gravar, porque as coisas belas não pedem atenção.

    Escolha seu melhor para oferecer a quem deseja atrair, vai que o outro pense da mesma forma e aquela ponte emocional tão esperada, se perpetua como exemplo.

  • Um tom diferente na tinta da retina

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

  • Não se deixe levar pelo contágio alheio!

    A Sociedade Teosófica é um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.

    Pode ser considerada uma das poucas democráticas disponíveis a todos os povos. Ela encoraja o estudo da Religião comparada a Filosofia e Ciência, e Investiga as leis não explicadas da Natureza, e os poderes latentes no homem.

    Ela não impõe nenhuma crença sobre seus membros, que se unem espontaneamente pelo objetivo comum de buscar a Verdade e o desejo de aprender o significado e propósito da existência humana, dedicando-se ao estudo, reflexão, pureza de vida e serviço voluntário.

    A Sociedade enfatiza a liberdade de pensamento, da pesquisa, e do debate, um pouco raro de encontrarmos em qualquer esquina.

    Uma das cofundadoras foi Elena Petrovna Blavátskaya, escritora Russa, com personalidade complexa, dinâmica e independente, que morreu em 8 de maio de 1891. Depois de um casamento frustrado ela deixou o esposo e partiu em um longo período de viagens por todo o mundo em busca de conhecimento filosófico, espiritual e esotérico, e passou por inúmeras experiências fantásticas porque acreditava na importância da procura pela verdade, através da troca de ideias e não apenas seguir o que lhe apresentavam como definido. 

    Belo exemplo de alguém que lutou por suas crenças, mesmo após um nascimento frágil onde foi pequena, fraca, e quase não sobreviveu, sendo batizada no dia seguinte porque os pais imaginavam que não duraria muito.

    Como o sentido da vida se divise em 2 partes, onde a primeira é vingar como criatura com saúde, Elena conseguiu. A segunda, é se encontrar com maturidade e clareza, ela atingiu os dois.

    Não é sempre limitada em dois estágios essa receita, poderíamos incluir os anos de vivência, sofrimento e avanços.

    Como foi a vida de outra figura histórica, importante na literatura mundial, que ainda menina ficou pelo caminho, mas deixou sua marca, junto a uma história única para contar. Foi Annie Frank. Escritora que conseguiu com que suas palavras se tornassem livro, graças a gentileza de seu pai. Ela descreveu seus dias no esconderijo em Amsterdam, no precioso diário intitulado “Diário de Annie Frank”, onde descobrimos seu desejo em escrever, bem antes de ser levada pelo III Reich e morrer de tifo no campo de concentração.

    —”Não quero ter vivido em vão como a maioria das pessoas.” (Annie Frank).

    Pegue um pouco de Elena ou Annie e jogue fora outras coisas com a água do balde.

    Não se deixe levar pelo contágio alheio, ele sempre tem uma preferência, que não é você.

  • Caminho factível com prazer!

    A imagem dos demônios dos cristãos foi desenvolvida a partir da figura dos sátiros.

    Eles foram semideuses da Mitologia Grega e viveram como devassos, libertinos de carteirinha.

    A Bíblia sagrada costuma apresentar os sátiros como sinônimos de demônios, principalmente pelo corpo parecido com bodes.

    Não que fossem criaturas que promovessem o mal, mas sim pela aparência associada à quem veio para te levar para o inferno.

    O escritor Javier Marías conseguiu descrever com poesia uma associação terminal levada ao cabo em seu livro “Assim começa o mal”:

    — Não faz muito tempo que aquela história aconteceu, menos do que costuma durar uma vida, e quão pouco é uma vida quando ela já está terminada, e já se pode contá-la em poucas frases, e só ficam na memória, cinzas que se soltam à menor sacudida e voam à menor lufada, que no entanto, hoje ela seria impossível.

    Com os olhos sem maldade, se torna poética uma trajetória humana ao cruzar por uma generosa mente.

    O mais famoso dos sátiros foi Mársias, que era uma criatura meio humana com chifres curtos, orelhas pontiagudas, patas de bode e mãos em forma de taça ou de um instrumento musical.

     Foi uma divindade grega dos bosques e das montanhas, por vezes também chamado Sileno.

    Esse nome lhe foi dado principalmente quando atingia a velhice, ficava barrigudo, feio e andando de burro.

    Nota-se que o etarismo já era praticado com ênfase desde bem cedo em nossa existência.

    Entre os Romanos, os sátiros eram conhecidos por Faunos, e sua participação nas lendas era quase sempre secundária e pouco decisiva.

    Demônios da natureza, companheiros dos deuses, simbolizavam a capacidade criadora dos seres vivos, vegetais ou animais.

    Em termos gerais, eram uma mistura de homem, cavalo e bode, variando de acordo com as versões das lendas. No entanto, a expressão “o juízo de sátiro” pode ser vista como uma forma de negativismo ou pessimismo. Quando alguém está constantemente cético em relação à beleza e ao amor, pode perder a capacidade de apreciar a vida em sua plenitude, e deixar de aproveitar as oportunidades que surgem.

    A vida perene deve ser compreendida; encontrar o prazer sem azedume faz com que a filosofia exerça uma ginástica objetiva para lhe mostrar um caminho factível, com admiração na maioria de seus momentos.

    Compreendido esse capítulo, reza a lenda que a pergunta a ser respondida é por que teimas em manter uma queixa frequente sobre seus dias, por que esperas que somente o amanhã lhe traga a felicidade.

    Cuide-se no agora, bem antes que o entardecer lhe mostre que perdeste mais um precioso dia.

  • Embebida em éter!

    O engenheiro e capitão italiano, Agostino Ramelli (1531 – 1610), nasceu na comuna de Ponte Tresa, hoje um Cantão da Suíça. Ele viveu no ápice do Renascimento, e foi inventor de inúmeros mecanismos para fins militares. Na França, ele criou a “obra” que lhe deu fama até o hoje, a “roda de livros”, que nada mais é do que uma estante de livros rotativa, que lhe possibilitava ler, consultar e pesquisar vários livros sem que o leitor saísse de sua cadeira.

    Os livros ficavam em uma roda gigante, que girava como um moinho movido a água, e dessa forma o leitor absorvia múltiplos conhecimentos de diversos autores sem se dirigir até a próxima estante da biblioteca, e sem preencher sua escrivaninha com aquela tradicional pilha de livros. 

    Podemos dizer que Rameli foi o bisavô das bibliotecas digitais da “web”, inovadoras no quesito empilhar para ler. 

    Nossos ancestrais muito criativos pensavam a frente nas atividades humanas, antes do surgimento da tela do celular em nossos dedos. 

    Como, por exemplo, criaram o antigo hábito de ler e preencher suas cabeças com algo que não seja apenas queixas diárias, ou retirar o foco do próprio umbigo e se tornar um ser capaz de conviver com os psicopatas do cotidiano. 

    Porém, o “avô dos e-books” foi o poeta Bob Brown que viveu entre os anos 1930 e 1940 no Rio de Janeiro. Esse honroso título lhe foi dado pelo “New York Times”. 

    Ele fundou uma revista de negócios chamada “Brazilian American” e foi autor de literatura popular, roteirista de cinema, jornalista, editor e artista de vanguarda. 

    Seu nome completo era Robert Carlton Brown e nasceu em Chicago em 1886.

    Ele perseguia inovações no âmbito literário pensando em melhores formas para disseminar o conhecimento através do livro. Inquieto e resoluto, pensava que a palavra escrita não conseguia acompanhar o tempo. 

    Para continuar lendo na velocidade daqueles dias, ele precisou de uma instrumento. Uma máquina simples de leitura que permitisse que ele pudesse carregar consigo, ligar em qualquer tomada e ler romances de centenas de milhares de palavras em dez minutos se quisesse. 

    A tal máquina que chegou a ter um protótipo construído por um amigo, tinha uma fita de texto correndo por trás de uma lente de aumento a uma velocidade controlada pelo leitor. 

    Está mais para um microfilme do que uma reprodutora de livros. 

    Mr. Brown não queria parar por aí, ele antevia o dia em que as palavras seriam “gravadas diretamente no éter palpitante”. 

    Ele era um poeta, não imaginava como a web em 2025 necessitaria ser embebida em éter para acalmar sua efervescência.

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos”.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se encher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo”, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa: “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • Comer, morar e sobreviver!

    Vivi minha primeira vez em muitas descobertas, durante essa existência por vezes cansada de novas buscas. 

    A primeira viagem, a visita ao Museu, o primeiro castelo na areia, a roupa nova no verão. A primeira comunhão, e a festa de minha formatura na faculdade, foi inesquecível.

    Porém, muitos rostos que talvez tenham cruzado em nossa calçada, nem sequer sabem o que tudo isso significa, ou como poderia ser realizado. Porque ainda vivem em condições análogas à escravidão. Não consigo acreditar que escrevo essa frase em 2023, após Cristo nascer. São pessoas que não tiveram oportunidade em participar em nada similar a uma das sete gerações de uma família feliz e efervescente como foram os Buendía, descritos no livro “Cem anos de solidão”, por Gabriel Garcia Marques. Os escravizados levaram vidas lamentadas pelo isolamento, descaso e algo muito mais doído além do desumano. Alguns encontrados nessa condição são quase idosos, e com frequência acabam em abrigos públicos, onde iniciam sua vida social na busca de laços para uma reconstrução emocional. Quando são jovens e de centros urbanos, recebem cursos profissionalizantes na tentativa de encaminhar uma carreira.

    O rosto do trabalho escravo contemporâneo no Brasil, ainda é masculino e predominantemente da zona rural Brasileira. Existe uma coordenação Nacional de erradicação do trabalho escravo e enfrentamento ao tráfico de pessoas (Conaete); pertence ao Ministério Público do Trabalho. Somente em 2022, foram encontrados pela fiscalização, 2600 trabalhadores no Brasil, em condições degradantes de trabalho ou em jornadas exaustivas. Imaginei que somente os babuínos-sagrados, que vivem no Zoológico de Melbourne na Austrália, fossem as únicas criaturas capazes de cometer crueldades uns com os outros. Os pedidos de ajuda vem inesperadamente de ambos os lados, e um fio de esperança se mostra como sendo a única saída onde essas pessoas se agarram, cheias de fé de que uma boa alma possa colaborar com seu novo destino. Ter uma profissão, uma nova família, amigos, um sonho que muitos que se soltaram das garras de um caminho cruel, puderam usufruir como cidadãos de bem. A abolição ainda não encerrou, ela aconteceu apenas legalmente, é muito recente, e o Brasil ainda não reparou os 380 anos de escravidão; há muitos resquícios, e as necessidades em comer, morar e sobreviver levam o indivíduo a se submeter. Uma lástima que não resolvemos isso antes, e também não erradicamos a fome.

  • Em grupo sempre fomos imensos!

    Muitos propósitos acompanham nossa trajetória em vida, porque possuímos livre arbítrio no desenvolver de ideias e atitudes, similares com as de outros, porém, ficamos ansiosos em viver o máximo possível, no tempo que nos foi concedido.

    Porque inesperadamente pode encerrar o que chamamos de oportunidade em viver, num momento específico escolhido pelo dedo de Deus.

    Outros entusiasmados com frases de efeito, ou livros de auto ajuda, lamentam não terem se esforçado o suficiente, ou alimentado o que seria necessário, sem saber que no relógio biológico está escrito o início e o fim da história humana.

    Porém, no meio de um dos caminhos, surge um terremoto, frio calculista, com números objetivos para sua manifestação, com intuito de destruir milhares de sonhos, que já viviam em parcas condições, e caminhavam a beira de muitas oportunidades sem tocá-las. Um movimento brusco aleatório e destruidor, leva consigo fotos, objetos, roupas, móveis, testemunhos vivos de pessoas que foram felizes até então, sinais fáceis de pronta felicidade e muito amor aos seus mais próximos. O desfile da desgraça com morte e solidão, despejou no povo Sírio a palidez no olhar de choque, fria na entrega de um pesar doído pra quem busca nos escombros de pedras, restos de sua vida no local que anteriormente chamavam de lar. 

    A morte, essa sombria entidade, continua levando consigo gente de todos os lados, se exibindo das piores formas, marcando presença antes do tempo para alguns. Gritos sobre escombros nem sempre cessam após um resgate, mesmo que queiram entender como se safaram e ficaram a sós em meio ao nada. 

    Até porque o que sobrou em forma de areia não tem identificação de qual construção já foi uma vez. 

    Fica uma sensação de que alguns povos sofrem muito mais que outros. As forças da natureza impávidas e destemidas, não encontram adversários a sua altura, capazes de saírem ilesas após intenso embate corporal. 

    Há que respeitarmos e protegermos a contento as possíveis manifestações ditas da mão de Deus. Esse sábio que a muitos põem em teste para medir o valor de sua fé. Nem sempre fomos o mais fraco dos pregos na parede da existência.

     Mesmo os Neandertais, inexperientes, ignorantes em tudo ainda, viviam na região central da Alemanha, caçavam os maiores animais terrestres da Era do Gelo; os elefantes-de-presas-retas, que chegavam a 13 toneladas, o dobro dos elefantes africanos de hoje. Em grupo sempre fomos imensos, inteligentes e capazes de nos ajudar no tiro da lança no peito da fera, e com a mão que retira uma vida do escombro.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. 

    O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. 

    O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. 

    Carrega a eternidade como salvação das almas e mantém o religioso atento às esperanças de paz no céu após sua partida. 

    Como entender o predomínio de um poder que tal data manda, tal povo, tal decisão e aspirações, se os propósitos parecem distintos e as forças diferenciadas? 

    No tempo de Milcíades, um jovem General Helenico que comandou a vitória sobre os Persas no mundo mediterrâneo, ignorava-se a existência do mundo extremo-oriental, e o poder exercido em tal época não tomava conhecimento de absolutamente nada mais, além da poderosa Atenas, maior potência da antiga Grécia. 

    Esse isolamento vaidoso, transformou esse general soberbo em um derrotado, e preso, ao final malogrado. 

    De maneira similar faziam os guerreiros de Atenas, para suas mulheres. 

    Elas Teceram para seus homens, soldados, ausentes além da morte, dedicadas aos filhos e sustento da família. Subservientes a supremacia masculina, talentosas, entregaram suas vidas e desejos ao se dedicarem exclusivamente as lides domésticas, a servidão sexual, a procriação, para alimentar a guerra, e por isso sofreram suas perdas.

    A Grécia Antiga não era uma nação, mas sim um conjunto de cidades-estados cujos povos possuíam algumas características em comum, como a semelhança linguística, por isso foram chamados genericamente de gregos. 

    Porém, ninguém jamais exerceu tanto poder na terra quanto a soberania da opinião pública, que é a força radical, e que produz, nas sociedades, o fenômeno de mandar e descobrir o que é verdadeiro.

    A verdade é algo instável, resultado de uma negociação, porque a história é contada com a versão de cada narrador, e o poder é a questão central de nossa existência, é a maneira como estamos dispostos a aceitar o valor de certos discursos contra outros. 

    E isso depende de quem está falando, se é poderoso, homem ou mulher, branco ou negro, sempre irá exercer uma trama subjetiva nas mentes do povo, que se mantém na expectativa do próximo passo, que o leve a redenção. 

    Além da morte, não sabemos ao certo o que é verdade, apenas até o seu momento.

  • Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu bel-prazer. 

    Em sua mente pode aparecer uma cena de horror quando seus dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como você está de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito, felicidade, empacotada nas mãos a disposição de um instante para se expor, ou enxugar os olhos marejados. 

    Mas se a cena no palco partir de seres sem rosto, recém chegados nesse planeta, descobrindo o mundo como se acabassem de nascer, o que você escolheria pra começar tudo de novo? Onde iniciaria sua desventura repaginada com uma lista de quero mais isso, ou nunca faria novamente o que tanto me desgastou? 

    O silêncio das ideias, traz a tona o sonho, a espera de um despertar magoado pela demora em se desmanchar em vida.

    Nem todos os atos nos levam a ser o “Lanterne Rouge”, expressão tirada do transporte ferroviário, popular no século XIX, como o último vagão do trem que acendia uma luz vermelha para mostrar que era de fato a última composição.

     Nossas escolhas estão sempre em transformação, se modificam na fila da esperança quase todo santo dia, por isso fica difícil nos chamar de Lanterna nesse campeonato da existência.

     Manter-se a frente das novidades nos permite escapar da sinfonia do Flautista de Hamelin, que conduziu a seu interesse cento e trinta crianças para uma caverna sem saída. 

    “Ao final de tanto viver, não tenha pena dos mortos, mas sim dos vivos, dos que vivem sem amor”. J.K.Rowling.

  • Pérolas Clássicas!

    Mantenho minhas armas em punho durante o dia que corre mais que o vento, não desmanchei minhas trincheiras expostas na sala de estar e no quarto. 

    Bem verdade há muitos anos me preparo para atacar quando necessário, e me defender, quando balas de mau-humor e desinformação cruzam meus ouvidos atentos. 

    Vez por outra meus olhos enxergam o mau se apoderando de um local público, ou testemunho um evento radical voltado ao populismo desmedido.

    Porém, o que mais me importa são as balas e armas que mantenho estocadas agora com mais espaço e segurança.

    São meus livros. 

    Eles me embriagam de conhecimento e tonteiam meus rumos, devido à quantidade de possibilidades em suas páginas. 

    Essas verdadeiras armas contra todos os males, tornam o papel um farol noturno aos olhos cegos e inexatos, que por vezes teimam na busca de ideias fascistas ou sectaristas ao extremo. 

    Em minha cabeceira está o livro “Como a Loucura Mudou o mundo”, escrito pelo professor de psicologia Christopher J. Ferguson, que analisou o comportamento de líderes que já se foram para uma pior, já que por aqui deixaram dor e sofrimento.

    O personagem do capítulo da vez é Calígula, que manteve relações sexuais com as irmãs, e forçou alguns desafetos ao suicídio. Aquela mente perturbada governou Roma e promoveu o medo e a morte como uma das propostas de gestão. Impressionantes heranças consanguíneas mantiveram indivíduos desse calibre no poder. E a Loucura se mantém exposta aos desatentos e desafetos as soluções propostas. 

    Outro livro que me ronda é “Parque Industrial”, um romance proletário de Patrícia Galvão, a Pagu. Um importante documento social e literário, com uma perspectiva feminina e única do mundo modernista de São Paulo. Ele trata da vida dos operários no bairro paulistano do Brás, e relata a hipocrisia que se vale da desigualdade social para subjugar a mulher proletária. Um panorama dolorido e presente nos nossos dias, que ainda insistem ser ensolarados.

     Outro livro muito curioso que me surgiu presenteado é o “Guia de Leitura, 100 autores que você precisa Ler”, de Léa Masina, uma enciclopédia de escritores. Com minibiografias de 3 a 4 páginas dos escritores em destaque, com suas histórias, estilos, melhores livros, elaborado em companhia de críticos, jornalistas, professores e intelectuais da literatura, que contribuíram com seus conhecimentos para dar vida a um aperitivo sobre autores como Albert Camus, Umberto Eco, Thomas Mann, e um de meus preferidos Fiodor Dostoiévski que de Engenheiro a Militar, repousou na literatura, pérolas clássicas que cruzam os tempos.

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