Alguém já disse que um dia de sol no verão do Rio de Janeiro chega a ser musical. Há no ar uma atmosfera positiva, de bom humor e de vontade que a vida dê certo. As pessoas circulam mais leves, esbanjam-se sorrisos e há uma eletricidade positiva no ar conectando a todos. O clichê que diz que o carioca é um ser solar se encaixa com perfeição quando chega o verão.
Esse era justamente um domingo desses. Ele acordou cedo desperto pela claridade intensa que invadiu seu quarto. Na véspera ficara em casa vendo “MacBeth”, a versão estrelada com Michael Fassbinder, acompanhado de um bordeaux achado no supermercado e surpreendentemente ótimo. Tomou café, espiou pela janela e encontrou esse domingo radiante. Sorriu, trocou de roupa, vestiu sua camiseta do “Poderoso Chefão”, o tênis de atividade física com calcanhar reforçado e foi para a rua. Seu destino era a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Nada de praia. Decidiu que hoje queria caminhar, quem sabe pedalar e se desse sorte encontrar alguma capivara nadando. Tomar água de côco, o clichê dos últimos anos de quem circula pela Lagoa, faria parte do cardápio. Sem patrulha estética, só curtição.
Foi de metrô. Desceu na estação Jardim de Alah e caminhou até a Lagoa. De saída a vontade de pedalar falou mais forte e pegou um desses modelos que os bancos espalharam pela cidade. Ali perto chamou sua atenção uma barraca de frutas enorme, com uma mulher quase do tamanho da barraca vestida de vermelho e preto. Na hora lhe veio a mente que a figura se adequava bem ao lugar onde estava porque afinal, ali pertinho ficava a sede do Flamengo. Ela falava muito, cumprimentou ele e mais quatro pessoas sem perder o fôlego, seguindo sua rotina de vender frutas, sucos e dar bom dia.
O rapaz achou graça, escolheu uma bicicleta e ganhou a ciclovia na direção do Clube Naval, onde as capivaras nadavam nas proximidades. Pedalava contente, em ritmo pouco acima do passeio e bem abaixo do treino. Queria rodar sem compromisso fora o de desfrutar esse prazer.
Parou junto a outras pessoas que buscavam as capivaras e nada viu. Tinha gente aborrecida com isso mas ele disse em alto e bom som: hoje é folga das capivaras e com esse calor devem estar em casa no ar condicionado. Todos riram espantando o clima de decepção dando lugar ao astral leve e contagiante do dia.
Depois de passar pela sede náutica do Vasco, ao virar o rosto um instante na direção do bairro, veio a memória que do outro lado, lá na avenida Jardim Botânico, estava o parque Lage. Um dos lugares preferidos dos dois. Parou de pedalar e ficou sério.
Suspirou fundo. Já havia passado um tempo desde a conversa que ele tivera com ela naquela manhã, no quiosque na encosta do Leme. As palavras trocadas foram de certa forma amenas mas definitivas. Não havia mais espaço para eles dois existirem juntos. Ficou chateado, óbvio, mas aliviado porque a tensão da incerteza desaparecera e podia enfim tocar sua vida. Achava, portanto, que estava curado. Mas não era bem assim.
Naquele instante as lembranças vieram fortes e intensas o suficiente para interromper seu passeio e mudar seu humor. Sentiu percorrer por seu corpo uma sensação fria, como um jorro de água gelada descendo pela coluna vertebral. Sua memória se inundou com as lembranças dos momentos felizes, dos piqueniques a dois no parque Lage, regados a vinho branco e queijos. Os olhos ficaram úmidos e sentiu um travo na garganta.
Suspirou, afastando a vontade de chorar e fez força para retomar as pedaladas. O ar fresco e a necessidade de prestar atenção às demais pessoas na ciclovia ajudaram a se desconectar daquelas lembranças. Seguiu de olho na ciclovia espiando o que a paisagem lhe mostrava, como garças e outras aves aquáticas. Valia tudo para voltar ao estado de tranquilidade que estava nele antes da interrupção.
Decidiu dar outra parada, mais adiante na altura do corte do Cantagalo, um pouco antes do acesso a Copacabana. Desceu da bicicleta para beber água de côco. O vendedor esbanjava alegria e comentou com ele: hoje está um dia daqueles. Ele sorriu e respondeu formal que sim era um belo dia de sol. O moço piscou o olho para ele, com aquele jeito masculino cúmplice, e disse: hoje só não encontra alguém quem não quiser. O rapaz deu uma risadinha e deixou escapar um “quem sabe” mas o outro, ao que parece, percebendo que algo não ia bem com ele continuou: basta prestar atenção em volta, ter olhos de olhar e coração de sentir. Ele se espantou com a frase bem estruturada e nem teve tempo de falar nada porque o vendedor disse: espantado? Olha meu amigo eu não nasci vendedor. Antes de vender côco eu era professor e fazia mestrado em literatura grega.
O rapaz arregalou os olhos e ficou mudo. O vendedor resumiu sua vida explicando que chegara a barraquinha de côco por falta de alternativa para se sustentar, depois que um incêndio criminoso destruiu a fábrica da família e matou seus pais. Ele ia falar algo quando o moço o interrompeu com um gesto: eu vivo um dia depois do outro e você deve fazer o mesmo. Portanto vá e quem sabe aquela que vai te fazer sorrir está por aí, na próxima curva da lagoa.
O rapaz agradeceu, pagou, subiu na bicicleta e antes de partir perguntou: como você se chama. O vendedor sorriu e apontou para o nome escrito em sua barraquinha com rodas – Tirésias – e gargalhou alto.
Pedalou para longe do vendedor ainda incrédulo e espantado por ter passado por aquele impressionante encontro. Tirésias, o profeta cego de Tebas, quem diria, vendendo côco na Lagoa. E em sua versão carioquíssima ele não me alerta dos perigos por vir mas me anima com palavras gentis e espirituosas. E eu, o Ulisses moderno e desprovido de Penélope mas navegando a esmo, o escutei. Cada uma que me acontece…
Estava distraído quando quase na frente da sede náutica do Botafogo viu uma moça parada ao lado da ciclovia segurando sua bicicleta, igual a dele emprestada por um banco. Ela olhava atenta ora para um lado ora para outro. Ele parou a meia distância observando-a. Não era linda mas muito charmosa, sem sombra de dúvida. Nas costas levava um colchonete enrolado, que daquela distância lembrava uma aljava. Nossa, pensou ele, é Ártemis, a caçadora, diante dos meus olhos. Será que ela precisa de ajuda? Como me dirijo a uma deusa?
Como não se decidia se ia até a moça ou não se manteve parado, absorto com a bela visão. E tão concentrado estava que não percebeu a moça com o corpo virado na sua direção o encarando. E custou a escutar ela o chamando até que ela gritou: ei, você é surdo ou é estátua de sal? Assustado ele respondeu: bem vivo. Então senhor “bemvivo” me diz: para que lado está a barraca de frutas da Creusa? Creusa? É, sim, uma mulher grande, assim, gordona que se veste de vermelho e preto mas não é flamenguista. Ela não torce para o Flamengo? Que nada, Creuza detesta futebol, ficou viúva depois que o marido enfartou em um jogo do Vasco. E por que se veste com aquelas cores? Porque são as cores de Exu. Ah, nossa, nem tinha me tocado. Pois é, e sabe que combina com ela. Por que? Porque uma das atribuições de Exu é ser o orixá da comunicação. Puxa, nem imaginava, mas por que combina com ela? Porque a Creusa fala pelos cotovelos e dá bom dia até para passarinho. Verdade, eu percebi isso. Mas sem crítica a ela, por favor, é coisa do orixá dela. Olha como não sou religioso nem imaginava que ela se vestia em atenção a Exú. Nem eu sou religiosa. E como conhece sobre candomblé? Sou professora de cultura afro-brasileira. Ah tá.
E ficaram nessa conversa mais uns minutos até ele lembrar de informa-la para que lado estava a barraca de frutas da Creusa. Como também era a direção que ele seguiria, foram pedalando lado a lado, se desviando ocasionalmente dos demais ciclistas porque sempre tem muita gente na ciclovia, ainda mais nos domingos de sol. A conversa seguiu leve a respeito da natureza que os cercava até chegarem ao seu destino. Os dois devolveram as respectivas bicicletas e sem parar de conversar foram a barraca da Creusa. Pediram o especial do dia, suco de abacaxi com laranja, e beberam ali mesmo. Foi só nessa hora que ele se lembrou que não sabia o nome da moça. Sorriu, comentou e se apresentou. Ela sorriu de volta, estendeu a mão e disse: prazer, Diana.
Ele teve um acesso de riso e ela não entendeu a razão. Ele explicou que Diana era o nome romano da deusa Ártemis, a caçadora. E isso é engraçado desde quando?, quis saber ela assumindo um ar sério. Ele tremeu.
Não era de fato engraçado. Rira de nervoso porque quando a viu achou que ela fosse a personificação da deusa grega. Deu uma tossidinha e já estava ensaiando algo para se justificar quando ela riu com vontade e disse: seu bobo, foi só sacanagem minha, até porque estou acostumada que façam brincadeiras com meu nome. Ah é? Sim, os mais eruditos fazem referência a Diana, a caçadora, versão romana da deusa grega. Claro, confesso que foi o que me passou pela cabeça. Mas aqueles mais sintonizados em cultura popular fazem referência a Diana Prince. Diana quem? Menino, a Mulher Maravilha! Ah claro, nossa sim a Mulher Maravilha! Pela sua cara acho que era fã dela. Eu e todos os garotos da escola adorávamos o seriado da televisão.
E ficaram mais um tempo por ali, sentados em um banco de madeira rememorando séries de televisão do tempo em que eram jovens, os aparelhos tinham tubos imensos e as opções de canais se resumiam a uns quatro ou cinco. Quando do nada ela alegremente propôs: se você não for fazer nada hoje, que tal um cineminha logo mais? Topo, respondeu ele sem hesitar. A gente se encontra na estação Botafogo do metrô e espia o que está passando em algumas daquelas três salas que tem por ali. Assim, sem ver a programação antes? Será impossível não ter nada que a gente não queira ver, concorda? É, acho que sim. Tenha fé, querido e vamos confiar em Ifá, o orixá do destino. Mesmo? Claro, afinal pode ter sido obra dele esse nosso encontro? Ou de Moros, o deus grego do destino, rebateu ele. Touché, disse ela com um sorriso.
Se levantaram e ele a acompanhou até seu carro que ela estacionara ali perto. Se despediram com dois beijos, como manda a boa cortesia carioca. Já no carro ela disse antes de partir: Você é engraçado, um tantinho estranho, mas bastante agradável. E foi embora. Ele ficou olhando o carro seguir e suspirou sorrindo. Como era o destino! Por no seu caminho Diana a caçadora! Era um presságio maravilhoso e se conhecesse algum oráculo iria correndo fazer uma consulta.
Quase rindo ao se imaginar no templo de Apolo consultando o deus sobre seu destino, se virou para tomar o rumo da estação do metrô do Jardim de Alah quando sentiu, vindo por trás, uma brisa suave meio perfumada. Um arrepio percorreu seu corpo. Uma brisa como aquela vinda do nada, não parecia obra do acaso. A lembrança da ex veio forte. Ela sempre se referia a si mesma como bruxa e que eventualmente conversava com os elementos. No início achava engraçadinho mas depois achou aquilo uma bobagem arrogante, sem sentido. Mas naquele instante a lembrança dela se fez presente naquela brisa perfumada.
Ficou parado sem se mover. A impressão que tinha era de ser observado por um par de olhos, provavelmente muito conhecidos seus. Ia se virar para conferir quando inesperadamente seu corpo não se mexeu. Olhando fixo na direção da estação do metrô pensou um instante e sorriu para si. Resistiria a tentação de conferir simplesmente porque não estava mais interessado. O que passou, passou. Agora é seguir em frente, disse para si, sentindo-se bastante aliviado com sua força de vontade.
Qual Ulisses não se dobrou a tentação do canto das sereias. E caminhou firme para longe dali. Porque hoje à noite iria encontrar Diana. E não se deixam as deusas esperando.