surdos

  • Audição criativa

    Vamos falar de surdos. Surdos no sentido coloquial, não surdos de verdade, isso é assunto para especialistas. Só percebi a diferença quando assisti a um diálogo entre um senhor e a atendente de uma loja que vendia aparelhos auditivos. Quando ele se queixou de que era surdo, ela foi objetiva:

    — O senhor não é surdo, se fosse eu não poderia ajudá-lo. Seria mais ou menos como fazer um cego enxergar usando óculos. Sua audição é deficiente.

    Tenho vários desses surdos no meu entorno. Como ouvem mal o que dizemos, ou simplesmente não ouvem, o diálogo é difícil. A maioria dos surdos tenta suprir as falhas de audição adivinhando o que está sendo dito. Se o tema é irrelevante, a gente deixa para lá, mas nem sempre é o caso.

    Não raro um diálogo vira monólogo por parte do surdo. Você fala uma coisa, ele entende outra e, a partir de certo ponto, continua sozinho a conversa, agindo como se o outro estivesse participando.

    — Você pegou o jornal?

    — Não, eu não passei mal.

    — Eu perguntei se você pegou o jornal.

    — E eu já respondi que não passei mal!

    — Onde está o jornal?

    — De novo? Estou ótimo, normal.

    — O JORNAL!! Onde está?

    — Ah!… A única notícia interessante de hoje é que “Vestido de Noiva” do Nelson Rodrigues vai ser reencenada. Você leu?

    — Como posso ter lido se nem sei onde está o jornal?

    — É realmente sensacional.

    — Esquece.

    — Concordo, o texto merece.

    — Eu vi há alguns anos, gostei muito.

    — Estreia semana que vem.

    — …(silêncio)

    — Um clássico do teatro.

    — …(silêncio conformado)

    — Você conhece a peça? Gostaria de assistir?

    — …(silêncio desesperado)

    A surdez rende situações hilárias, mas rende igualmente brigas e discussões. Duas amigas entraram numa loja de conveniência, deram uma voltinha, resolveram sair. A surda foi à frente e a outra, já quase na porta, decidiu comprar uma garrafinha de água. Pegou rapidamente a mercadoria, foi para a fila do caixa e avisou à surda:

    — Fulana, espere um pouco.

    A surda continuou andando, a amiga repetiu o pedido em voz mais alta. Repetiu uma, duas, três vezes, gritou uma quarta, mas não teve jeito. Ela não queria desistir da água, nem podia sair sem pagar. A surda desapareceu na rua e, dois minutos depois, reapareceu na porta da loja, furiosa.

    O surdo, protegido pelo silêncio, não acompanha as agruras de quem tenta se comunicar com ele. Costuma reagir indignado e rotular de impacientes os pobres interlocutores. Acredite se quiser, já ouvi a seguinte frase.

    — Eu não sou surdo, você é que não gosta de repetir.

    É óbvio que o surdo não consegue avaliar o quanto está deixando de ouvir. A surdez não se instala da noite para o dia, ele vai perdendo aos poucos o contato com o entorno.

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — FULANO, QUER IR AO CINEMA?

    — Está gritando comigo por que? Está pensando que eu sou surdo?

    Eu amo todos os meus surdos, mas acho que eles são impiedosos. De vez em quando um deles pergunta porque ando tão estressada. Se trocassem de lugar comigo por uma semana, entenderiam.

    Talvez eu tenha sido surda em vidas passadas e agora esteja pagando por isso. Deve ser carma.

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