Há pessoas que nos ensinam sem perceber.
Ao longo da vida vamos colecionando ideias, frases, hábitos e pequenos exemplos que, por alguma razão, nos chamam a atenção. Nem sempre compreendemos imediatamente por que ficaram guardados. Mas ficam. Adormecidos em algum canto da memória, esperando o momento de reaparecer.
Lembrei-me disso recentemente ao recordar uma funcionária que trabalhou comigo há muitos anos.
Era uma mulher linda.
Casada com um homem igualmente bonito. Tinham dois filhos que poderiam ser modelos, atores e estampar páginas de revistas. Formavam aquela família que costumamos olhar e pensar: “Parece um comercial de margarina.”
Mas não foi a beleza deles que ficou registrada em minha memória.
Certa vez, numa conversa sem importância aparente, ela me contou algo que nunca esqueci.
Disse que, de vez em quando, surgiam aqueles momentos de desânimo que atacavam sem avisar. Independente de riqueza, de beleza ou dos acontecimentos. Dias em que a rotina pesava mais do que deveria. Ou as dúvidas incomodavam e apareciam sem motivos. Ou a vida parecia descolorida e sem graça.
Quando isso acontecia, ela tinha um ritual.
Pegava seu álbum de casamento.
Sentava-se sozinha e folheava as páginas lentamente.
Observava os rostos, os sorrisos, os abraços. Revivia a alegria daquele dia. Reencontrava nos olhos dos noivos a esperança, os planos, a emoção e a certeza que haviam sentido ao iniciar uma vida em comum.
Segundo ela, aquelas fotografias tinham o poder de reabastecê-la.
Não porque a vida tivesse permanecido igual àquele dia. Pelo contrário. Havia contas para pagar, filhos para criar, preocupações e cansaços. Como em qualquer casamento.
Mas as imagens a ajudavam a lembrar por que tudo havia começado.
Ela dizia que, ao fechar o álbum, sentia-se mais forte. Como se tivesse voltado a beber água numa fonte antiga que existia dentro dela mesma.
Na época achei curioso.
Hoje acho sábio.
Talvez todos nós devêssemos possuir um álbum assim.
Não necessariamente de casamento.
Pode ser uma caixa de fotografias, uma carta guardada, um bilhete antigo, uma lembrança de família ou qualquer coisa que nos reconecte ao melhor de nós mesmos.
Porque a vida, às vezes, nos afasta dos sentimentos que um dia nos construíram.
E talvez a arte de seguir em frente esteja justamente nisso: voltar de vez em quando ao lugar onde o amor começou, apenas para lembrar que ele ainda mora ali.