Sexta-feira

  • Árvore de Natal

    Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou.

    – Vamos! Vamos!

    – Vamos onde?

    – O Papai… Papai foi…

    Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de Natal, a gente não ia deixar ele sozinho. Então, os dois bem juntinhos, a gente foi caminhando pelo corredor. Os chinelinhos de Lininha, teque, teque, faziam barulho no soalho. Falei pra ela, ela tirou eles. Estava tudo escuro, muito escuro mesmo. Então a gente foi andando mais devagar, devagarzinho, encostadinho na parede. Tinha uma vaso de avenca no meio do caminho, Lininha bateu nele, e então a gente resolveu ficar ali.

    Logo, lá no fundo, acendeu a luz. Então a gente resolveu andar outra vez. Apareceu uma sombra, era o Papai. E a gente foi caminhando mais devagarzinho, com cuidado pro Papai não ver a gente. Ele não podia mesmo, estava tudo escuro; mas a gente via bem, que lá na sala, lá tava claro. Tinha um armário no fundo do corredor, a gente chegou ali e ficou bem juntinho dele e da porta. E ali, bem escondidinhos, a gente ficou olhando o Papai.

    Ele pegou a árvore, arrumou bem os galhos, alisou tudo direitinho, pôs em cima da mesa, ficou olhando pra ela. Depois se sentou, baixou a cabeça, olhou de novo a árvore, baixou outra vez, fez que assoou o nariz, passou a mão nos cabelos. Ah, a gente gostava de cariciar aqueles cabelos. Eu tava pensando isso, Lininha me chamou.

    – Olha!

    – Olha o quê?

    – Bobo! – ela falou e eu vi que ela tava brava mesmo. Mas logo ela continuou:

    – Olha! Ele está se levantando agora. Abriu a janela. Você sabe pra onde ele tá olhando?

    – Pro cemitério.

    – Psiu! Fala baixo. Papai percebe.

    – Então era isso! Eu já tava desconfiando que Papai tava chorando. Tava um quadro tão feio o Papai arrumando a árvore, sem a gente perto, sem… sem a Mamãe! Lininha, ela não vai voltar mais mesmo?

    – Viu?! O Papai percebeu. Eu não falei pra falar baixo!

    Então a gente viu o Papai se voltar e olhar pra gente. E então a gente saiu de detrás da porta e foi caminhando pra ele. Ele cruzou os braços, olhou bem pra gente, parecia que estava bravo. Mas logo ele se baixou, abriu os braços, chamou a gente.

    Então a gente foi correndo e logo tava os três abraçados. E a gente chorou. Papai chorou. E eu. E Lininha.

    Depois Papai se levantou, a gente no colo, e foi pra janela. Apontou pro cemitério, lá longe. Os eucaliptos na estrada subindo pro cemitério pareciam fantasmas, meio pretos, meio cinzentos, balançando-se no vento. A gente não tinha medo, tava quase gostoso. Um ventinho macio trazia pra gente um perfume quente de flor e mato molhado. E a gente olhou depois pra mangueira no quintal. Veio um vento forte e derrubou um monte de mangas. E ficou ventando e ficaram caindo mangas. Depois parou, ficou tudo parado. E a gente ficou pensando, a mangueira era a vida, as mangas que caíam era a gente quando morria.

    – Mas Mamãe foi devagarzinho, não foi bruto assim – Lininha falou. Mas nem não acabou bem e a gente viu cair outra manga e não tinha nenhum vento, foi suave, bem devagar. Então eu falei:

    – Mamãe foi assim.

    Depois a gente ficou ainda olhando pro cemitério, com uma dor grande, um peso bem pesado no coração. Pspt, bateu uma coisa na janela, a gente olhou, era uma rosa, bonita de vermelha, que se esfolhou todinha. Depois a gente olhou pra lua, ela tava coberta com muitas nuvens pretas, parecia que tinha um véu de viúva. Parecia que a gente via lágrimas caindo dela. Parecia que ela chorava com a gente a ausência de Mamãe. Não tinha nenhuma estrela no céu. Ligeiro a lua também sumiu. E então começou a chover. E a Lininha falou:

    – Tudo tá chorando com a gente.

    E tava mesmo. E então o Papai desceu a gente no chão, fechou a janela e começou outra vez a arrumar a Árvore. Pegou os enfeites, arrumou bem direitinho nos galhos, pendurou todas as bolas, as lampadazinhas, de toda cor, e voltou a se abraçar com a gente. Então a gente se levantou, bem seguros nos braços de Papai, e apagou a luz. E tudo afundou numa escuridão bem grande, tava tudo preto. E então a gente procurou o botão das luzes da Árvore de Natal, e acendeu tudo. Como tava bonito! E como tava triste ali sem a Mamãe!

    E então depois a gente sentou junto do pé da Árvore, e a gente ficou, os três bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe. E tudo chorava com a gente. A chuva. Uma goteira cansada. Aquele passarinho piando, longe lá fora. E a Árvore sobre a gente era como se a Mamãe chegasse ali, ficasse com a gente, e falasse obrigado, gostasse da gente ficar ali.

    E a noite foi longe, e veio o dia, e a gente ficou ali, até dormir de cansado, os três bem quietinhos, bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe.

  • Morrer de amor

    Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri.

    Por que sorriu? Lembrou dos amores passados?

    Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro escutando o coral cantar eu me dei conta que morro do coração por amor desde que era adolescente. Não é exagero, é verdade. Eu sei que é difícil acreditar porque usualmente eu projeto uma imagem séria e bem controlada, até porque a grande maioria das pessoas que convivem comigo atualmente são do campo profissional. Portanto, a gente até sorri mas é algo mais corporativo.

    Tá, sem viagem por favor. Continua porque estou tentando te entender.

    Às vezes nem eu consigo isso. Mas enfim ai me veio à cabeça a ideia que nas multidões anônimas que se esbarram todos os dias pelas ruas existem aqueles cujos corações pararam. As razões são as mais variadas, isto é, as dores de amor são múltiplas. Tem pela pessoa amada, a mais comum, mas tem por filhos, animais de estimação, carros, casas, relíquias e até por livros que se perderam. Tudo pode provocar paixão ao mesmo tempo em que tudo pode partir o coração.

    Verdade, concordo com você.

    Então, nas noites com ou sem lua se fosse possivel escutar a frequência dos uivos de quem padece por amor seria ensurdecedor. Cada um, com sua dor, uivando aos prantos. Mas uivo de amor tem uma frequência tão alta que nem os cães captam. Toda noite, tão certo quanto há estrelas no firmamento, tem a sinfonia dos desesperados que morrem de amor.

    Ai quanta dor ao luar!

    Mas nada é para sempre muito menos as mortes de amor. O que vem avassalador, vai embora suavemente, escorrendo para fora dos corpos. Memórias são criadas, decisões são tomadas. Uma vida recomeça sobre as partes, as vezes até escombros, da anterior. Vida surge onde antes havia… vida. E assim, sem que se dê conta, levantamos da fria cripta e saímos andando ao calor do sol.

    Sou uma dessas almas que ressuscitam. E antes que eu em esqueça, como chama o coral onde sua amiga canta?

    Gogós.

    Gostei.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • Falsa semelhança

    Eu estava numa loja de departamentos de um dos nossos shoppings, quando uma mulher se dirigiu a mim e fez a pergunta:

    — O senhor é de Jatobá?

    — Como?

    — De Jatobá?…

    — Não senhora.

    Ela riu sem graça:  

    — Pensei que fosse, pois se parece muito com Seu Edmundo da capotaria. Desculpe.

    Deu um suspiro e repetiu para si, perplexa:   

    — Se parece mesmo!

    Ainda pensei em lhe perguntar: “Em que sentido?” — pois há semelhanças e semelhanças. Umas são da fisionomia, outras da compleição, outras dizem respeito ao comportamento.

    Notei que ficou me olhando, desconfiada. Parecia não acreditar que eu não era quem ela queria que eu fosse. Antes de se afastar, ainda exclamou:

    — Puxa! 

    Vendo o seu desapontamento, tive um pouco de pena e até pensei em confirmar suas suspeitas. Não custava mentir para que ela se desse por satisfeita e me deixasse em paz. Há pessoas que não aceitam ser contrariadas nem nos seus enganos. 

    Enquanto eu esperava ser atendido pelo caixa preferencial (triste rótulo), notei que ela se detivera em frente a uma vitrine e furtivamente me observava. Imaginei com preocupação que poderia me abordar de novo.

    Chegada a minha vez, dirigi-me ao atendente sem olhar de lado. Ele me reteve mais tempo do que o necessário, propondo me passar o cartão da loja, que me daria cashback e outras pequenas vantagens. Até estimei essa conversa, que em outro momento me chatearia, pois enquanto me concentrava em recusar o assédio comercial eu me alheava dos olhares da mulher.

    Paguei e me preparei para deixar a loja. Vi que para chegar à porta passaria bem perto dela, que continuava me olhando. Tive receio de que mais uma vez me abordasse e, caso eu continuasse a negar o que me atribuía, me chamasse de mentiroso. Eu não estava com a Certidão de Nascimento nem com outro papel que revelasse o local onde nasci. Quanto à Identidade, ela poderia dizer que era falsa. 

    Antes de deixar a loja, dirigi-lhe um breve cumprimento; afinal, eu involuntariamente tinha frustrado duas de suas expectativas. Mal saí, ouvi atrás de mim uma voz chamar, num tom grave:

    — Edmundo!

    Virei-me, assustado, e o sujeito que falara isso pediu desculpas; confundira-me com alguém.  

    — Tudo bem — eu disse.

    Curiosamente, isso reforçou em mim a desagradável sensação de que um sujeito chamado Edmundo, e residente em Jatobá, se parecia muito comigo. Torço para que seja um homem correto e confeccione bem as suas capotas; que não dê calote nos clientes, não bata na mulher, não agrida os motoristas no trânsito, enfim, não faça nada que o leve a ser procurado pela polícia. A semelhança entre nós representaria para mim um risco.  

    Antes de seguir em frente, olhei meio sem querer para a mulher. Parece que ela não ouvira o pedido de desculpas, pois me fitava com um ar entre aliviado e triunfante. O ser humano procura em tudo um parceiro, um cúmplice, e ela parecia satisfeita por demonstrar que não fora a única a me confundir com outra pessoa.

  • O Ouriço

    Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente.

    Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira.

    O Duque não pode morder o ouriço; mas não desiste. Que dó que isso dá! Bicho besta, por que não vai embora? Aí, teimando e se machucando. Também, que mal que fez o coitado do ouriço, esse bichinho inocente. O quê? Inocente? Um monstro que caiu em cima do Duque, todo escalavrado.

    Um tiro de repente. E a voz do meu pai:

    – Menino, desce daí!

    E eu desço, fazer o quê?

    – Por aí não, pelo outro lado.

    – Por quê?

    – Desce logo.

    Eu sei que não tem espinhos no chão. Ele deve estar cismado; eu obedeço.

    – Vai lá dentro buscar um alicate. Corre.

    – Alicate?

    – Tem que ficar perguntando as coisas? Vai, vai duma vez.

    Eu obedeço. O Duque está lá encolhido num canto da cerca. Geme, geme baixinho.

    Meu pai sabe fazer as coisas direito, por que então não trata do Duque, fica pedindo alicate?

    – O que você quer?

    – O alicate, mãe.

    – Por que você quer alicate?

    – O pai que quer, mãe.

    – Põe no lugar depois, hein?

    – Sei.

    – E não revira esse baú.

    Pego o alicate, levo correndo. Na porta da cozinha escorrego, me esparramo no chão.

    – Cuidado! Sempre estabanado. Não precisa correr tanto.

    Levanto, saio mancando. Tinha que ir apressado. É que me lembrei do Duque.

    Meu pai está agachado. Está fazendo um carinho, consolando, passando a mão na barriga do Duque; com a outra mão segura firme no pescoço, agarrando a pele.

    Não fala nada.. Pega o alicate, segura mais forte, põe o joelho prendendo bem o Duque. Pacientemente, devagar, com mão sábia, depois num arrancão tira espinho por espinho.

    O Duque deixa, nem se mexe. Só chora, um chorinho desconsolado, lá do fundo. O focinho pingando sangue.

    Depois, some um tempo. Não muito; na hora da janta esta lá num canto da cozinha.

    Minha mãe põe a sopa de mandioca na mesa. Oba. Comemos com uma senhora satisfação. Mas logo meu pai se irrita, está olhando o Duque:

    – Bicho imprestável!

    – Ele não tem culpa, pai.

    – Por que é que não tem?

    Lá no seu cantinho, aqueles olhos de dor. A gente percebe, uma aflição bem de dentro.

    – E o ouriço, pai?

    – Que é que tem?

    – Que é que o senhor fez com ele?

    – Ara! Nada.

    Terminamos de comer sem vontade, a sopona fumegando numa gosto-sura.

    Não paro de olhar para o Duque:

    – Como que o ouriço faz isso?

    – Ara! Faz.

    – O espinho vai que nem flecha?

    – É.

    – E fura a carne?

    – Vai furando. Se não tira vai indo para dentro.

    – E agora?

    – Agora vamos fazer o quilo. Logo é hora de dormir.

    – E o Duque, pai?

    – Ele sara.

    – Ele não comeu nada.

    – Quando a fome apertar, ele come. Sossegue, isso passa.

    Meu pai acaba de enrolar um cigarro, vamos para a varanda. Ainda olho o Duque; ele abre os olhos, se bate de leve – uma tremura.

  • O amor, sem querer, acaba

    “Sim, o amor acaba”, assim, Paulo Mendes Campos começou uma das suas mais célebres crônicas. Iniciou com uma assertiva que, no íntimo, sabemos ser verdade; não obstante algumas tentativas de mistificação, como na frase tantas vezes escutada “se acabou, é porque não era de verdade”, nada mais falso do que isso. Até o mais autêntico, puro e intenso amor alcança o instante postimeiro. Expira tendo sido amor.

    Há, evidentemente, os casais que findam a vida sem darem adeus ao relacionamento (todos nós conhecemos exemplos desse tipo). Acontece, porém, que o ocaso do amor não deixou de ser possibilidade ali, apenas se chocou com outro termo, de essência mais fugaz do que aquilo que une duas almas.

    O desenlace pode ter um encontro marcado, alguns eventos são capazes de sublimar até o mais sólido dos sentimentos. Por vezes, vem de surpresa; quando ainda fazia planos e passava a noite com pensamentos enamorados, chega-lhe a conversa que não ansiava e nem previa. Em outros casos, termina o relacionamento e não termina o amor, nada pior, nada mais doloroso. O que era um se faz dois, e tudo chega ao fim. “De repente, não mais que de repente.”

    Todavia, nem sempre é tão de repente assim. Depois de anos, você se dá conta de que a companheira que vive ao seu lado se tornou apenas uma pessoa com quem se compartilha o mesmo teto e a mesma cama. Eros não habita mais aquela casa, como não habita mais o seu peito. Sumiu-se a amada, sumiu-se o amante, sumiu-se o amor, não se sabe quando e nem onde. Foi-se, “para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora”.

    Sim, o amor acaba. Entretanto, afirmar isso não é dizer tudo.

    O sujeito que ama não pode aceitar simplesmente o caráter perecedouro da sua relação, muito menos o da afeição que sente pulsar nas mãos que lhe afagam. É inconcebível.

    Enquanto amar, lutará internamente contra a dita lei. O amor alcança um epílogo, mas com o seu será diferente. Sabe que o que bate a um só tempo em dois corações é tão efêmero quanto a existência, fenecendo durante ou com ela; contudo, sempre desejará ir além.

    Entre suas convicções, pode estar a de que a flama cessa; inclusive, até tendo com si que existe a possibilidade de a sua chegar ao cabo em algum momento futuro e jamais sabido de antemão. Convicto da dimensão finita do amor genérico, não pensa no fim concreto do que vivencia e sente, apenas no perpétuo prolongamento dele.

    Para quem ama, ele é eterno e se manifesta como tal no tempo específico que lhe pertence. Possui uma temporalidade própria, só compreensível no coração dos que se deixam afetar pelo fogo de que fala Camões. Ademais, a eternidade se faz em cada átimo da duração do amor, todos os segundos estão impregnados dela.

    O amor acaba, no entanto, o sentimento amoroso pretende ser infindável na sua duração transitória. Todo amor almeja ser eterno em sua finitude.

    Paulo Mendes Campos acertou ao afirmar que o amor acaba. Mas a melhor tradução do sentimento amoroso partiu de Vinícius de Moraes:

    “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”

  • Fabulazinha

    O velhinho enfiou os pés na água fria, distendeu os dedos doídos, espreguiçando-os, e saiu um pouquinho de dentro de si mesmo. Foi até ali em frente, no meio do lago, onde um pato nadava.

    Era um velhinho muito velho, com uma barba compridíssima – a pontinha bulindo na água – e branquinha, da cor do pato que deslizava mansamente, mal se movendo.

    As grandes árvores copadas coavam a luz finíssima do sol, restiazinhas de bem-querer.

    O velhinho punha os olhos no pato, navegava com ele no manso lago azul – pensava um menino com roupinha de marinheiro, mas o lago era verde, não tinha céu azul refletido nas suas águas, tinha o verde das árvores, a sombra verde e fresca das árvores nas águas friíssimas.

    O velhinho se sorria do lago que era essa sombra verde e fresca. Sem perceber, se encantava – fazia parte do encanto da paisagem.

    O pato que vinha vindo, naturalmente, aproxima-se do velho, mais perto, pertinho.

    Chega, ergue o pescoço, com displicência, e mergulha. Nada de extraordinário, mas o velhinho fechou os olhos, e era como se o pato mergulhasse nos olhos do velhinho, compondo lá dentro o musgo da sombra, a dança dos feixezinhos de luz, a água calma e o próprio velhinho. O encantamento foi tão profundo que o velhinho não mais reabriu os olhos.

    “Que belezura, mamãe, aquela estátua!” – disse o menino com roupinha de marinheiro que precisava ter entrado na fabulazinha. E apontava o velhinho com a sua barba branquíssima e um pato nos joelhos – o velhinho pobríssimo que esquece a dor do mundo com um pato no coração, e sorri para sempre um sorriso beatífico.

  • Toxidade a conta-gotas

    Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.

    Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.

    A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.

    Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.

    Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.

    O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.

    O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas
    gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.

    Cria-se distância entre os dois.

    Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.

    Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.

    Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.

    A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.

  • O tempo da praça

    Vários dos pedestres que percorrem aquela avenida, em meio ao tráfego acentuado e aos estabelecimentos comerciais, mal imaginam que, logo ali, há um espaço independente de toda essa atmosfera. Muito menos quem faz uso de automóveis; o vidro fechado isola o motorista, algo que ele próprio almeja, mas que obnubila sua relação com o mundo.

    Incrustrada nesse meio e em contraste com ele, tomando a forma de um enclave, encontra-se uma praça.

    Como uma ilha ou uma república autônoma, o funcionamento da praça é diferente do vivido no seu entorno. Neste, sobressai a azáfama, nenhum segundo pode ser perdido.

    Naquele, tranquilidade, remanso, reinando um sobretempo, no qual, as horas do relógio se prolongam desmedidamente ou nem sequer existem.

    A correria diária mingua as possibilidades de se dedicar um bom período a passear no recinto. Os horários, os compromissos, o ponto a bater, nada permite isso. Todavia, regular ou esporadicamente, diversas pessoas o visitam. Sujeitos que se fazem presentes no espaço e que fazem ele.

    Entre as personagens que compõem a paisagem diária do local – os que se exercitam no arco externo, mais sob efeito das buzinas do que dos cantos dos pássaros; os casais de jovens, a contrariar a opinião corrente de que não se namora mais em praça; os que recorrem à privacidade dos locais públicos, a fim de fugir da vigilância preconceituosa da sociedade e da casa –, a que mais me chama atenção é a do trabalhador que procura aquele lugar para aliviar o jugo do tempo que recai sobre seus ombros.

    Necessitando cortar caminho, alguns só atravessam o rossio. Porém, no seu interior, o tempo corre lento; assim, a marcha é desacelerada e a morosidade assume a direção. Por vezes, entre um trajeto e outro, até se deixam perder pelos caminhos e arvoredos, nem que seja por um átimo, até que a lembrança dos encargos ascenda subitamente.

    No horário do almoço ou após o expediente, aproveitam o curto período que possuem, sentam-se nos bancos da praça, permanecendo sem qualquer motivo ou ambição. Se há algum direito ao ócio na vida cotidiana daquelas pessoas, ele é exercido ali, durante o curto instante que possui ares de eternidade. Ficam apenas para estar, porque estando, são.

    O transcurso célere dos dias se encontra interditado naquela área. No trabalho e em casa, os ponteiros do relógio comandam a rotina. Naquela praça, não. Não existe hora, minuto ou segundo, somente um tempo suspenso, incapaz de ser medido. Desse modo, os “escravos martirizados do tempo” sentem afrouxar suas grilhetas por um instante, talvez, até sonhem em não mais as ter.

    Ao contrário do que afirmou o grande escritor Marques Rebelo, os pobres não ignoram as árvores e o “consolo que há no seu aconchego e na sua sombra.” Sabem estimar elas muito bem. Se não vão a sítios e a hotéis, onde os ricos passam os finais de semana, valem-se das praças nos breves ínterins disponíveis.

    As plantas, os pássaros, o silêncio, a sensação de quietude presente no local e internalizada em quem está nele, tudo parece contrastar com o ambiente externo e com a própria vida. Possivelmente, a atração por esse tipo de lugar se origine justamente disso, residindo na possibilidade de se embriagar por um momento e “não sentir o fardo terrível do tempo.”

  • Pavê da vovó

    A receita era antiga e sua avó quando era viva nem lembrava mais sua origem. Talvez fosse portuguesa, talvez holandesa ou uma mistureba de influências. Mas assegurava que tinha aprendido ainda mocinha quando morava em Vassouras, no interior do estado do Rio. Seu avô nunca foi muito fã desse pavê, dizia ela rindo, nem seu pai. Mas você meu neto, faz a minha alegria. Era verdade. Ele comia tudo que ela fizesse e tinha uma predileção toda especial pelo pavê da vovó.

    Os ingredientes não tinham nada de especial. O pavê leva leite, creme de leite, baunilha, leite condensado, uma gema de ovo e biscoito de maisena claro, dizia sua avó. Biscoito champagne não se usava porque era caro e nem tinha lá na roça.

    Mas ele sabia que não era só isso. Não podia ser só isso. Outras pessoas tinham feito pavê com rigorosamente os mesmos ingredientes mas o sabor nunca era o mesmo. Tinha algo que sua avó fazia que dava aquele gosto especial. O que seria? A qualidade dos ingredientes? As marcas escolhidas? A forma de misturar? Não tinha a mínima idéia mas era insuperável.

    Uma vez quando era menino pediu de presente um pavê para comer sozinho, sem ter de dividir com as primas e os primos. Era uma das lembranças mais doces de sua infância.

    Sua avó morrera há uns 10 anos e não passou a receita para ninguém simplesmente porque ela tinha tudo de cabeça. Anotar para quê se eu faço pavê desde o século passado, ria.

    Com o passar dos anos, o assunto pavê da vovó acabava entrando até nas conversas entre amigos. Sabe quando alguém tem aquelas idéias pretensamente saudosistas de recordar o que tinha de bom na infância? Em verdade é só para alguém se mostrar contando aos outros como ele foi feliz quando era criança, blá, blá, blá. Mas para ele, felicidade era doce e gelada e atendia pelo nome de pavê da vovó. E todo mundo já sabia disso e dava risada porque ele nunca falava outra recordação da infância.

    Na última vez em que esse assunto veio à tona foi na festa de noivado dele. Ah sim, não contei mas o rapaz encontrou o amor de sua vida e, à moda antiga, noivou com a moça. Por sinal foi uma bela festa em um sitiozinho lá em Vargem Grande, na zona Oeste do Rio, mas isso eu conto outra hora.

    Ao ouvir pela enésima vez que bom mesmo era o “pavê da vovó” a moça se encheu de coragem e disse: vou fazer um igual ao dela. Todos olharam na direção dela e aplaudiram sua atitude. Afinal, já era hora do rapaz voltar a sentir aquele prazer de sua infância e quem melhor do que ela para fazer esse mimo com ele?

    Qualificações ela tinha de sobra. A moça era craque na cozinha, neta de mineira com baiana e com curso de pâtisserie na França. Na semana seguinte quando ele foi visita-la em casa, surpresa: pavê! Ela fizera sua sobremesa favorita. Das brumas do seu passado para o nosso doce presente, meu amor, cantarolou ela contente.

    O noivo se sentou na mesa da cozinha mesmo, pegou uma fatia generosa de pavê e comeu de lamber o prato. A noiva sorriu vitoriosa aguardando ele falar que era igual ao da avó. O noivo rasgou elogios sinceros, disse que estava maravilhoso, mas não era o da vovó!

    Ela não se abalou. Nas semanas seguintes ela arregaçou as mangas com decisão e entregou-se ao desafio: o pavê da vovó. Fez de novo, de novo, de novo e de novo. Passou semanas em pesquisas pela internet, em livros de receita e trocando informações com seus professores franceses. Buscava pessoalmente os ingredientes de melhor qualidade, a despeito do isolamento social provocado pela pandemia do Covid-19. Trocava as marcas, buscava alguma mais regional que não se encontrava no Rio de Janeiro, enfim fez piruetas. Ela dizia que valia o esforço para agradar o amor da sua vida.

    E em todas as vezes ela entregava um pavê diferente de tudo que seu noivo já havia provado na vida. Ela se superava a cada receita, a família acompanhava entre orgulhosa e tensa. O rapaz como era de se esperar dava cambalhota de prazer mas ao final tinha sempre aquele “mas” terrível.

    A moça não se abalava mas diante da situação que se repetia – “meu amorzinho está uma delícia mas…” – decidiu apelar: convocou sua avó, mais duas tias-avós de Barbacena e foram as quatro para a cozinha. Agora não tem mais jeito: esse pavê vai ter de sair nem que seja na marra, decretou a indignada noiva.

    Foram dois dias de trabalho, experiências e tentativas. Até que finalmente chegaram a uma conclusão e fizeram o pavê. O noivo foi chamado e apresentado ao doce. Ela estranhou que dessa vez ele não parecia tão animado como das outras ocasiões mas relevou. Deve ser receio de me desapontar ou cansaço de tanto comer, tadinho.

    O pavê foi posto na sua frente, uma fatia foi cortada. As quatro mulheres estavam à mesa com os olhos pregados nele. Com tanta pressão em cima, o noivo sorriu sem graça e disse que antes de provar precisava dizer uma coisa. A noiva se aproximou e olhou séria. Pode falar, disse.

    Sabe meu amor eu aprecio muito mas muito mesmo toda essa dedicação que você tem em fazer aquele pavê da minha avó. Mas tem um porém.

    Já sei, vai dizer que o pavê não existe, era delírio de criança, disse uma das tias-avós.

    Ou o ingrediente secreto era maconha, rebateu a outra tia-avó às gargalhadas.

    Tias, por favor, deixa ele falar, reclamou a noiva. Vai meu amor, me conta se abre comigo qual é o porém.

    Então como eu ia dizendo, lembra que eu tive Covid-19?, falou devagar o noivo.

    Sim, meu amor, foi um susto danado. Ainda bem que você teve a forma mais branda, recordou a noiva.

    Sim, foi mesmo mas tive sequelas, avançou o noivo.

    Quais?, espantou-se a noiva.

    Eu estou com anesmia, disse o rapaz.

    Você vai contar para a gente que diabo é isso ou vou ter de pesquisar no google?, disse a avó da noiva.

    Anosmia é perda de olfato, explicou ele.

    A noiva arregalou os olhos e ficou muda.

    O rapaz olhou para ela triste e segurou suas mãos: não sinto cheiro de nada e não tem qualquer perspectiva de que volte a sentir. E sem olfato não consigo sentir o gosto de nadinha…

    Xii, então fodeu de verde e amarelo, resmungou a avó.

  • Fábula do Afeto e do Amor

    Um dia Afeto chamou Amor para conversar. O olhar de Afeto era afetuoso, assim como o tom de suas palavras. Mas aos ouvidos de Amor dessa vez elas soaram estranhas, porque inéditas. Nunca ouvira da boca de Afeto nada tão neutro. Não havia agressividade, verdade seja dita, mas faltava algo. Calor.

    As palavras escolhidas por Afeto eram muito distantes das que Amor se acostumara a escutar em sua convivência. O que Afeto disse, a sugestão de conversarem, desceu pelos ouvidos de Amor causando calafrios. Isso, as palavras eram frias.

    Amor se arrepiou e custou a acreditar que estava mesmo diante de Afeto e não de Rancor ou Mágoa. Afeto queria conversar mas o convite vinha desprovido de afeto. Era algo quase formal, como se cumprisse uma obrigação desagradável.

    Amor engoliu em seco, sorriu sem graça para disfarçar o incômodo e disse que sim, claro, vamos conversar. Os dois se encontraram e aconteceu o inesperado: da boca de Afeto nenhuma palavra saiu. Amor espiava curioso sem entender o que estava acontecendo. E Afeto ficava ali sem jeito, sorrindo tímido como se esperasse que Amor tomasse a iniciativa.

    O silêncio entre os dois perdurou o tempo de ficar constrangedor além da conta e a ansiedade de Amor transbordar. Se controlando e usando voz suave e tom baixo, com receio de desagradar, Amor perguntou porque Afeto não falava nada. Ao que Afeto retrucou sem graça que a iniciativa de falar sempre fora de Amor e que Afeto sempre respondia ou reagia às palavras de amor do Amor. Você sempre falou tão bem, tem um domínio tão lindo das palavras, sorriu Afeto, utilizando um encantamento corriqueiro entre eles. Um charminho quase dengoso que era o início de conversas sinuosamente agradáveis e íntimas. Mas que dessa vez não surtiu efeito. A química entre os dois fora afetada.

    Amor lembrou a Afeto que quem havia sugerido a conversa tinha sido ele, Afeto, e por isso ele, Amor, entendia que a iniciativa não cabia a si. Sorrindo sem jeito Afeto concordou porém nada disse.

    Enquanto permanecia silenciosamente diante de Afeto, Amor percebeu que estavam sentados curiosamente próximos mas ao mesmo tempo distantes. Em outras eras quando Amor encontrava Afeto sempre se aproximavam mais, chegando ao ápice de se misturarem a tal ponto que ficava difícil saber onde terminava o Afeto e começava o Amor. Difícil e desnecessário, dizia nessas ocasiões Amor, derramando todo seu repertório amoroso para deleite de Afeto.

    Mas agora, tudo mudara. Afeto percebeu que Amor notou a distância que surgira entre eles. De sua parte, seguia em seu mutismo constrangido. Como se não soubesse o que fazer. Afeto e Amor pela primeira vez desde que se conheciam não conseguiram falar nada um para o outro.

    Amor se mexia em seu assento, inquieto. Não tinha costume de ficar longe de Afeto e a cada momento notava alarmado que eles se distanciavam cada vez mais. O olhar de Amor era agonia e ansiedade. O de Afeto, tristeza.

    Para piorar, Amor estava com receio de falar. Sempre foram sinceros e transparentes um com o outro. Mas ali, naquele momento, não mais. Algo se quebrara e Amor não sabia o quê, nem como, nem porquê. Decidiu perguntar a Afeto. Amor escolhia as palavras, selecionava o tom de voz mais tranquilo para se expressar mas nada saía ainda de sua boca. Na hora de dizer algo, calou-se indeciso e triste sob o olhar enigmático de Afeto. O mutismo constrangedor era contagiante.

    Por quanto tempo eles ficaram assim, nesse impasse, ninguém sabe dizer. Se fosse perguntado, Afeto diria que foi um pouco, talvez mais. Amor diria que durou uma eternidade ou um pouco menos.

    Há várias verdades no mundo e uma delas é que ninguém mora na casa da Tristeza para sempre. Ela tem um bom número de hóspedes ocasionais mas nenhum morador fixo. Amor foi um deles. Mudou-se para lá logo após esse encontro silencioso. Se Afeto também tomou essa decisão, Amor não saberia dizer. A morada da Tristeza era enorme e dava para ter muitos hóspedes ao mesmo tempo sem que eles se cruzassem por seus frios e silenciosos corredores. Amor ficou lá até o dia em que abriu a janela do seu quarto e viu o Sol com outros olhos.

    Chegou até a janela do seu quarto para se aquecer e sentiu o vento matinal que parecia convida-lo a fazer algo, tomar uma atitude. Por fim, Amor ouviu as ondas do mar ao longe e disse para si: hora de ir embora.

    Arrumou sua bagagem, pequena em comparação com a que tinha trazido, e botou o pé na estrada. Se sentia um pouco melhor, não por completo, mas o suficiente para caminhar. Saiu devagar pela porta da morada da Tristeza enquanto cantarolava bem baixinho os versos de Travessia, de Milton Nascimento.

    Diante de si surgiram vários caminhos. Alguns ainda com suas pegadas e outros com marcas difíceis de identificar. Amor suspirou profundamente e seguiu em frente por um deles. A brisa que soprava era agradável e por quase todo o trajeto ele sorriu leve. Eventualmente a cada nuvem que encobria um pouco o Sol lembrava do que ocorrera entre ele e Afeto. Primeiro forte, depois mais branda a lembrança foi diminuindo até sobrar um eco triste e carregado de decepção. Nada além. No fim do caminho ele encontrou a praia de areia branca indicando ao Amor que havia chegado ao local de descanso e paz.

    O tempo passou, não se sabe quanto. O Amor seguia leve de frente para o mar. Um dia qualquer, com Sol quente mas não muito, mar calmo e água convidativamente fria, estava o Amor conversando alegremente com Compreensão, Razão e Felicidade. Ao se virar distraído, para sua surpresa viu, a meia distância de onde estava, Afeto. Calou-se estático e sentiu um aperto no coração.

    Afeto sorriu tímido. Compreensão, Razão e Felicidade olhavam perplexas de um para outro. O silêncio e a imobilidade dos dois era angustiante. Ali diante de Afeto, Amor repassou toda a existência em comum deles dois. Toda a lembrança do que haviam passado veio forte novamente. Os bons momentos, que não foram poucos e muito quentes, e o final triste e gélido.

    Então, Amor se virou devagar e tomou outro rumo. Sem acenar ou olhar para trás. Felicidade ficou com lágrimas nos olhos, Compreensão suspirou e Razão nem se mexeu, lançando somente seu olhar neutro. Afeto ficou perplexo com a atitude de Amor. Sentiu um aperto na garganta enquanto ele se distanciava devagar e sozinho.

    Dizem que à noite, cada um em seu bangalô à beira mar, os dois choraram baixinho.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • Ultimo café

    Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas.

    A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só.

    O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa. Enquanto todos tricotavam alegremente sob o sol gentil, ele permanecia silencioso na penumbra.

    Uma variedade de sucos, doces, chás e cafés ocupavam os tampos espalhados pelos terraços e eram consumidos distraidamente pelas pessoas. Na sua mesa, seu café duplo demorou a chegar. Veio acompanhado de um biscoitinho de sabor neutro e sem entusiasmo. Melhor se estivesse só, como ele.

    Não esperava ninguém, para ser honesto. Estava sozinho, bebendo devagar o café para não queimar a língua.

    Estava ali porque se convencera a conhecer o lugarzinho charmoso que abrira há pouco numa rua transversal à sua, ou melhor, aonde ele mora porque não era dono de rua alguma.

    Usou a desculpa de conhecer a cafeteria para sair de casa porque decidira que precisava ver a vida em movimento.

    E estava vendo. Espectador da alegria alheia, ouvinte de pedaços de conversas que nada lhe diziam. Flashes da vida mundana. Nada além.

    Por um momento imaginou que poderia ter alguma companhia para esse café à tarde.

    Mas a mínima hipótese de pensar em chamar alguém o fazia mudar de ideia. Suas amizades eram poucas, a despeito de conhecer bastante gente. Conhecimentos que não iam além do mais profundo “alô”.

    Suspirou, a tarde terminou de escoar, as mesas próximas ficaram vazias.

    A sua, em breve, seria a próxima porque iria embora. Não estava frustrado porque ninguém lhe fizera companhia. Não tinha de se queixar porque ela se atrasou ou não apareceu. Simplesmente, porque não chamara ninguém.

    Pensou, mas desistiu. Não queria ninguém para um alô. Nem para um último café.

  • Ruptura

    Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas.

    Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e seus olhos voltavam para as obrigações. Agora, chamadas de obrigações mas que um dia foram recebidas com entusiasmo porque faziam parte de sua escolha.

    A opção por essa vida tinha sido sua há 20 anos. Era mais jovem do que hoje, naturalmente, mas ainda estava em boa forma. Toda manhã se olhava no espelho e sorria constatando: ainda sou um mulherão.
    Mesmo com sua rotina pesada e complexa, não abria mão dos cuidados essenciais. Unhas toda semana, para citar somente um aspecto, em nome do que ela chamava ser seu pacote básico feminino.

    Por dentro, mantinha alguns hábitos de higiene intelectual, como cinema e encontros com as amigas. Ver um filme, como ela sempre falava, era a forma de enxaguar seu cérebro. E encontrar as amigas era para deixar a gargalhada em forma. Mulherão por dentro e por fora, era assim que se definia.

    Por conta do seu cotidiano hiper atarefado era chamada de guerreira. Houve uma época em que sorria envaidecida quando escutava isso. Nos últimos anos, no entanto, esse suposto elogio a tirava do sério. Não era mal criada, longe disso, mas não deixava passar em branco.

    Toda vez que escutava que era “guerreira” respondia: guerreira não, sou sobrecarregada. Intimamente sempre soube que um dia teria que dar um fim a isso tudo. Aquela vida que um dia fora boa hoje se tornara um tormento. O problema estava em pegar a faca e cortar as cordas. Romper é um processo doloroso e necessário. Para ela, se desvincular e seguir adiante se tornaram situações que um dia ela teria que vivenciar.

    Só não imaginava que romperiam por ela. Doeu fundo quando escutou as palavras duras. Por fora manteve a postura corajosa, afinal é uma mulher adulta e independente. Mas por dentro escorreram lágrimas por sua alma que por pouco não transbordaram.

    Dedicara mais de 20 anos de sua vida para ser dispensada sem mais nem menos. Mas honestamente, ela esperava o que? Um número musical? Mãozinhas dadas e palavras doces?

    Sem chance. A vida era dura e isso fazia parte dela.

    Ergueu-se, ajeitou o vestido e olhou em volta para ver se faltava algo a ser levado. Parecia que estava tudo encaixotado, mas talvez ainda precisasse dar mais uma olhada. No coração, as mágoas que sentia pela ruptura ainda pulsavam. Arqueou as sobrancelhas e disse para si mesma: pode doer agora mas nada disso vai me abalar.

    Nesse instante lembrou-se das sábias palavras de uma amiga do tempo de escola. Sorriu para si e concluiu que naquele instante aquele conselho se tornara um imperativo em sua vida.

    A amiga disse certa vez: Para estar sempre preparada tenha à mão um bom advogado…trabalhista!

    Suspirou fundo e pensou: sem emprego mas isso não vai me abalar porque ainda sou um mulherão. E foi em busca de mais uma caixa de papelão.

  • Com um tirano na barriga

    “Fulano tem um rei na barriga”, todos conhecem o dito e, sem dúvida, ao menos uma pessoa que se enquadra no tipo que ele procura representar. De igual maneira, há quem possua um tirano na barriga. Mesmo que nunca tenha ouvido a expressão, tenho certeza de que o leitor conseguirá apontar alguém com essa característica.

    Esse tirano é também rei. Por vezes, crê ser um deus. O certo é que sempre corresponde a um déspota, mas nunca esclarecido (especialmente sobre si). Todavia, essa tirania só possui fundamento na mente do próprio indivíduo, repleta de megalomanias e delírios de poder.

    Ele está em todo lugar, no trabalho, dentro de casa, nas repartições públicas, na direção das empresas privadas, pode até ser você. Só há um lugar em que não é capaz de o encontrar: no consultório de psicologia. Aí, jamais! O divã se transforma em uma verdadeira maca cirúrgica, a partir de onde o tirano será extraído.

    Para comandar, não precisa da opinião alheia; afinal, se difere da dele, você está errado e é um ignorante. Em nenhuma hipótese, ouse discordar de Sua Alteza, a detentora da verdade universal e absoluta. Aliás, se há quem ainda acredite nesse tipo de verdade, são esses senhores, que não a veem na ciência ou em qualquer entidade religiosa, mas em si.

    O ideal de humano, claro, é ele próprio, o arquétipo da perfeição. Os outros habitantes da Terra, vis e repletos de defeitos, são hierarquizados de acordo com a proximidade ou distância das características divinas representadas nele. Casos de flagrante diferença não serão aceitos pacificamente em seu reino; pelo contrário, o anormal e problemático terá de ser açoitado e inferiorizado cotidianamente.

    Detentor do poder sobre tudo (poder outorgado e aclamado por ele mesmo), buscará reger o mundo, governando pela ordem e pelo arbítrio, como um autocrata. Casos de desobediência são julgados como lesa majestade. Quem tentar seguir um caminho diferente do decretado, estará sujeito à fúria do tirano.

    Sabedor de todas as verdades, não se equivoca nas suas ordens, que devem ser acatadas e cumpridas. Quem tem um tirano na barriga cobra obediência. Não é para menos, imagina-se em uma posição de direção e mando. Anda como um capataz a vigiar os subordinados; com estes, só se comunica de cima.

    Nada pode se suceder no espaço sob sua jurisdição sem que passe por ele. No seu domínio, tudo precisa estar nos conformes (vale dizer, nos seus conformes). Não espirre quando o ser supremo não quiser, ainda que não saiba da indisposição desse sujeito para tão pequeno e incontrolável ato.

    O cuidado é sempre necessário e deve ser constante, não se sabe o que pode despertar aquela ira. Todavia, isso não basta, a nação vive ao sabor das flutuações do ânimo da potestade. Ao acordar, reze para que ele tenha despertado bem.

    Não é só o referido procedimento cirúrgico que corresponde ao motivo pelo qual não vemos esses sujeitos no psicólogo. Quem carrega um tirano na barriga nunca irá aceitar a necessidade de ser acompanhado por um profissional dessa área. Aliada ao preconceito que ainda existe em torno da terapia, a empáfia dessas pessoas não permite isso.

    Admitir que possui problemas, aceitar que carece de ajuda? De maneira nenhuma. No tirano, abunda a sobranceria. Seus devaneios de superioridade não permitem qualquer ato que possa parecer fraqueza ou rebaixamento ao nível dos mortais. Aquela suposta posição cimeira precisa ser defendida a qualquer custo e a todo momento, inclusive diante dos casos mais fúteis e que não trazem nenhum questionamento.

    No fundo, o tirano todo-poderoso sente sua enorme fragilidade.

  • A idade do bobo

    A idade do lobo é a expressão com que se costuma designar a andropausa. Não sei por que foram escolher o lobo como referência para esse delicado período, que se traduziria melhor por meio de um bicho menos feroz. Geralmente nessa época o indivíduo tem pouca coisa de lupino; está mais para cágado, coruja, caramujo ou qualquer desses animais estáticos e meditabundos.

    Talvez a analogia com lobo venha da tristeza uivante com que ele vê o desejo indo embora. Não propriamente o desejo, que esse não se extingue nunca, mas a plena possibilidade de satisfazê-lo. Os uivos seriam uma demonstração de desespero impotente, um ganir melancólico de quem sente a aproximação da morte.

    Há quem diga que a designação de “lobo” deve-se a que o crepúsculo da libido se reveste de uma aparência oposta. Por uma espécie de compensação, o indivíduo se tornaria agressivo e conquistador. Perseguiria com insaciável ousadia as mulheres mais novas, lembrando nisso um lobo faminto à cata de ovelhas.  E quanto mais tenras, mais apetecíveis.

    Acredito que tanto a melancolia quanto a afetada hipersexualidade justificam a denominação. E que por esse último aspecto a Idade do Lobo comumente se transforma em idade do bobo. Nada haveria de grave se o indivíduo sofresse o seu banzo de forma recolhida, aceitando com superioridade e compostura o arrefecer do desejo e (o que mais dói!) a indiferença das mulheres.

    Mas o comum é ele descambar de lobo para bobo, o que só tende a piorar o quadro. É típico do processo, por exemplo, interpretar como sinal de correspondência ao seu olhar faminto um simples sorriso ou um gesto despretensioso de carinho. Isso o faz deveras sofrer, pois é próprio das mulheres novas sorrir muito e ser naturalmente carinhosas (as maduras são mais sérias).

    Cada sorriso, cada aceno de voz gentil deflagra nele uma paixão. Só muito depois, diante do espelho, ele compreende que aquela meiguice tinha alguma coisa de filial. Fora tratado, por deferência à idade, como uma espécie de pai. Ou pior: de tio. Quando se dá conta disso, seus uivos se tornam mais tristes.

    O limite da idade do bobo pode ser o extremo ridículo ou um recuo tático rumo às atividades do intelecto e do espírito. Uns fazem poemas, outros se voltam para a filosofia (filosofar, como alguém já disse, é aprender a morrer) ou se tornam adeptos de alguma religião. Se nada mais esperam do corpo, que pelo menos se salve a alma.

    Mas há os que se recusam a cair na real. E podem, nesse cultivo de paixões impossíveis, até chegar à tragédia. São bobos tristes, terminais, que tingem os cabelos – e a careca – para disfarçar os efeitos do tempo. Em vão.

  • Solecismo amoroso

    – Eu lhe gosto.

    – Eu gosto de você. 

    – Hem?!

    – Eu também gosto de você, ora.

    – Está me corrigindo?

    – Corrigindo como?

    – Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você!”. Disse tudo certinho.

    – Nem pensei nisso.

    – Lhe incomoda eu falar errado? Você é capaz de amar uma mulher que não sabe português?

    – Que é que isso tem a ver?

    – Tudo. Eu fui sincera, disse o que naturalmente sentia. Não pensei na forma. Quem é que pensa na forma numa hora dessas? Falei que gostava de você, ou melhor, que lhe gostava. E você nem reparou no que eu disse. Reparou no meu verbo errado.

    – Pelo amor de Deus, não dramatize. Eu repeti o que você tinha me dito, só que de um jeito um pouco diferente.

    – Mais correto. Sem erro – como é que se diz? – de regência. Ou de concordância, sei lá.

    – Regência.

    – Está vendo? Me corrigiu de novo. 

    – Você não perguntou? Respondi à sua pergunta. Sei que é de regência por acaso. Foi uma das poucas coisas que aprendi no colégio. Tinha regência em Português e em História. Em Português a regência era do verbo e de certos nomes, em História era de Feijó. Você não lembra? Diogo Feijó.

    – Pare, por favor. Você parece que não percebe a gravidade do que aconteceu. A partir de hoje, a partir desta conversa, alguma coisa se partiu entre nós. Definitivamente. Perdi a espontaneidade, jamais serei a mesma. Vou ter que vigiar minhas palavras, senão elas não chegam até você.   

    – Fale como achar melhor, ora. O importante é o que se diz, e não…

    – Mentira… E ainda por cima mentiroso! Como pude gostar de alguém que está mais interessado na qualidade do meu português do que na sinceridade do meu afeto? Pra você não importa o que eu sinto, e sim a forma como devo expressar minhas emoções.  

    – Você está exagerando, está sendo ridícula.

    – Ridícula? Ah! Primeiro ignorante, agora ridícula. O que mais? Posso ser tudo isso, mas não sou insensível. E sabe de uma coisa? Nosso namoro não daria mesmo certo.

    – Mas íamos tão bem…

    – Até você me corrigir em hora tão imprópria. Que marido você ia dar! Agora corrige minha linguagem, depois certamente vai querer interferir nas minhas roupas, nos meus hábitos, nos meus amigos. O casamento com você seria uma eterna sabatina, um interminável exame de seleção. Eu ia ter que me policiar dia após dia para não ser reprovada. 

    – Mas que loucura!

    – Ignorante, ridícula, e agora louca… Basta! Não quero ouvir mais. Adeus.

  • O verso e seu inverso

    Frequentemente, uma leitura puxa a outra e acabamos em um fim diverso do que planejamos. Foi assim que caí em Massaud Moisés. Melhor, na sua obra A criação literária, que, há um bom tempo, aguardava na estante o meu retorno.

    Procurando ser uma introdução ao estudo da literatura, o livro nos traz uma abordagem sobre os gêneros literários, onde, em certa passagem, aparece a discussão sobre a adequação deles no trabalho do escritor. O ex-professor da USP fala que o autor precisa encontrar o gênero que esteja de acordo com o que pretende transmitir. Caso sua escolha seja inapropriada, ele produzirá uma obra ruim ou irá falsear o conteúdo que tem em mente.

    É claro que a atenção rígida às fronteiras é algo que interessa mais aos teóricos que aos escritores. Entretanto, o próprio Moisés aponta que a má utilização do gênero chega ao público, implicando na sua experiência de leitura e na avaliação que ele faz do texto literário.

    Mais ou menos correta essa teorização (tendo em vista também alguns fundamentos e consequências da ideia) e sendo a causa ou não do fenômeno de que falarei; a questão é que, de imediato, aquela passagem me lembrou certos exemplares da poesia contemporânea. Não por pudor, mas por justiça e retidão na avaliação, devo dizer que corresponde a uma parte da produção poética atual, não à sua totalidade, nem à sua fração mais representativa.

    O que se vê ali, muitas vezes, assemelha-se mais a um texto em prosa repartido do que a um poema. Faça o teste, leitor; você, com certeza, conhece um caso desse. Escolha um espécime dessa tendência e faça a leitura como se estivesse diante de uma obra prosaica, ignorando a sua apresentação em versos. Haverá estranhamento?

    Muitos desses trabalhos, dariam uma ótima crônica ou até um belo poema em prosa, mas a sua expressão se deu por outro caminho. Por que empreendem seu fazer literário pela poesia? Não sei, seria difícil generalizar e precisar. Mas o fato de existir isso nesse gênero, talvez, mostre-nos um desafio, que deve ser enfrentado pelos críticos e, sobretudo, pelos poetas.

    O verso ali existe sem sentido como verso. Ou seja, não é propriamente um verso, mas uma repartição, feita por motivos e critérios que nem sequer conseguimos apreender, mas que, certamente, não são estéticos.

    Isso diz respeito também a um desleixo com a forma, vindo de uma ignorância diante dela. Ignorância no seu duplo sentido, por não se atentar no momento da escrita a esse elemento tão primordial e por não haver conhecimento sobre a própria matéria do seu ofício. Negligencia-se a forma e se atém única e exclusivamente ao conteúdo, no seu sentido mais estrito. O produto disso é um texto em prosa decomposto em linhas.

    O verso existe. Pode parecer algo óbvio isso, mas é necessário dizer: o verso existe como verso. Afinal, se existir sem ser como verso, pode ser uma linha, uma mera partícula de prosa, mas não é verso.

    Não estou aqui a querer defender que esse gênero é sinônimo de verso, muito menos desse na sua forma anterior à moderna; nem objetivo argumentar em favor de preceitos estéticos já há muito tempo superados. Não nutro essas outras ingenuidades. O que afirmo é que o verso não é um mero recorte, nem sua existência como tal deriva de um procedimento aleatório ou do simples ato de apertar a tecla enter no computador.

    Dirão: “os gêneros evoluem, a poesia evolui”. É verdade. E estou de acordo com a ideia e com propostas de experimentação, as quais me ponho sempre aberto. Todavia, essa evolução nunca alcançou o ponto de indicar que a poesia é qualquer coisa e seria problemático se um dia chegasse a isso.

    Além de tudo, é sempre bom lembrar que experimentar é diferente de ignorar. Para aquele, é necessário conhecimento sobre o objeto com que trabalha. Para esse último, basta o outro sentido da palavra. O primeiro resulta em desenvolvimento poético, o segundo, apenas em má poesia.

    O modernismo anunciou e permitiu a liberdade no fazer poético, realizou uma série de experimentações e marcou rupturas. Não obstante, mesmo o concretismo, o mais radical dos movimentos de vanguarda, jamais caminhou para a ideia de que poesia é qualquer coisa. Os que anunciaram encerrado o ciclo histórico do verso estariam no front contrário dos epígonos da prosa picotada.

    Porém, engana-se quem pensa que isso é novidade, coisa do século XXI. O problema é mais antigo, mas parece ter ganho maior força nos nossos tempos. Diante desses que, por vezes, arrogam para si uma suposta verdadeira herança do modernismo; lembro sempre de um artigo de Manuel Bandeira, um dos principais poetas da fase heroica e profundo conhecedor de poesia. Deixo-lhes com uma passagem muito esclarecedora do bardo:

    “Sem dúvida não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribui-lo em linhas irregulares, obedecendo tão somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre. Se fosse, qualquer pessoa poderia pôr em verso até o último relatório do Ministério da Fazenda. Essa enganosa facilidade é causa da superpopulação de poetas que infestam agora as nossas letras. O modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a todo o mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema. Resultado: hoje qualquer subescriturário de autarquia em crise de dor de cotovelo, qualquer brotinho desiludido do namorado, qualquer balzaquiana desajustada no seu ambiente familiar se julgam habilitados a concorrer com Joaquim Cardozo ou Cecília Meireles.”

  • Aos sonhos, afinal

    Acordou mal. A noite foi ruim. Um sonho, o único que ele lembra, foi o responsável pelo seu estado atual.

    Um sonho ruim onde a dúvida se tornava certeza. Nada mais dela na sua vida, nada mais com ela ou sobre ela. Nada mais.

    Passou o dia angustiado com a mera lembrança do sonho. Piorou quando recordou que à luz da psicanálise o sonho pode ser a manifestação de desejos inconscientes. Pode, no condicional, mas por conta do estado de angústia em que se encontrava tornou-se certeza.

    Desejo é sempre ligado a algo que se quer, lembrou ele ao longo do dia. O sonho revelador seria isso então, um desejo?

    Mas por que sua mente lhe pregara essa peça? Por que desejar o que não nos faz bem?

    Desejar ela longe de si, seria o desejo oculto guardado no fundo de seu inconsciente que nas horas silenciosas da madrugada emergia suave mas decidido? Mas por que essa certeza de não a ter mais seria de fato algo ruim?

    Talvez precisasse assumir para si mesmo que nada mais de bom haveria de vir dela, ou melhor da relação com ela. Projetar uma reconciliação era fantasia. A distância talvez seja melhor do que a proximidade?

    Sonhar com a certeza, disse para si mesmo, não era de todo ruim. Melhor que viver na dúvida.

    A certeza ruim dói uma vez, ou duas. A dúvida imobiliza eternamente.

    Afinal, disse para si quando voltou para casa, o sonho não teria trazido o desejo de algo ruim mas sim da mudança necessária. Adiada por razões várias, da falta de coragem à esperança fútil. Mudança necessária? E, quem sabe, mesmo bem vinda?

    Sim, definitivamente.

    Nada mais de buscar a mensagem dela que nunca virá, a atenção que ele não recebe mais dela. Livre, afinal. Liberto por vontade própria. Livre para dar outro rumo à sua vida.

    Naquela noite deitou-se ansioso, reconciliado. Que venham os sonhos, afinal.

  • Cobra no ventilador

    Juro, mas deu cobra no ventilador da minha avó. Mas esse negócio aconteceu lá em Minas, terra da sua avó? Que Minas que nada, isso foi com minha outra avó e aconteceu no Rio de Janeiro, lá no Recreio dos Bandeirantes.

    Ah, que é isso? No Recreio? Zona Oeste do Rio, selvagem desse jeito? Como é possível? Porque naquele tempo era tudo mato não era como hoje, um bairro urbanizado. Era uma casa aqui, outra acolá, a da minha avó, mais outra lá longe e por ai até aonde a vista alcançava.

    Nossa parece estória passada na roça. Mas na minha infância, a roça era o Recreio. Tá bom e o negócio da cobra. Sim, foi minha avó quem descobriu. A cobra estava enrocada no motor de um ventilador pequeno de plástico, azulzinho, acho que a marca era Faet.

    Sim eu lembro, pequeno e tinha um motor forte.

    Esse mesmo. Bom a cobra estava dentro do ventilador. Exato e o ventilador estava na sala. Pera aí, na sala? Como foi que a cobra entrou lá? Não lembrei de perguntar a ela.

    Muito engraçadinho. Continua.

    Bom ai foi um drama. Minha avó pescou o ventilador com uma vassoura e pôs do lado de fora da casa. Aquela tensão no ar, eu e outras crianças de olhos arregalados esperando o desfecho da situação e minha avó com aquela expressão de alguém corroída pela dúvida. Por que?

    Porque a única solução que ela via para resolver o problema era tacar fogo no ventilador. Ai matava a cobra. E minha avó perdia o ventilador. Sério? Sua avó estava em dúvida por que ia perder o ventilador?

    Sério. Minha avó tinha muito respeito pelo dinheiro que meu avô ganhava, eram outros tempos lá nos loucos anos 70 do século XX. Sei, claro, mas e aí?

    Ai aconteceu o inacreditável.

    A cobra saiu do ventilador? Não, surgiu um sorveteiro. Sorveteiro?

    É, um cara com um isopor no ombro cheio de sorvete. Isso era comum. Surgiu do nada? Isso mesmo, do nada. O cara apareceu no portão vendendo sorvete. Minha avó gritou que não queria nada porque tinha uma cobra no ventilador. E o cara?

    Como se fosse a coisa mais natural da face Terra ter uma cobra no ventilador ele nem discutiu nem perguntou nada. Mas disse que se minha avó quisesse ele pegava a cobra sem estragar o ventilador.

    Sua avó topou na hora, pelo visto.

    Claro. Prendeu o Nero, o primeiro pastor alemão que ela teve, e deixou o cara entrar. Ai foi um momento de raro sangue frio. O sujeito pegou um alicate e com ele bateu de leve na carcaça do ventilador. E aí?

    A cobra foi espiar o que era e ele num gesto rápido apertou a cabeça dela. Ponto final. No duro? No duro. O cara puxou o corpo morto da cobra, que minha avó mandou queimar e incensar a casa por fora para espantar as outras cobras.

    E o sorveteiro? Vendeu o isopor inteiro para a minha avó. Olha com todo respeito isso está parecendo conto de realismo fantástico. Por que?

    Como é que surge do nada um sorveteiro naquela roça que era o Recreio naquela época? Você não acha isso possível? Ah bem sei lá, é estranho. Depois, que fim levou o sorveteiro. Foi embora, ora.

    E quem deu a idéia de usar a cobra para defumar a casa da sua avó por fora? Acho que foi o sorveteiro. Ah é? Sei tô achando que esse sorveteiro era outra coisa. O que por exemplo?

    Ah não sei, uma entidade, um orixá, um anjo da guarda, um protetor espiritual.

    Posso te falar uma coisa? Pode. Larga do copo ou me diz o que você anda bebendo porque também quero viajar.

    Xau.

  • Para melhor agradecer

    Tenho lido críticas por parte de estudiosos da língua ao uso de “Gratidão” no lugar de “Obrigado”. Alegam que esse é um caso de pedantismo e não deve substituir a forma clássica com que nos acostumamos a reconhecer um favor. “Gratidão”, de fato, soa um tanto pomposo. É como se, com a escolha do substantivo, o favorecido quisesse enfatizar o sentimento e não simplesmente mostrar que dele está imbuído.

           – Já que você não pôde ir para o almoço, vim aqui lhe trazer uns sanduíches.   

           – Gratidão.

    Vejam que o beneficiário, ou beneficiária, não se limitou a mostrar-se agradecido(a). Evocou o que no ser humano é uma manifestação de grandeza de alma. Escolhendo o substantivo, leva o receptor a preencher todo um contexto elíptico (“Diante do favor que me fez, demonstro-lhe minha…”). Convenhamos em que isso torna o diálogo um tanto solene e pouco natural.   

    Risque-se então “Gratidão”, estou de acordo. Mas por que usar necessariamente “Obrigado”, e não “Grato”?  Este é sintético, franco, e não sugere nenhum prévio compromisso da parte do favorecido.

    No “Obrigado”, como se sabe, o contemplado “se obriga” ao dever da retribuição. Confessa-se compelido a retribuir o favor mesmo que não esteja sendo sincero. Fala mais por um dever social do que por um impulso espontâneo, que traduza o reconhecimento pelo benefício recebido.

    As coisas que fazemos por obrigação nem sempre são prazerosas. Quem já não ouviu de alguém a justificativa de que “fez porque foi obrigado”, ou seja, de que agiu de determinada maneira porque não tinha alternativa? Por que transferir essa possibilidade ao domínio das gentilezas e dos favores?

    Se “me obrigo” diante de alguém, tenho-o como credor ou juiz – tipos sociais que não nos acostumamos a ver com simpatia. O primeiro nos cobra, o segundo nos julga, e ninguém se sente à vontade quando submetido a tais injunções. 

    Sei que a sociedade se rege por obrigações de uns para com os outros. Mas não fica bem estendê-las ao domínio das reações espontâneas e afetuosas, como as que experimentamos diante de quem nos presta um favor ou concede uma graça. 

    Não vou deixar de dizer “Obrigado”, que já é um clichê e cujo esvaziamento semântico vem se estendendo ao plano morfológico. Tanto é assim que o vêm empregando tanto homens quanto mulheres (para desespero dos adeptos da linguagem neutra, que escolheriam “Obrigade”).

    Mas confesso que prefiro mesmo “Grato”, que não comporta nenhum dever retributivo e tem o mesmo étimo de “Gratidão”. Além do mais, sendo um adjetivo, enfatiza o estado do beneficiário e não a substanciosa grandeza do sentimento. Sem falar que ganha da concorrente pela extensão. Os manuais de estilo, como se sabe, recomendam o uso de palavras curtas, e por esse critério o dissílabo “Grato” é preferível ao polissilábico “Obrigado”.

  • Considerações de véspera sobre a véspera

    Véspera. Do latim vesperae. A tarde, ao cerrar da noite. Poeticamente, ao encerrar um ciclo solar. Dos pequenos, claro.

    Deriva também de Vésper, a estrela que não é estrela, visível a olho nu quando a tarde cai.

    Véspera é o território preferencial da ansiedade. Quando estamos a poucos passos ou horas daquilo que desejamos. Ou não desejamos mas é inevitável que venha até nós.

    Dizem por aí que a arte reside em controlar a ansiedade da véspera. Papo. Eu já tentei inúmeras vezes em mais de cinquenta anos de existência. Nesse tempo todo jamais – ou quase jamais – tive sucesso. Perco o sono que é uma beleza.

    Achei seis dicas para domar a ansiedade, reunidas pela BBC, British Broadcasting Corporation, fundada em 1922. As dicas da centenária BBC são:

    Monitore os seus pensamentos.

    Faça atividades físicas e pratique meditação.

    Encontre um propósito – nem que seja cuidar de seu animal de estimação.

    Veja o lado bom da vida (por mais que isso seja desafiador)

    Viva no presente.

    Busque terapia – na sexta posição e, a meu ver, como último recurso se os demais falharem. Ainda não cheguei aqui mas é bom ter a lista à mão. Se bem que umas linhas acima eu admito que perco o sono por ansiedade. É, acho que já é o caso de terapia. Mas vejo isso depois de malhar na academia.

    Voltando.

    Há sucessos que só duram até a véspera, como o reinado daquele rei destronado em batalha no dia seguinte. Ricardo III que teve insônia – olha mais um!!! – na noite anterior ao combate e foi assombrado por fantasmas daqueles que morreram por sua culpa. Ao menos é o que está na peça de Shakespeare que já se sabe é historicamente imprecisa. Um detalhe que não ofusca sua beleza dramática.

    Seguindo.

    Véspera da decisão daquele jogo em que o craque de um time foi para a farra e o outro foi atender ao chamado de um menino que acordou na emergência infantil do hospital chamando pelo seu ídolo. Foi na zona sul do Rio de Janeiro, no século passado, o craque prometeu ao garoto o título. E no dia seguinte, com gol de barriga cumpriu a promessa.

    No século XVII o pintor, arquiteto e artesão espanhol Alonso Cano fez uma obra em madeira intitulada “Véspera” que está na catedral de Granada, Espanha.

    O bem humorado Adoniran Barbosa tem um samba chamado “Véspera de Natal”. Termina em comédia pastelão com direito a ação do corpo de bombeiros

    “Véspera” é o nome do terceiro livro da escritora mineira Carla Madeira. Não li mas espiei uma resenha e acho que deve ser uma obra bem interessante. Vou em busca.

    Todo esse papo aleatório porque hoje, sexta-feira, 23 de setembro, é véspera. Mais uma de muitas, dirão.

    Mas para mim, a mais importante das vésperas. Quando o sábado chegar será festa. Contemplarei o momento e o viverei na boa companhia das estrelas da minha vida. Andaremos pelo mundo, plenos de alegria e em busca de diversão tendo aos ouvidos “Ode à alegria”, de Beethoven. Ao cair da noite, estaremos juntos, cansados e felizes.

    Agora, na véspera, tentarei inutilmente ao longo do dia domar a ansiedade. E a noite, só me restará achar o sono.

  • Errata celeste

    Os que acreditam na influência dos astros em suas vidas devem ter ficado chateados com Parke Kunkle, professor de uma instituição americana. Segundo ele, “está errada a interpretação dos movimentos celestes usada pela astrologia para determinar os signos de acordo com a data do nascimento das pessoas”. Isso porque os mapas astrológicos, produzidos 3.000 anos atrás, estariam há muito defasados. Com a mudança no posicionamento do eixo da Terra, uma pessoa que se imaginava capricorniana, por exemplo, é na verdade de Sagitário. Um suposto taurino, como eu, pertence ao signo de Áries.  

    Sem querer ser presunçoso, confesso que no íntimo eu desconfiava disso. Sentia certo descompasso entre o meu modo de ser e o desenho do meu signo, que me colocava sob a égide de um touro (bicho grosso e intratável), quando em minha alma pasta um cordato carneirinho. Não exagero se disser que essa foi uma das razões para eu nunca ter dado muita importância aos astrólogos. Sempre confiei mais nos genes e na força das circunstâncias. 

    Imagino a confusão que esse quiproquó planetário está causando na cabeça daqueles que programam suas vidas conforme o alinhamento da Terra em relação às estrelas. Eles têm na cartografia celeste um roteiro que, revelando-se ou não acertado, lhes serve de guia. Alguns a primeira coisa que fazem, antes de sair da cama, é consultar o horóscopo para ver se devem ou não fechar um negócio, fazer uma viagem, iniciar um caso amoroso. De repente vem esse professor e os deixa sem chão, ou melhor, sem céu em que possam ver delineado seu mapa existencial.    

    Não deixa de ser estranho que pensemos que Marte, Vênus ou alguma daquelas constelações distantes tenham a ver com o emprego que devemos assumir, a roupa que devemos vestir ou a mulher com quem devemos nos casar. Crer nisso não tem fundamento, mas para muitas pessoas faz todo o sentido. O mecanismo pelo qual tais crenças lhes parecem coerentes é o mesmo que fundamenta as religiões; explica-se pelo desejo de fugir ao desamparo, à incerteza quanto ao futuro e, sobretudo, ao medo da morte.   

    Ninguém pense que a descoberta de Kunkle vai mudar a crença de quem depende dos astros para conseguir a paz interior. Desde quando se crê em alguém, ou em alguma coisa, com base em evidências racionais? A  razão serve de esteio para o que se conhece, e não para aquilo em que se acredita. O fermento da ciência é o saber; o da crença é a ilusão.

    No máximo os adeptos da astrologia farão um pequeno ajustamento em seus signos – há os que vão continuar lendo as previsões segundo o mapa antigo. Se mudou o lugar das constelações, endireite-se o eixo da Terra, corrija-se o Cosmo. O importante é que, ao acordar, eles possam iniciar o dia com a certeza de que farão as escolhas certas. E, sobretudo, de que alguma força transcendente os protege contra as armadilhas do Acaso.

  • Entrevista de Itararé (com o Barão Idem)

    Apparício Torelly, conhecido como o Barão de Itararé, foi um famoso jornalista que atuou na imprensa brasileira nas primeiras décadas do século passado. Notabilizou-se pelo espírito crítico e o humor ácido, expressos em tiradas como as que constam na entrevista abaixo. Fi-la (ele deploraria essa ênclise!) extraindo passagens da sua obra, que tem servido de estímulo e inspiração a muitos humoristas brasileiros. Vamos então às perguntas:

    P – O senhor promete dizer tudo neste bate-papo? Não vai esconder a verdade?

    R – Sou um homem sem segredos, que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas.

    P – Falemos primeiro de política. O Brasil discute agora o seu regime de governo. Muitos querem o presidencialismo – pelo futuro não do País, mas do presidente de plantão. Que pensa o senhor sobre isso?

    R – A moral dos políticos é como elevador; sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia …

    P – Por falar em política, o senhor tem alguma sugestão para o pagamento da nossa dívida?

    R – Tempo é dinheiro. Vamos então fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o tempo.

    P – E como ficam os credores internacionais?

    R – Quem empresta, adeus …

    P – A mudança no regime de governo deve alterar o processo de escolha dos homens públicos, Barão?

    R – O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

    P – Falemos de outras coisas. O senhor considera que exista alguma regra para comer e beber?

    R – Comer até adoecer, beber até sarar.

    P – Verdade, Barão? E o fígado?

    R – O fígado faz muito mal à bebida.

    P – O álcool às vezes, realmente, é um consolo para os misantropos. Ou para os misóginos…

    R – Quanto mais conheço os homens, mais gosto das mulheres.

    P – Mas isso o levaria, por exemplo, a se casar?

    R – O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.

    P – Ora, dizem que os homens inteligentes dão bons maridos.

    R – Que tolice! Os homens inteligentes não se casam.

    P – Mudando de assunto. Como o senhor vê certos frutos modernos do engenho humano – como por exemplo a televisão?

    R – A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana. Com o progresso, um ignorante pode somar maquinalmente.

    P – Ah, então o senhor é um passadista. Acredita, como Comte, que os vivos são governados pelos mortos.

    R – Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mais vivos.

    P – Dou-me por satisfeito, Barão. Muito obrigado.

    R – O “Muito obrigado” é sempre um pagamento módico.


  • Antes que seja tarde

    A chuva caí forte no solstício de verão. É de tarde. O barulho da água lá fora, junto com os trovões, atiça minha preguiça. Uma luz suave entra pela janela coada pelas gotas grossas do temporal, o primeiro do verão conforme indica o calendário.

    Em 10 dias mais um ano terminará. Penso em quantas pessoas eu não dirigi uma única palavra em quase 365 dias. Muitas mesmo. Com pouco mais de uma semana não será possível compensar essa desatenção da vida moderna.

    Ou seria minha mesmo? Ficar sozinho me agrada porque consigo conviver bem comigo mesmo. Conheço gente que acha que esse é um momento de reflexão. Papo furado.

    Quando estou sozinho não faço nenhum esforço intelectual. Seja sem ninguém em casa, seja envolvido pelo silêncio doméstico enquanto as melhores partes de mim mesmo dormem tranquilas. Silêncio é silêncio.

    Aos meus ouvidos chegam os sons dos passarinhos, o ronco baixo da cidade que não para nunca, só diminui de ritmo; e as teclas tocadas que transformam o que penso nisso que você lê.

    Mas não sou tão eremita como dou a entender. Gosto da companhia das pessoas, eventualmente. Me animo a ir ao encontro de quem conheço e até de desconhecidos, em lugares onde sou um anônimo que, pretensão minha, poderá despertar a curiosidade alheia. Nem que seja de um olhar ligeiro. E sigo.

    Oscilo sempre entre o silêncio confortador e o palavreado animado das conversas leves. A escolha não sei como faço, só sei que faço.

    E com 10 dias ou menos para terminar o ano não têm como falar com todo mundo a quem deveria ter ao menos dirigido uma palavrinha afetuosa.

    Mas sou bem relacionado e conto com essas boas relações para me fazer presente. Me refiro aos pássaros e não as pessoas.

    Dobrarei pequenos cumprimentos, palavras gentis e sorrisos afetuosos e os colocarei nas asas dos passarinhos que visitam minha janela. Rogarei para que eles vão até as pessoas com quem estou em falta para despejar sobre elas meus cumprimentos. Atrasados, mas sinceros.

    Chegarão em tempos distintos porque as distâncias e os temporais atrasarão as entregas.

    Mas chegarão. Antes que seja tarde e com a promessa que em 2025 não deixarei de falar com ninguém. Ou tentarei com mais afinco.


  • A recusa a envelhecer

    Tem crescido o número de pessoas que se submetem a procedimentos estéticos. Segundo li em matéria divulgada pela Internet, no Brasil houve um aumento de 390% na procura por esses procedimentos no primeiro trimestre de 2022, em comparação com o mesmo período do ano anterior”. Retirada de gordura, preenchimento facial ou mesmo a tradicional plástica são comuns nos que querem melhorar o seu aspecto físico.   

    Muitos desses procedimentos não são seguros, e a gente se pergunta o que leva as pessoas a correrem esse tipo de risco. A resposta parece óbvia: a recusa em aceitar a deterioração que a velhice traz. Se beleza é juventude, como se costuma dizer, envelhecer é ficar feio e ir de encontro às determinações de uma sociedade que exalta a aparência e pouco liga para o que há dentro de cada um.   

    Recentemente morreu Alain Delon, um dos ícones modernos da beleza masculina. A mídia fez questão de confrontar sua imagem de hoje com a do jovem que décadas atrás fazia as garotas suspirarem. Desse confronto emergia a dura percepção do que o tempo faz ao corpo, roubando-lhe o prumo, o viço, a esbeltez que ele ostenta nas primeiras décadas de vida.

    Bilac escreveu que a velhice é coisa vil – lembra Rubem Braga em uma de suas crônicas. “Vil” quer dizer “desprezível”, um adjetivo forte e talvez injusto, mas que muitos usam sem hesitação nem pejo para qualificar esse delicado momento da vida.

    Um paradoxo curioso é que antigamente, quando a ciência cosmética dispunha de poucos recursos, havia uma maior aceitação da chamada senectude (expressão ante a qual muitos se arrepiam, temerosos das macacoas comuns a esse estágio da vida). Envelhecia-se mais cedo, é verdade, mas havia uma maior tendência a aceitar o duro veredicto do tempo. Parecia não haver mesmo outro jeito.        

    Hoje o comum é se insurgir contra as transformações determinadas pela velhice. Se existem alternativas, por que aceitar as rugas, estrias e outras marcas que ela traz?  Não é melhor submeter o corpo aos reparos que, com o dispêndio de uma boa grana, podem lhe dar um aspecto de novo juvenil?

    Tudo seria simples e gratificante se a Natureza propiciasse esse tipo de reversão. Apesar de filosoficamente se falar em “eterno retorno”, a verdade é que o tempo não nos permite retroceder. No mais das vezes, os estratagemas com que procuramos nos furtar ao seu fluxo terminam por se voltar contra nós. Piorando, por exemplo, o aspecto que se queria esconder. Ou ironicamente antecipando o fim, como ocorre nos acidentes letais que vemos hoje em mesas e leitos de cirurgias estéticas.


  • Três passarinhos

    Três passarinhos vieram me ver um dia desses. Se penduraram na rede de proteção da minha janela e me chamaram. Parei o que estava fazendo e fique a observa-los.

    Piavam muito. Em princípio achei que era só animação matinal mas depois reparei que eles giravam o corpo e ficavam pendurados na rede do lado de dentro do meu quarto. Fiquei com receio que voassem por dentro do apartamento. Mas isso não aconteceu.

    Com o tempo parado em função do piar deles imaginei o que queriam comigo. Comida de passarinho não tem aqui em casa. Nem nada de maior interesse para eles. Talvez viessem me trazer um recado de alguém. Um recado longo porque precisou ser piado por três passarinhos ao invés de um.

    O que seria? Uma mensagem de alerta? Uma lembrança boa? Um canto em louvor a liberdade? Uma anedota que não compreendi?

    Ou simplesmente me fizeram a cortesia de interromper meu dia, me fazendo deixar por uns instantes a rotina na selva do trabalho e trazendo essa doçura selvagem que só a mãe-natureza tem.

    É, deve ter sido isso. Me devolveram o lirismo que estava anestesiado pelo trabalho.

    Puseram poesia em um dia qualquer que com seus pios insistentes deixou de ser mais um.

    Voltem. Serão sempre bem vindos.


  • A ambiguidade é inimiga da clareza

    Ambiguidade é a duplicidade de sentido. Ela pode se constituir num bom recurso expressivo, mas deve ser evitada quando compromete a clareza do texto. São ambíguos enunciados do tipo:

    — “Vivemos numa sociedade cuja aparência é mais importante do que a essência.” (o uso de “cujo” no lugar de “em que” dá a entender que a aparência da sociedade é mais importante do que sua essência, e não que na sociedade atual a aparência importa mais do que a essência);  

    — “A maioria das redes e blogs dá apenas uma visão parcial do indivíduo que publica.” (não está claro se quem publica é o indivíduo ou a maioria das redes);

    — “Um grupo de assaltantes rendeu elevou o carro de uma família.” (parece que o grupo rendeu o carro antes de levá-lo!!).

    Um dos fatores que levam à ambiguidade é a má ordenação das palavras. Quando o período não está na ordem direta, pode haver margem para mais de uma interpretação. Por exemplo: “Encontrou o diretor o secretário na sala de reuniões”. Não se sabe quem encontrou quem.  Na ordem direta, em que o sujeito aparece antes do complemento, desfaz-se o equívoco: “O diretor encontrou o secretário na reunião.” Outra forma de distinguir sujeito e objeto é antepor uma preposição a este último: “Encontrou o diretor ao secretário na sala de reuniões”. 

    Deslocar o atributo oracional para longe do termo que ele modifica pode tornar ambígua a frase: “Refiro-me a um conflito no meu namoro, que ocorreu há oito anos”. O que aconteceu há oito anos – o conflito ou o namoro? Como a referência temporal diz respeito ao conflito, o melhor para a clareza é deslocar a oração adjetiva: “Refiro-me a um conflito que ocorreu há oito anos no meu namoro”.

    A separação entre componentes de uma mesma função sintática também pode gerar ambiguidade. Exemplo: “As pessoas que gostam de saber das novidades procuram a internete até mesmo as grandes empresas, para vender seus produtos.” O aluno dá a entender que apenas “pessoas” é sujeito do verbo procurar, e que “internet” e “grandes empresas” são objetos diretos. A frase fica sem sentido, pois o propósito do autor era afirmar que tanto as pessoas quanto as empresas procuram a rede. Ele traduziria claramente essa ideia se tivesse mantido coordenados os sujeitos: “As pessoas que gostam de saber das novidades e até mesmo as grandes empresas procuram a internet para vender seus produtos.”

    No plano semântico, é comum haver ambiguidade devido à polissemia. A diversidade de sentidos de uma mesma palavra pode levar a que se diga o que não se queria dizer. Em redação sobre a atual crise da Igreja, outro aluno escreveu: “Hoje, por força das circunstâncias, a Igreja admite a pedofilia em alguns de seus membros”.

    Entre os significados de “admitir”, está o de “reconhecer” (“Ele admite seu erro”); o redator quis dizer que a Igreja, forçada pelas circunstâncias, reconhece que há pedófilos entre seus membros. Não lhe ocorreu que esse verbo tem também o sentido de “aceitar”, “permitir”, o que poderia levar a um julgamento negativo da instituição religiosa.

    www.chicoviana.com


Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar