Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por que não fiquei em casa? Não gosto de réveillon. Poucas festas me agradam. Não acredito que alguma simpatia vai mudar o nosso fado. Preciso ver os meus pais, então continuo olhando para o chão. Esbarro num morador de rua. Ele estava em pé ao meu lado, embriagado. Pediu cigarro e dinheiro, para comprar cachaça. Gostei da sua sinceridade. Dei dois contos e dois cigarros que tinha no bolso da camisa amarela enferrujada. O homem falava embolado, mas percebi que me abençoava: “Deus… Deus… Deus”. No segundo quarteirão encontro a cachorrinha de dona Ermínia. Como ela veio parar aqui? Bem fugiu de casa, num descuido da velhinha. Coloquei-a no braço. Teria de levar a bendita cachorrinha para a passagem de ano. Que sina essa minha; esse tipo de “aventuras” parece que só acontece comigo. Num instante, as luzes se apagaram. Poucos carros circulavam. Dois minutos de pleno apagão. Parei um pouco a caminhada, para não me atrapalhar. Fiquei com medo de assalto ou algo do tipo. E o pior, só tinha o meu celular no bolso, o qual, eventualmente, usaria para mostrar a minha identidade à polícia ou fazer algum pix. Logo voltou a iluminação pública, embora meio capenga. Faltar energia na virada de ano não é bom presságio, diria Ronaldo, meu amigo, se estivesse vivo. Caminho ainda mais devagar. Meu pé parece estar em carne viva – é como eu o sinto. Avisto a casinha de meus pais. Adianto o passo para chegar na hora combinada, às 22h45min. Pego a chave no bolso. Abro a porta e entro. Ligo as luzes. Espero, na cadeira empoeirada, a presença de meus pais. Eles chegam radiantes. São dois anjos, vislumbrei, afinal foram e são almas puras. Minha mãe se senta ao meu lado. Pergunta sobre as minhas dores. Diz que vai interceder a Deus para melhorar. Meu pai fica em pé, admirando a nossa conversa. Ele ainda me recrimina por ter vindo passar o Ano-Novo com eles e não com a minha família, com meus filhos. “Papai, foram todos para lugares diferentes, não tem como juntar aqueles capetinhas”. Minha mãe me recriminou por ter chamado seus netos de capetinhas. Já se escutam os fogos. O ano vira. Fico quieto com meus pais. Abraço-os de um jeito infantil, como se pedisse colo, como se fosse o pequeno Nando, como sempre me chamaram quando menino. Minha mãe diz que tem de ir, e meu pai a acompanha. Marina, minha ex-esposa, pergunta por que não vendo a casa, depois da morte de meus pais. Ela não tem ideia do que acontece aqui. Só eu sei o poder que esse lugar mágico tem.