Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto isso, minha parte principal, a mais quente — e contraditoriamente, segundo minha natureza humana, a mais íntima e mais exposta, órgãos e sentimentos — segue descamadando, arranhada, soltando pedaços; Meu quinhão arcado e inflexível, frio inclusive ao toque, é o que parece rejuvenescer e ser digno de alguma coisa.
De onde estou, vivo uma vida isolada, mesmo imerso no caos da vida, no burburinho. Minha principal alegria é o observar. Comportamentos, mudanças climáticas, o lugar tornando-se memória. Nada me envolve em regozijo mais profundo.
Da mesma forma que me restrinjo na resposta sobre o advérbio temporal do aqui, não sei precisar a data em que iniciei o meu ofício. Muito novo, trabalho mais do que infantil, disto tenho certeza: prematuro. Cortaram minha ligação materna sem que eu tivesse a chance de compreender o básico da vida; me aventuraram por outras paragens, mesmo que minha sina seja sempre estar fixo. Sempre atento. Minha dádiva e, por vezes, castigo.
Castigo como o que aconteceu recentemente. E me corta o coração, mesmo que física e até subjetivamente eu seja desprovido de um, eu tenho, sim, uma paixonite secreta por um vizinho. Sujeito intrigante, taciturno; todo conhecimento, todo em busca de atenção. É considerado ultrapassado, vive encardido, poerento. Há quem diga que parou no tempo, dono de um linguajar e um traje no mínimo vintage — eu o considero impecável. Nunca trocamos palavras, nem toques. Sonho com o dia em que alguém o escolherá e virá até mim, abrirá inebriado sua pele em camadas e, por um instante – que será todo o meu mundo —, o deixará sobre mim. O ápice da minha existência seria entendê-lo assim, aberto, nu, sua lombada roçando minha pele áspera, a espalhar letras e calor. Nesse toque, eu estremeceria inteiro; meu corpo de madeira se partiria em arrepios. Ouvir-se-ia o meu estalo íntimo, a dilatação do que me constitui, enquanto eu gozo no segredo que só os mobiliários públicos conhecem. Sou um banco, ele, um livro – quase acervo vitalício do sebo do seu Jorge. Vitalício.. quase…
Por muito tempo meu deleite foi paquerá-lo de esguelha, seu perfil visível quando a barraca metálica estava aberta, ele sempre posto em uma posição, nem de destaque, nem de esconderijo.
Cachorros marcaram-me como seu território. Compras foram descansadas sobre mim. Marginalizados sociais me tomaram como cama — mais de uma vez. Conversas animadas, mãos bobas, certas de que ninguém testemunhava as indiscrições do desejo humano — por vezes traições conjugais. Brigas, estilhaços de garrafas. A tinta que sempre vem marcando o fim dos mandatos de certos prefeitos, em busca de reciclagem de votos e de marcar fisicamente o que fizeram. As flatulências de crianças e idosos, que impregnam eternamente minhas fibras, chuvas e sol a pino. Tudo me marcou menos do que a existência daquele volume ameaçado de extinção.
Até a madrugada mais fria que já presenciei. E se tratando de Nova Friburgo, esse relato é alguma coisa. Começou sem que eu entendesse o que acontecia, eu, sonolento, ainda processando a chuva de verão em pleno inverno, dias antes, repleta de raios e granizo. Quando compreendi que pernas passavam cheias de más intenções. As solas dos sapatos, ainda as vejo, como se fosse agora; as reconheceria instantaneamente.
Em instantes, fui trazido ao momento presente ao ouvir o estalo que mais arrepia a alma de quem é feito de madeira: o crepitar do fogo. A barraca, fechada, brilhava com a luz crescente. Foi rápido demais. Foi intenso e maldoso demais. Eu tentei gritar por ajuda, mas, paralisado, não tenho voz. Senti meu livro agonizar. Eu agonizei. Minutos lentos e horripilantes que se intensificaram com labaredas bailarinas, o sorriso no olhar meliante, a fuga traiçoeira e o barulho das sirenes quando eu já quase desmaiava de pavor.
Eu vi tudo, sob angulos melhores do que o das cameras, estas mais silenciosas quando solicitadas do que minha imobilidade de banco de calçada. Ninguém nunca me vê como testemunha. De mim, nádegas a declarar.
*Imagem retirada do site: https://ecoserrano.com.br/tag/incendio-quiosque-de-livros/